“Mensalão”; o best-seller do ano.

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Na noite de Natal eu ganhei quatro presentes; uma bermuda, um sapato, e dois livros: “Marighela, o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo” de Mário Magalhães, este de minha escolha, por consulta assentida, só por curiosidade de ver as cinzas do fogaréu que não presenciei, e o outro “Mensalão”, o best-seller de Marco Antônio Villa.

De Magalhães e Marighela, me surge à mente outro baiano; este maior: ACM. Não um incendiário rebelde delirante, mas extraordinário, por líder aglutinador e gigante. Em ousadia própria, e coragem capoeirista do Campo da Pólvora. Baiano de brado nagô organizador, enquanto abençoado de Iemanjá e Xangô, e sincretista do Senhor do Bonfim, pairando ainda em voo altaneiro e condoreiro, bem acima das areias, das bacias e das luminosas candeias, daquela gente alegre da Baia de Todos os Santos. Quanto ao “Marighela”, o livro escolhido por mim, ainda não dobrei uma página.

Já o livro do Marco Antônio Villa, li-o de um fôlego, por conciso, objetivo e conclusivo.

Poder-se-á dizer que o objetivo de Villa não era um refletir ensaísta como o de Hannah Arendt em “Eichmann em Jerusalém”, que apreciando e refletindo um julgamento mais grave, aquele do carrasco nazista matador de milhares de judeus, o fez em alta imparcialidade construindo uma tese sobre a “banalidade do mal”, cuja reflexão ilustra e clarifica o caminhar da humanidade, nos seus medos, sonhos, angústias e paixões.

Já o livro de Villa, um jornalista apenas, e não um cientista ou filósofo como Arendt, mas um autor de boa pena, dito ensaísta, por polemista, enquanto guerreiro assoldadado da Revista Veja, resume e destaca o julgamento do Mensalão, tonalizando ou fortalecendo a temática de seu agrado ou de sua missão, por interesse ou obrigação com a revista, enquanto pauta estabelecida e cumprida à risca, para o deleite dos leitores de Veja, é bom que se frise, entre os quais eu me não incluo; com antecedência pronominal, inclusive.

Porque eu detesto Veja; uma revista que finge ser séria e não o é!

Veja não é séria, e eu o provo, com um exemplo próprio. Porque eu era leitor e assinante de Veja. Uma assinatura acertada, inicialmente mediante boleto, e que depois renovei por cartão de crédito. Mas, um belo dia: três, quatro ou cinco meses antes de vencer a assinatura, recebo uma mensagem de Veja: “Parabéns! Você vai ter assunto para falar (ou conversar, eis minha dúvida!) no próximo ano. Sua assinatura de Veja foi renovada por mais um ano! Já notificamos ao seu cartão de crédito!” A mensagem vinha assim; descarada! Com interjeições efusivas e muitos pontos de exclamação!!!!

Ocorre que eu não tinha autorizado Veja a invadir o meu cartão de crédito. E eu sou zeloso com as minhas dívidas, para contraí-las somente se me é possível o adimplemento, razão de meu sucesso por parcimônia e responsabilidade, pois meu dinheiro é curto, suado, honesto, documentado e declarado, até para desafio de leões e comilões. E Veja me pareceu leonina e comilona. E safada também! Porque não poderia ser assim; achar que só por lê-la alguém teria assunto para conversar um ano inteiro, ou mais de um ano, em inutilidade.

Daí eu concluí que para a revista, o leitor de Veja é um idiota. E eu o imagino um imbecil cadastrado e catalogado, que se acha luminar e bem ilustrado. Só porque lê Veja? Quando aí reside o pior: sua cultura não vai além da publicação, cuja fuga-cuidade é tamanha, por fugaz e vazia, que não perdura nem uma semana inteira. Tem que ser reabastecida em rapidez asnear, de robusta asneira!

Asneiras ou asnices à parte! O que eu quero dizer é que desde aquela data, quinze, vinte anos passados, ou mais, eu não sou assinante de Veja. Nem sentimos mútua falta; nem ela, nem eu. Veja, porque o número de seus leitores tem aumentado exponencialmente, até por isso. E eu porque permaneço ciente da minha total desimportância, o que é bom saber. E para dizer também que o meu dinheiro e a minha opinião só fazem diferença para mim, o que é ainda melhor reconhecer.

Mas, há uma coisa; uma questão de rótulo, etiqueta, coisa de marketing, por repaginação e enganação: há algumas vezes em que sou despertado por uma sua capa chamativa, e assim sou enganado porque compro a revista por bonomia, um fracasso nos meus desejos de condescendência e ternura por esperança de mudança. Mas, que decepção, ao perquirir seu conteúdo!

No meu entender, Veja quer ser o partido político que não ousa ser! Será de esquerda? Jamais de direita! Não há direita no Brasil. No Brasil só há esquerda em deguste de caviar, e em arrependimento por arroto de sardinha na latinha requentada.

Mas, dizendo assim, eis-me mais perdido entre os idiotas leitores de Veja e as diarreicas dejeções enquanto degustadores de seu patê, tudo isso sem discorrer o livro “Mensalão”, meu único e inicial desejo neste já alongado texto.

O livro de Marco Antônio Villa é bom. Muito bom. Quem o pega não o larga. Coisa de jornalista mesmo. Bem arrumado, bem distribuído, bem ilustrado. Todo em preto e branco. Nada em colorido, só a capa, com a República, tão amulatada quão gostosa e dadivosa, toda fogosa, sensual e glamorosa, a fascinar agentes, aderentes, e tantos sinistros delinquentes por seus meneios e requebres.

“Mensalão” tem 390 páginas. Poderia ter a metade se a publicação quisesse aproveitar melhor o papel, exibindo uma margem mais estreita, excelente para as anotações do leitor atento.

Da leitura depreende-se que o autor assistiu integralmente 39 sessões de julgamento da Ação 470, pelo Supremo Tribunal Federal (Processo do Mensalão), perfazendo cerca de 170 horas de exposições orais.

O livro é excelente para quem deseja apreciar um resumo das falas, das exposições, e até das discussões, cotoveladas e pontapés, se é que podemos dizer assim, sobre as divergências notoriamente delineadas entre prós e contras manifestados em decorrência de parcialidades despertadas.

Notoriamente se evidencia, e isto não pode ser referida ao livre pensar do autor, que a justiça pátria, longe de parecer uma apreciação lógica de configuração provada e documentada, funciona bem mais pela astúcia, o adiamento, a chicana, onde ao réu vale tudo, e à sociedade quase nada.

Neste particular o Ministério Público, por um monocórdio, tedioso e cansativo discurso de seu titular, Roberto Gurgel, foi no livro bem realçado nos destaques importantes de seu estudo minucioso, discreto e sem alardes, requerendo a condenação dos agentes, com moderação e sobriedade.

Não se poderá dizer o mesmo dos advogados. E o livro assim o explicita também, analisando a fina flor da advocacia nacional, com defesas vazias, tentativas descabidas de procrastinações de última hora (desmembramento do processo), argumentações tolas (recorrer à OEA e à Corte de São José da Costa Rica), excesso de puxa-saquismo aos ministros, declamações e reclamações deliquescentes, vastas ofensas delinquentes tão improcedentes quão inamistosas ao Ministério Publico, tudo regiamente remunerado e em preço nunca tão equivocado. Discurseira tão irreal quão mal exposta, que inflou e ressaltou o libelo acusatório, só por este não ter sido nem arranhado nem fulminado, permanecendo a Procuradoria Geral da República vitoriada, por tão vigilante, quão silente e comportada.

Aliás, diga-se de passagem. A postura da PGR foi notável, enquanto contida e recolhida nos seus argumentos sem requerer réplicas, intervenções ou inserções no noticiário. Bem diferente da algaravia dos advogados que queriam mais e mais falar a exaustão. Exaurimento que não foi de Marco Antônio Villa, que assistiu tudo, enquanto eu cansei e desisti de assistir pela TV, e fui passear nos lagos andinos, em fins de inverno, para esfriar a cabeça.

E quando voltei da Patagônia o julgamento continuava. Agora com o embate entre o Relator, Joaquim Barbosa, e o Revisor, Ricardo Lewandowski, sob a lhanura complacente do Ministro Carlos Brito, o poeta Presidente.

No julgamento viu-se o que se esperava. Uns ministros com opinião formada partiram para a condenação, outros por pensar divergente, optavam pela absolvição, simplesmente.

Dir-se-á, e o livro assim assinala, que farto cabedal probante foi determinante para a condenação dos acusados. Na verdade o autor não estava ali para ser imparcial ou para filosofar em cima do tema. A sua opinião e avalia era contra a turma do PT, com Zé Dirceu e companhia.

Aliás, neste particular, a imprensa sulista, com a Veja puxando a bateria, só havia repique pra a condenação pura e simples. Difícil era ter um juiz que não fosse instigado a condenar. Não seria exigir coragem em demasia, sobretudo daqueles que gostam de cortejar o aplauso fácil e se notabilizam, não pela retidão do decisium, mas ao servil desiderato de sua galeria? Sobretudo daqueles que jogam para a própria torcida, sua plateia e patuleia?

Pois é! No livro de Marco Antônio Villa só ha destaque positivo para quem condenou os réus, especialmente aqueles de relação incestuosa com o PT, como Marcos Valério, Delúbio Soares, José Dirceu, José Genoino, e outros menores.

Quanto àqueles que inocentaram os acusados, o autor desfere juízos negativos, com ênfase para o Ministro Lewandowski, merecidamente pelo exclusivo caráter procrastinatório em discursos longos, entediantes e sem substância. Insipiência e deficiência também do Ministro Toffoli, sobretudo para exibição do seu primarismo intelectual.

Neste particular, só a apreciação da atuação destes dois Ministros vale o livro, porque melhor teriam feito se agissem como as Ministras Carmen Lúcia e Rosa Weber, que concisas e precisas acompanharam-lhes mais das vezes na minoria.

Quanto à maioria, o destaque aconteceu com o Ministro Celso de Melo que de modo lapidar apreciou a matéria em texto primoroso, tomado até por empréstimo pelo autor do livro, a guisa de sua apresentação.

No mais a objetividade do Ministro Fux, a coerência de Gilmar Mendes, a desconexa variância do azimutal Marco Aurélio, e a Presidência sóbria do Ministro Carlos Brito, que entrou poeta e saiu mais poeta ainda, por tantas loas a si proferidas e referendadas.

Fingimentos à parte, direi que no julgamento do Mensalão restou a condenação unânime para Marcos Valério e Delúbio Soares, por 9X1 para José Genoino, 8X2 para José Dirceu e outros 5×4 e até absolvição e empate, mostrando em alguns casos, que tudo poderia ser diferente se não houvesse a denúncia de Roberto Jefferson, aquele que “prestou um grande serviço ao Brasil, e ao PT”, no dizer do Ministro Marco Aurélio, e a excessiva cobrança PT-fóbica da imprensa sulista.

Não fosse assim, o “maldito esquema” não seria percebido nem se existisse uma “prova diabólica do Ministério Público”, ou uma “lavagem mais (que) lavada de dinheiro”, tudo derrubado por uma análise ”orteguiana” (Ai Don José!) e sendo apreciado qual um “cego apalpando o rabo, alisando o casco ou farejando a tromba de um elefante”.

No mais, o julgamento entronizou, para suprema alegria de Villa e seu livro Mensalão, a chamada Prova Indiciária, aquela que “utiliza o raciocínio lógico dos fatos envolvidos para corroborar o fato criminoso”.

Quanto a mim, eu que nunca fui simpatizante do PT, direi que isso não é da sua inerência exclusiva. Todo partido abriga os seus safados. Não creio que haja político daqui e de alhures, que resista a uma denúncia de comparsa ou uma queda de sigilo fiscal ou telefônico. No mínimo encontrar-se-á uma confissão de amor adulterino ou desbunde de armário. Neste particular melhor é o conselho de Jesus, o Cristo: “quem não pecou atire a primeira pedra!”

O problema do PT é que o partido, dito de trabalhadores, exclusivo, se apresentava com alvuras e canduras a fustigar burguesias e heresias como ninguém, e o seu desejo, provado e documentado, foi cair na gandaia, na orgia e na esbórnia, por conta do erário, com a pátria sempre tão distraída quanto espoliada, agora com os outrora barbudinhos, em prenúncio de fim de feira.

Sem conciliábulo de frade ou freira, a julgar pela dosimetria condenatória, tema não analisado no livro de Villa (seu relato só vai até 12 de novembro de 2012), essa raça exagerou no clarete e a ressaca veio à base de cacete. Cacete de azado calete, por juízes de só sua confiança, em fiança do próprio colete. Com direito até de reclamada autocrítica, por aprendizagem satânica e diabólico joguete.

Mas como no Brasil o pistolão e o pistolete, por safanão e ricochete, faz quem é mouco por audição, afinar clarinete e concertina, o que é ou foi propina, sempre poderá não o ser. É possível ainda que o Supremo resolva “errar por último” e mudar tudo! Mesmo porque o julgamento vai demorara bastante e até a composição do colegiado poderá ser modificada. Um assunto para outro dia, quando um novo livro surgir.

Quanto a mim, sigo descrente. Por que ouso pensar diferente e divergente? Quando eu ouço estes aplausos unânimes em revoltas enojadas, prefiro outro encanto, outra toda. Prefiro eleger a dúvida que fertiliza, desconfiando das certezas absolutas, mutiladoras e delirantes.

Diletante e instigador, o livro de Marco Antônio Villa vai vender bastante. É uma boa leitura. Foi um bom presente de Natal que recebi e recomendo.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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