Só Lula pode salvar a América Latina

Por Marcos Cardoso*

Não existe eleição presidencial fácil, mas neste ano há um complicador a ser levado muito a sério pela candidatura à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva: a agressividade do velho e conhecido imperialismo dos Estados Unidos agora turbinado pelo autocrata Donald Trump. O governo do malfeitor estadunidense busca impor claro domínio político, econômico e militar a todo o Hemisfério Ocidental, atualizando sua própria versão da Doutrina Monroe.

A desculpa é acabar com a influência da China e da Rússia na América Latina e impor o domínio dos interesses americanos no continente. O foco estadunidense mudou da antiga proteção contra a Europa para o combate direto à forte presença comercial e tecnológica dos chineses na região. Trump pode fazer uso de força militar, sanções e tarifas injustas para alinhar os vizinhos do sul aos interesses dos EUA, quais sejam, os recursos naturais e a soberania energética dos países latino-americanos.

A América Latina já está quase toda rendida a ele e isso só alimenta o interesse pela “conquista” do Brasil, a joia da coroa da região. Ter sob seu jugo uma das dez maiores economias do mundo, um país com a importância geopolítica que o Brasil possui, será equivalente a Adolf Hitler conquistar a Rússia. O nazista alemão tentou, mas saiu de lá derrotado.

Trump já manipula como marionete o histriônico Javier Milei, presidente da segunda maior economia da América do Sul e terceira maior economia da América Latina, atrás do Brasil e do México. Claudia Sheinbaum, presidenta do México, é adversária de Trump, mas ela não tem poder contra o vizinho do norte, porque a economia mexicana é altamente dependente dos Estados Unidos.

As divergências políticas dentro do Mercosul nunca foram tão acentuadas. O Brasil mantém alinhamento com o Uruguai do presidente progressista Yamandú Orsi, mas o Paraguai segue o destino argentino e o presidente Santiago Peña mantém um forte alinhamento político com o presidente dos Estados Unidos. Agora mesmo, com as bênçãos do secretário de Estado estadunidense Marco Rubio, os dois países assinaram um memorando para cooperação estratégica em energia nuclear.

Colômbia, Chile e Peru, as outras maiores economias da região, também já estão nas mãos dos Estados Unidos. O recém eleito presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, que assume nesta semana, tem como bandeira a redução da estrutura do Estado, o aumento das operações militares contra o narcotráfico e a extinção do tribunal de paz criado após o acordo histórico firmado entre o governo colombiano e a guerrilha das Farc em 2016.

Historicamente mais próximo dos Estados Unidos, o Chile aumentou a aproximação com a política do big brother desde dezembro do ano passado, com a posse de José Antonio Kast, amplamente considerado alinhado com os setores conservadores e de direita dos Estados Unidos.

E o Peru agora é governado pela herdeira do ditador Alberto Fujimori, Keiko Fujimori, que tomou posse no último dia 31 decretando estado de sítio como primeiro ato à frente do país, usando como justificativa para isso a velha desculpa de combate ao crime. Na verdade, colocou os militares nas ruas para reprimir qualquer resistência popular contra o início de suas políticas neoliberais.

Sob a presidência de Rodrigo Paz, empossado no fim de 2025, a Bolívia deu uma guinada histórica na política externa e reaproximou-se dos Estados Unidos após quase duas décadas de rupturas iniciadas na era de Evo Morales. O Equador, sob o governo do polêmico presidente Daniel Noboa, aprofundou expressivamente seu alinhamento geopolítico e de segurança com os Estados Unidos. E a Venezuela foi tomada de assalto pelos marines norte-americanos, com a missão absurda e levada a efeito de sequestrar o seu presidente Nicolás Maduro para se apossar das poderosas reservas de petróleo.

A América Central já eternamente subjugada tem como estrela trumpista o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, um autoritário obcecado com uma guerra contra as gangues, que vai se impor um terceiro mandato. Suas políticas de segurança resultaram em detenções em massa e sua grande obra é a maior prisão de segurança máxima do país. Tem político no Brasil que o cita como exemplo.

Por fim, há a histórica resistência de Cuba, completamente empobrecida e mais do que nunca ameaçada pelos Estados Unidos.

Resta Lula como força progressista capaz de impedir a tomada de todo o continente pelo eixo da direita ultraliberal ou da extrema-direita comandada por Donald Trump, com a formação de uma aliança conservadora contra o Brasil na nossa fronteira.

Nada parece impossível a Lula. Até derrotar um Bolsonaro exercendo o limite do poder, legal ou ilegalmente, ele conseguiu, nos salvando de uma ditadura. Mas a sétima e última campanha eleitoral do presidente que tenta o quarto mandato, e que tem como principal mote a soberania nacional, pode ser a mais desafiadora de todas.

Foto: Ricardo Stuckert/PR

*Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail.com

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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