Bosco Rolemberg penou mais tempo no cárcere

Por Marcos Cardoso*

Foi bonita a festa da reparação histórica. Foi concorrida e emocionante a entrega dos títulos de doutores honoris causa ao casal Ana Maria Santos Rolemberg Côrtes e João Bosco Rolemberg Côrtes pela Universidade Federal de Sergipe na tarde da segunda-feira, 26. Foi o reconhecimento da academia aos militantes históricos de 1968 que dedicaram a vida à democracia brasileira, sofrendo na ditadura as agruras da luta pela liberdade.

Ana Côrtes, Bosco, Wellington e Laurinha (Foto: Cleverton Ribeiro)

Presentes ao auditório da UFS, aplaudindo, se emocionando e também se sentindo homenageados, estavam outros resistentes, como Jackson Barreto, Marcélio Bonfim, Benedito Figueiredo, João Augusto Gama, além de Wellington Mangueira e Laura Marques, o outro casal símbolo da sobrevivência ao que pode haver de mais sádico na crueldade humana, a tortura.

Bosco Rolemberg e Ana Côrtes participavam do movimento estudantil na Faculdade de Serviço Social, onde se conheceram. Então militantes da Ação Popular (AP), casaram-se em 1969 e logo entraram na clandestinidade, atuando no ABC paulista, entre 1969 e 1971, e na região canavieira de Pernambuco, de 1972 a 1974.

Foram presos próximo a Caruaru em junho de 1974, tendo sido torturados pelo Dops-PE e pelo Doi-Codi, em São Paulo, durante dois meses. Ana estava grávida de Eduardo, hoje procurador do Tribunal de Contas de Sergipe. Ela permaneceu encarcerada até outubro daquele ano.

Bosco foi transferido para uma cela provisória da Secretaria da Segurança Pública no Recife, onde permaneceu até ser enviado para a Penitenciária Barreto Campelo, na ilha de Itamaracá, em janeiro de 1975. Ficou encarcerado até 20 de março de 1979, quando o Brasil já se preparava para assinar a Lei da Anistia, em agosto.

Três sergipanos foram assassinados pela ditadura instaurada em 1964, segundo relatório da Comissão Nacional da Verdade. O sargento do Exército Manoel Alves de Oliveira, 30 anos incompletos, natural de Aquidabã. Pouco antes do golpe militar, ele foi candidato a presidente do Clube de Subtenentes e Sargentos do Exército, atividade política que certamente o condenou às torturas que sofreu no Regimento Andrade Neves – Escola de Cavalaria, localizado na Vila Militar do Rio de Janeiro, e consequente morte no Hospital Central do Exército, no dia 8 de maio de 1964.

O laranjeirense Lucindo Costa, servidor público em Santa Catarina, onde militava no PCB, desapareceu após fazer uma viagem a Curitiba em julho de 1967. Ele tinha 48 anos, era casado e pai de seis filhos. Já havia sido preso duas vezes como subversivo. Posteriormente, a esposa Elisabeth Baader recebeu a informação de que ele morreu atropelado e foi enterrado como indigente. Era mentira, claro. Foi provavelmente detido, torturado e morto.

Também considerada assassinada pelo Estado brasileiro foi a aracajuana Therezinha Viana de Assis, economista que concluiu o curso na escola que viria a ser parte da UFS, em 1965. Mudou-se para Belo Horizonte, onde foi funcionária da Caixa Econômica Federal. Militante da AP, Therezinha foi presa e torturada por agentes da repressão entre os anos de 1968 a 1972. No início de 1973, exilou-se no Chile, onde fez um curso de pós-graduação na Universidade de Santiago. Passou a militar no Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR). Após o golpe militar que depôs Salvador Allende, Therezinha buscou asilo político na Holanda, onde apareceu morta em Amsterdã.

Outro natural de Aquidabã que foi torturado, mas sobreviveu para contar a história, foi Agonalto Pacheco. Militante desde a adolescência do Partido Comunista Brasileiro, mudou-se para São Paulo após o golpe de 64, onde se alistou na Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella, principal dirigente da luta armada contra a ditadura. Foi preso em janeiro de 1969 quando organizava uma reunião nacional de proscritos. Torturado no Dops de São Paulo para delatar Marighella, que sabia onde estava escondido, resistiu estoicamente. Sobreviveu porque foi um dos 15 presos políticos libertados em troca do embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick.

Deputados estaduais foram cassados, estudantes da UFS foram perseguidos, alguns deles presos na Operação Cajueiro, ocorrida há 50 anos completos agora. Em fevereiro de 1976, 25 sergipanos foram presos arbitrariamente no quartel do 28º BC, alguns foram torturados e 18 foram processados. O então deputado estadual Jackson Barreto, MDB e ligado ao PCB, sofreu a segunda prisão e respondeu a Inquérito Policial Militar.

O petroleiro Milton Coelho de Carvalho foi uma das vítimas mais conhecidas das torturas sofridas na Operação Cajueiro. Ele tinha 34 anos quando foi vítima da violência que o deixou cego. Viveu os 48 anos seguintes na escuridão, até o dia 17 de abril de 2024, quando morreu aos 82 anos.

São histórias de muita luta, suor, sangue e sofrimento. Mas ninguém penou tanto no cárcere quanto Bosco Rolemberg. Foram quase cinco anos atrás das grades, mais de quatro anos na penitenciária de Itamaracá. A história do sergipano e dos outros revolucionários naquele presídio é ricamente contada no livro “Dossiê Itamaracá: cotidiano e resistência dos presos políticos da Penitenciária Barreto Campelo – Pernambuco 1973-1979”, da jornalista Joana Côrtes, filha de Bosco e Ana Côrtes.

Fruto do mestrado no Programa de Estudos Pós-Graduados em História da PUC de São Paulo, o livro lançado pelo Arquivo Nacional em 2015 foi um dos vencedores do Prêmio de Pesquisa Memórias Reveladas 2012.

“O golpe militar foi o grande corte no sonho do povo brasileiro de avançar a democracia política, a independência nacional e os direitos do povo. Sentido dentro de casa. Na pele. A prisão do irmão mais velho, a invasão da casa, a apreensão dos livros. A irmã mais nova esquizofrênica aos gritos em desespero. Assisti ao desmoronamento dos projetos, enclausurei minhas mágoas, chorei, mas com o tempo tomei uma decisão: dedicar minha vida ao povo, ao país. Derrubar a ditadura tinha um gosto de vingança pessoal”. Depoimento de Bosco Rollemberg ao livro escrito pela filha, em 7 de setembro de 2011.

*Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail.com

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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