“Memórias de Uma Guerra Suja” e “Mata!”

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O regime militar de 1964 a 1982 aos poucos está sendo estudado com menos paixão e maior isenção.

Em história, diz-se que só é possível falar de Cleópatra, quando se pode dissertar o seu nariz sem ceder ao seu fascínio, ou seja, com o afastamento necessário que a ciência requer, para no caos enxergar a luz.

Se os feitos revolucionários foram vertidos pela ótica de seus personagens, como os Generais Olímpio Mourão Filho, Carlos Luiz Guedes, Hugo Abreu, Juraci Magalhães, ou depoimentos de Ernesto Geisel, do Marechal Lott, enquanto soldado absoluto, de civis como Armando Falcão, Jarbas Passarinho, Carlos Lacerda, do lado vencedor ou não tanto, ou testemunhos do outro lado, aquele dos combatentes vencidos como Fernando Gabeira, Alfredo Syrquis, Jacó Gorender, dos sergipanos, Paulo Barbosa de Araújo e Ariosvaldo Figueirêdo, sem falar de vasta literatura de Elio Gaspari, Renê Dreifuss, Paulo Schiling, Zuenir Ventura, e diversos brazilianist como Skidmore, etc, etc, só para falar entre os que li e possuo.

Agora, estão saindo os primeiros títulos historiando a face mais sombria daquele tempo onde excessos foram cometidos, algo que passava escondido como sói acontece nos organismos repressores, seja nos regimes autocráticos, por vezos maniqueístas e atrabiliários, seja no pleno estado de direito, por prepotência e despreparo, ou por menoscabo e menosprezo a quem nos é diferente, ou por maldade e insensibilidade no deletério agir.

Lançado neste ano de 2012, encontra-se à venda dois livros que merecem estudo e apreciação; um bom, por polêmico, bem elaborado, historicamente consistente e fundamentado, de autoria de Leonencio Nossa, e o outro, nem tanto, da lavra de Marcelo Netto e Rogério Medeiros, três jornalistas, a reportar a luta armada, por acesso à memória viva dos arquivos da repressão nos “anos de chumbo” da nossa recente história pátria.

Um dos títulos é o volumoso “MATA!” Com 443 folhas, no qual o major Sebastião Curió de Moura conta sua versão das Guerrilhas no Araguaia, enquanto comandante e combatente da repressão em plena selva amazônica, no Bico do Papagaio, às margens do Rio Araguaia, e o outro livro, “Memórias de uma Guerra Suja” com 291 folhas, relato de um homem do asfalto, o Ex-Delegado do DOPS, Claudio Guerra, membro da Scuderie Le Cock, destacamento policial de elite do Rio de Janeiro, lugar tenente e sucessor do Delegado Sérgio Fleury, principal responsável pela captura e morte de Carlos Marighela, ícone da esquerda revolucionária.

Em ambos os relatos lê-se a versão da repressão ditada pelos vencedores.

Mata! O Major Curió e as Guerrilhas do Araguaia de Leonencio Nossa –Companhia das Letras

Na versão do Major Curió, ninguém poderá negar a caminhada heroica, difícil, corajosa, por ousadia até certo ponto insana, do seu combatente maior e de tantos combatidos, os guerrilheiros do Araguaia de saudosa e valente memória lançando-se, por ideal ou missão guerreira, ao desconhecido; numa guerra longínqua, terrível, num cenário inóspito, garranchento, peçonhento, na hileia amazônica, um paraíso infernal de variado color, tão assustador e variegado, quanto pouco penetrado, a ensejar o próprio horror.

E do outro lado o próprio horror, por maldade, crueldade, ignomínia que o humano jamais poderia conceber em alto extremo de covardia e vilania. Porque em “Memórias de uma Guerra Suja” não há gestual heroico. Não há um feito de compreensão ou utilidade. Só há maldade! Tanta crueldade que o livro parece ser ficção e não realidade. É um relato de horror, de extermínio, a angelizar qualquer carrasco nazista.

No livro “Mata!”, Leonencio Nossa constrói um relato épico dando um passeio amplo pela história recente de nosso país.

É um passeio vasto, por dois séculos ou mais, adentrando cerrados, campinas, alagados e caatinga. Das coxilhas do Rio Grande, da Revolução Farroupilha, do Paraná, da região do Contestado, da Guerra do Paraguai, das revoluções nascentes do império, da Cabanagem, da Balaiada, dos feitos militares de Caxias, atingindo a conquista acreana de Valdez e Plácido de Castro, a saga de Canudos, aqui tão pertinho, com Moreira César, Febrônio de Brito e Artur Oscar, epopeia cantada por Euclides da Cunha, onde o litoral contemplou o sertão, e o esmagou sem derrotá-lo, afinal Canudos não se rendeu.

E até agora, por feitos mais recentes, como a Coluna Prestes, tão heroica, invencível e fugidia, diferente da movimentação bandoleira de Lampião massacrada na grota como caça acuada.

E outras odisseias, sem as bênçãos do Padre Cícero, bem ao norte, distante, na confluência de Goiás, hoje Tocantins, o Pará e o Maranhão, no “Bico do Papagaio”, onde a juventude de minha idade resolveu mudar o mundo pela via revolucionária, arma em punho, e o Brasil se quis maior ousando uma rodovia transamazônica em busca da integração territorial necessária. Sem falar do núcleo nascente do Movimento Sem Terra no Paranapanema, por único fracasso de Major Curió, misto de herói e vilão, personagem fascinante a suscitar pesquisa e folclore.

Do outro lado, o relato de Claudio Guerra, alguém que matava e hoje está arrependido. Foi condenado, cumpriu pena, conseguiu a liberdade, por bom comportamento e por ser a nossa legislação frágil, hoje um convertido e arrependido a narrar muitos causos.

Digo causos, porque no relato confessado a Marcelo Netto e Rogério Medeiros, o Ex-Delegado Claudio Guerra não acrescenta muito. Fala da morte de alguns terroristas, como assim eram chamados os que ingressaram ou restaram suspeitos da luta urbana contra o regime militar, que foram torturados e assassinados nos porões do DOI-CODI, algo consistente ao excesso policial, rotineiramente descrito, por décadas; nos períodos autoritários e em pleno gozo da liberdade, uma preocupação que deve ser contínua pelos segmentos dispersos da sociedade civil, tendo em vista que rotineiramente, esta mesma sociedade aplaude os excessos cometidos por “Rotas”, “Scuderie”, e grupos de extermínio, tipo “Esquadrão da Morte”.

Se no relato de Guerra há uma vasta descrição de modos e maneiras na execução e no extermínio, com direito a incineração de corpos em fornalhas de usinas de açúcar no Espírito Santo, a descrição dá um caráter menos sinistro porque perpassa algo mais ficcional que real.

O relato acrescenta pouco, por vago, impreciso. Quem queria a repressão da esquerda? Os militares, os coronéis! Quem? Fica a dúvida, como a querer que a denúncia atinja a todos, indistintamente.

Memórias de Uma Guerra Suja – Depoimento de Claudio Guerra a Marcelo Netto e Rogério Medeiros – Topbooks

Há algumas referências ao Coronel Perdigão, elemento tão onisciente, onipresente e poderoso, quão fugidio, diluído e bem disperso no ar. Quanto ao Coronel Ustra, parece que restou único responsável por tudo executado de mal feito, como se fora não elo de uma grande engrenagem, mas força viva desta mesma endentação. Sem falar que o livro enaltece até os generais presidentes, porque a miséria relatada por Guerra era fruto da insatisfação com a abertura política, “lenta, gradual e segura” iniciada pelo Presidente Ernesto Geisel, por inspiração do General Golbery do Couto e Silva, e concluída a bom tempo pelo General Presidente João Batista Figueiredo.

Sem falar, é bom que se destaque que o Ex-Delegado Guerra inocenta qualquer erro do General Newton Cruz, acusado de envolvimento na morte de Alexandre Von Baumgarten, personagem de muito conhecimento dos desmandos no SNI, Serviço Nacional de Informação.

Ou seja; o relato de Guerra soma pouco. Narra apenas sua importância, ou nem tanto assim, por companhia de Fleury, Mariel Mariscot, Pejota, etc, etc, figuras que bem estariam no submundo do agir policial, espécie que hoje é de costumeira referência como da “banda podre” da polícia.

O Delegado Guerra parece pertencer àquele conjunto de homens destinados, não aos feitos heroicos de luta, de enfrentamento, mas ao espancamento, à tortura, à ocultação do cadáver seu semelhante; sem honra, sem brio, sem glória.

Mas, quem precisa de glória numa guerra suja? Numa guerra suja; ninguém! Gloriosos restam somente os derrubados, aqueles ceifados na peleia, que generosos fertilizam a história da terra pátria.

Neste particular, o relato de Guerra vale-lhes como uma ressurreição, mesmo situado na penumbra do feito malfeito e do conto mal contado.

Quanto ao outro livro, poder-se-á também ver no Major Curió, um excesso de violência, de intolerância, afinal os guerrilheiros do Araguaia estavam praticamente perdidos, depauperados, refém da fome e da doença, iguais aos últimos defensores de Canudos que não se rendeu.

E aqui vale repetir Euclides da Cunha: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados”.

Quanto a Guerrilha do Araguaia, sobrou para o Major Curió o mesmo que ao General Artur Oscar o vencedor de Canudos; ambos foram preteridos em promoção e destaque.

É bem verdade que, sem conseguir atingir o Generalato, Curió se destacou na organização do garimpo de Serra Pelada, onde se gloriou como pacificador e mantenedor da ordem, inclusive sendo nome de cidade, Curionópolis, restando pleno de fama, Deputado Federal e Prefeito.

Mesmo sendo hoje um novo tempo, quando os guerrilheiros urbanos assumiram o poder, até para se desdizer e repetir o que combatiam, em termo de concepção política e econômica, tanto a Guerra de Canudos como aquela do distante Araguaia constituem traumas da história pátria, algo que incomoda, que dói, que suscita pranto em terrível dor. Por que tantos têm que sofrer tanto?

E na busca de culpados, culpemo-nos todos. Uns por opção louca, equivocada. Outros por despertar-lhes tal missão desvairada, ao abrigo sem qualquer risco. Outros a combatê-los, assumindo ônus e risco de passar pela história por uma vilania necessária. E a nós todos que permanecemos nos nossos confortos e comodidades, em medo, indiferença, conivência e outras preferências televisivas; do Flamengo, do meu Botafogo, do Corinthians, das alienantes novelas globais, estas coisas tais que nos preenchem a vida, tornando-a menor.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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