Magnífico Reitor Gilson Cajueiro de Holanda

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Faleceu na última sexta-feira, 6 de abril, aos setenta e dois anos, vítima de complicações de uma longa enfermidade, o Economista Gilson Cajueiro de Holanda, 4º Reitor da nossa Universidade Federal de Sergipe.

Gilson era filho do Professor Manoel Mendes de Holanda, um dos mestres fundadores da antiga Escola de Química de Sergipe e de sua senhora Dona Lourdes.

Economista de profissão, Gilson Cajueiro graduou-se pela antiga Faculdade de Ciências Econômicas de Sergipe, sediada na Praça Camerino de onde foi depois um de seus Mestres e Diretor.

Como Economista destacou-se na esfera pública, sendo, bem jovem, Secretário de Estado nos Governos João Garcez (1970) e Augusto Franco (1978-1980), presidindo o CONDESE e constituindo o quadro de Auditores do Tribunal de Contas de Sergipe.

Na Universidade Federal de Sergipe, participou das administrações dos Reitores Luiz Bispo e Aloísio de Campos, sendo membro atuante nos Conselhos Superiores e eficiente Diretor da Faculdade de Economia.

Por sua atuação universitária, Gilson Cajueiro de Holanda foi um dos membros eleitos para a composição da lista sêxtupla dos elegíveis para o cargo de Reitor, escolha procedida em 1976 pelo colégio eleitoral ditado pelo Estatuto de criação da UFS.

Embora tivesse alcançado um expressivo sufrágio, o nome de Gilson Cajueiro não foi o escolhido. Com votação inferior, foi nomeado como 3º Reitor da UFS, o Professor José Aloísio de Campos.

Quatro anos depois, por essa expressiva votação Gilson ressurgiria como forte candidato à Reitoria, não fossem mudadas as regras e a composição estatutária da UFS, com a extinção dos Institutos e Faculdades inerente à fragmentação Departamental e a Criação das Pró-reitorias e Centros Universitários, reforma que daí para frente ensejaria a continuidade administrativa, sem exceção, de Reitor sempre coroar Reitor, seu Vice-Reitor em sucessão, com ou sem eleição.

A exceção fora Gilson Holanda ousando quebrar esta cadeia de perpetuidade da UFS e sofrendo na própria pele o ônus da demagogia, porquanto nunca se vira até então na UFS, tantos autoritários invocando liberdade e democracia.

Assim, o eleito de antes, agora é o “Reitor Biônico”, espécie indesejável repelida por radicais e maquiavélicos em conluio com pantagruélicos e chacais, afinal a UFS, por sua excedência de cargos e comissões só ensejaria a perpetuidade no poder e a repartição dos favores a cada eleição.

A exceção, porém, fora Gilson, um reitor sumamente criticado por aqueles que, afastados do poder, não sossegariam enquanto não retornassem, à força da crítica e do trabalho de demolição indormidos.

Não conheci na minha vida universitária um reitor mais aberto e sensível a todas as ideias do que o Reitor Gilson Cajueiro de Holanda, sobretudo daqueles que mais o criticaram e incomodaram em sua ação.

Vivíamos um tempo inicial de abertura política, com marchas e contramarchas de liberalização do regime; uma sequência da famosa “abertura lenta, gradual e segura”, iniciada com o Presidente Ernesto Geisel e que se fez vitoriosa, consequente e responsável.

O momento era difícil, mas os homens devem cumprir o seu papel, seja na guerra, seja na paz, nos momentos gloriosos ou naqueles cuja inglória nos encerra no existir.

A ninguém é dado o direito de fugir da luta, de se escafeder da missão destinada.

Conduzir a nossa UFS à liberdade era então a missão árdua de Gilson Cajueiro, mesmo em sendo “um biônico”, palavrão de então para traduzir o escárnio de tolos, afinal o importante é a dignidade no agir, acima das paixões e da mediocridade das eternas insatisfações.

Porque a humanidade é feita dos que vencem e dos que rastejam no lodo da inveja, tentando enlamear os homens dignos e corretos.

Se Gilson foi o “reitor biônico”, ninguém lhe poderá tisnar a sua ação em correção e impessoalidade. Ninguém o poderá acusar de beneficiar amigos e apaniguados com nomeações desnecessárias, uma coisa que até então fora bem comum.

Ninguém também o poderá acusar de perseguições e/ou demissões. Pelo contrário; encontrando a UFS eivada de professores colaboradores e provisórios, reconheceu-lhes a importância e a necessidade da instituição para corrigir esta excrescência encontrada.

O mesmo se diga do quadro de engenheiros, arquitetos, bacharéis, administradores, todos contratados a título precário e sem concurso pela administração anterior para constituir o Escritório Técnico Administrativo, o ETA, criado apenas para a edificação do Campus Universitário, e que depois, longe de ser dispensado por disfunção e não mais necessidade, por ação de Gilson Holanda e seu reitorado “biônico” constituiu o quadro inicial da Prefeitura Universitária.

Ou seja; Gilson viera para corrigir, edificar e por em ação tudo o que lhe fora legado e reformado, recebendo uma Cidade Universitária recém-inaugurada, com apenas o hall da Reitoria concluído para a festa e os discursos.

No mais, as obras do campus ainda continuariam. Depois viria a mudança com o Centro de Ciências Exatas e Tecnologia à frente, inaugurando de fato o Campus Universitário.

Louvo neste particular a ousadia do CCET para esta mudança, porque foi difícil convencer os outros setores, sobretudo os mais inertes da UFS, sempre a querer resistir ao novo, que ensejava o distanciamento da Capital para a cidade de São Cristóvão, como desculpa para requerer benefícios pecuniários de mudança, denúncia de medos e náuseas descabidos com a alegação de que o Campus atentava contra a salubridade de alunos e docentes, por vasto ofidário, habitat de variada criação peçonhenta.

Sem falar que, no costumeiro, por rotineiro e galhofa, mais temor que a peçonha era o limite da entrada do próprio Campus: um mata-burro ali colocado; um terrível obstáculo a transpor!

Obstáculos transpostos, a Cidade Universitária passou a fervilhar de alegria com estudantes, professores e funcionários dando-lhe vida e luz com Gilson conduzindo as mudanças que não foram de sua criação, mas da sua execução, sobretudo a reforma curricular, que mudou tudo, virando a Universidade de cabeça para baixo, extinguindo todos os cursos, renovando-os e readaptando-os em toda sua totalidade, sem virar o caos, por ação atenta, vigilante e desdormida de seus auxiliares.

Hoje, tudo é passado. A Universidade Federal de Sergipe não se lembra do que pertence à penumbra dos idos tempos.

Para quê relembrar, se a missão do homem é servir, passar, e ser superado nos feitos e recordes?

Dizer que alguns não são presenteados pelas benesses do tempo? Dizer que há tempos fastigiosos, de verbas fáceis em conjunturas para gastos, edificações e investimentos?

Dizer também que há os idos frugais, onde tudo corre fácil, em escoar laminar previsível e perceptível, permitindo o navegar pacífico e o voar sem sustos, sob um céu de brigadeiro?

Mas há também, e sobremodo, os tempos difíceis, quando o mar é revolto, o vento crispante, e os homens não só barulham, como marulham em violência e na imprudência de seu agir?

Sim! Para dizer que Gilson Cajueiro de Holanda recebeu a UFS num desses verdadeiros tempos tormentosos, mares bravios de então, onde era assaz difícil empunhar o timão, sobretudo para evitar a anarquia que atentava contra a meritocracia, acusando-a de funesta e eivada de mofo.
E o mofo deu, e o descalabro aconteceu!

Se na sucessão de Gilson Cajueiro não restou satisfeita a choldra que o fustigava, o pior do pior viria anos depois com a entronização da “democracia universitária”, seja com Reitores e Dirigentes eleitos em “pleitos memoráveis”, seja com as assembleias “livres e democráticas”, fruto da anárquica imposição do vulgo sobre o verbo.

Era a caterva rasgando a criação, e a carência de criatividade fazendo húmus na aridez sempre inerente ao decidido por farra e pela orgia das três categorias: A dos funcionários a requerer vantagens de cogestão, a dos estudantes em despolitização e desinteresse pelo bom ensino, e a dos professores que restara emasculada, como se não fosse dela, somente e exclusiva, a responsabilidade do bom ou mau ensino professado.

Se nas últimas décadas a greve restou endemia anual na UFS, com Gilson Cajueiro não aconteceu nenhuma paralização de professor ou funcionário. O Reitor biônico sempre fora aberto ao diálogo e se fez previdente na solução antecipada dos conflitos.

Do lado estudantil, poder-se-á listar algumas escaramuças contra professores, motivação restrita e localizada, conduzida por aqueles que viriam para mudar o mundo, pregando a greve e denunciando o arbítrio, e hoje vêm colhendo as insatisfações de seus discursos exaltados. Uma decepção para si e para tantos, como nós, que os pensávamos bem melhores em coragem e ousadia. E não o são, porque o tempo está lhes mostrando a anodinia de uns e a bufonaria de tantos!

No mais, fica a saudade do Reitor Gilson Cajueiro de Holanda. “Um homem decente”, palavra externada junto ao túmulo para um homem que bem soube servir na gestão da coisa pública em dignidade, e em ausência de garimpados encômios.

Alguém que soube sair, se retirar do proscênio, do centro do palco, quando tantos teimam em permanecer, se perpetuar, como se fora indispensável, insubstituível.

Hoje tudo é memória!

Para quê relembrar, se “a Natureza de ontem não é a Natureza. O que foi não é nada, e lembrar é não ver.”? Só para dizer que na vida, a lucidez só existe no criação, e não na recapitulação rebatida?

Não! É preciso recapitular também! Para dizer que os homens são, ou não o são; dignos! Esta é a verdade suprema! Verdadeira e única, para sempre!

Epítetos, gloriosos ou venenosos, ficam por conta da grandeza ou mediocridade daqueles que, contemplando a ambiência, sempre se acrescem ou se lastimam, acordes à própria sombra de seu rastro.

E nos rastros de tanto passo de pegada desigual, seja-lhe dito por epílogo e por final: Poucos e raríssimos são os homens como o Magnífico Reitor Gilson Cajueiro de Holanda, que na descida ao túmulo se revestem em simplicidade, verticalidade e respeito!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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