João fez a ponte e perdeu a eleição

Por Marcos Cardoso*

Faz 20 anos agora em setembro que o então governador João Alves Filho (PFL) inaugurou a ponte Aracaju-Barra dos Coqueiros. A grandiosidade da obra, que mudou definitivamente o perfil da ilha de Santa Luzia, não se reverteu em vitória para o experiente chefe do executivo estadual que buscava a reeleição e o quarto mandato à frente de Sergipe. Foi derrotado pelo “menino” Marcelo Déda (PT), então prefeito de Aracaju, e o episódio guarda lições importantes para a política local e até nacional.

Considerada a maior ponte urbana do Nordeste, cercada de muita polêmica com o governo federal e com a justiça eleitoral, a obra foi inaugurada no dia 24 de setembro de 2006, a poucos dias da eleição de 1º de outubro. Acusando perseguição do presidente Lula, o governador conseguiu com muito esforço a liberação de empréstimo de R$ 85 milhões do BNDES para a conclusão da ponte.

João se queixava de discriminação com um governador do PFL, mas a equipe econômica de Lula era contrária à destinação de dinheiro porque Sergipe não cumpria a Lei de Responsabilidade Fiscal. O Tesouro Nacional informava que o Estado comprometia 5% do Orçamento com a Assembleia Legislativa, quando, pela LRF, só poderia gastar 3%.

Inicialmente orçada em R$ 100 milhões, a ponte concluída custou R$ 150 milhões, inclusive muito dinheiro do Estado. Atualizado, o dinheiro teria poder de compra equivalente a R$ 460 milhões hoje. Em comparação, a nova ponte Aracaju-Barra, já licitada pelo governo Fábio Mitidieri, tem um custo inicial de R$ 838 milhões. Note-se que a ponte de João Alves possui 1.850 metros de comprimento, enquanto a nova ponte terá 1.260 metros. Mas cada ponte é uma ponte, com suas dificuldades e idiossincrasias.

Por exigência do TRE, a ponte foi inaugurada sem a presença e de João e Maria do Carmo Alves (PFL), então candidata à reeleição de senadora, tendo como principal adversário José Eduardo Dutra (PT). Coube ao filho deles, João Alves Neto, representá-los. Também ficou determinado que nenhuma imagem da ponte fosse utilizada nas propagandas eleitorais do candidato à reeleição de governador.

Mas o apelo eleitoral da ponte já estava consolidado na cabeça do povo sergipano, para o bem e para o mal. Se por um lado o governo do Estado a apresentava como uma obra redentora, capaz de mudar destinos em Sergipe, por outro lado a oposição associava os vários problemas que o Estado enfrentava na época à canalização dos recursos para uma única obra.

João fez novos investimentos na Orla de Aracaju, obra dele em governo passado, mas a saúde e a educação enfrentavam dificuldades, principalmente no interior. Até mesmo o Hospital João Alves Filho, construído pelo próprio em gestão anterior, atravessava um momento difícil, com superlotação e carência de material e equipamentos. A relação com os servidores também não era nada boa e a campanha de Marcelo Déda soube explorar as fragilidades pontuais de um gestor possuidor de capital político robusto.

Os dois líderes sempre estiveram em lados opostos e travaram um embate duro na eleição estadual anterior, em 2002, quando João Alves derrotou Eduardo Dutra na campanha para governador. Com 46 anos em 2006 — João tinha 65 —, Déda já era experimentado na política desde os tempos de estudante e já havia participado de nove eleições, saindo vitorioso em cinco delas, com votações expressivas para deputado estadual, para deputado federal e para prefeito.

A gestão de Déda na Prefeitura de Aracaju era bem avaliada, era reconhecido seu trabalho na área da saúde, por isso João buscou explorar principalmente os desgastes da gestão de Lula na presidência, onde respondia pelo Mensalão, escândalo de corrupção política descoberto em 2005. Tratou-se de um esquema ilegal de repasse mensal de dinheiro a parlamentares da base aliada em troca de votos favoráveis a projetos de interesse do Governo Federal no Congresso.

João também se tornou a principal voz contrária ao projeto de transposição do rio São Francisco, para grande contrariedade de Lula. O governador repetia à exaustão que o povo sergipano ficaria sem água se o projeto fosse adiante. Nos assuntos paroquiais, explorou a “micareta picareta”, uma denúncia da revista Veja contra a Prefeitura de Aracaju, que teria gastado milhões com shows e festas.

Mas nada disso evitou sua derrota no primeiro turno da eleição estadual. Apoiado na boa gestão, na eloquência vocabular e num arco de alianças que contava com o deputado federal Jackson Barreto (então PTB), com o ex-governador Antonio Carlos Valadares (PSB) e com o sertanejo deputado federal Heleno Silva (PL), Déda obteve mais de 52% dos votos já no dia 1º de outubro.

A ponte certamente pesou para a derrocada de João Alves Filho. Fica a lição.

*Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024).

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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