Minha Belle-Mère, Júlia Garcia Moreno.

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Faleceu na terça-feira, dois de agosto, minha sogra, Júlia Nascimento Garcia Moreno.

Nascida em Propriá, então Julia Campos Nascimento, era filha de Manoel Paulo Nascimento, proprietário de plantações de arroz, e de sua senhora D. Maria da Glória Campos Nascimento, que num segundo consórcio incluiria o sobrenome Gomes, por substituição do Nascimento, face de viuvez precoce, e posterior casamento com Antônio Soares Gomes.

De Manoel Paulo, Júlia não reteve qualquer lembrança. Morrera bem jovem, em 1921, quando era apenas um feto no ventre de sua mãe.

Glorinha, como assim era chamada sua mãe, casara-se bem jovem com Manoel Paulo; tinha catorze a quinze anos de idade, e o casamento de curta duração, por viuvez, foi bastante fértil em filhos; sete ao todo, seis crianças: Robélia, Elvira (Irmã Luciana), Flamínio, José, Maura e Albertina, e Júlia ainda um feto, sendo os sete filhos, Campos Nascimento nominados.

As dificuldades da criação destes sete filhos, bem como aquelas inerentes à administração das fazendas de arroz, isso nos idos de 1922, levou Glorinha a contrair novas núpcias, desta vez com Antônio Soares Gomes que se revelou amoroso padrasto daquelas crianças.

Deste segundo casamento, Glorinha teve outros filhos, sobrevivendo quatro; Haidé, Aidil, Wandeth e Edson Campos Gomes, num casamento de curta duração também, porque Antônio, o segundo esposo, também morreria logo, deixando entre enteados e filhos, onze vivos, alguns infantes e outros adolescentes.

Por esse tempo, a família vendera as fazendas de arroz de Propriá, e emigrara para Aracaju onde o casal adquirira as terras do antigo Engenho Capucho, hoje um dos grandes bairros de Aracaju.  Terras que seriam vendidas por Glorinha, após a morte de Antônio, pela impossibilidade de administrá-las, então distantes e de difícil acesso.

Desde a infância Julia estudou no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, das Irmãs Sacramentinas, sendo colega ou contemporânea de Maria José leite, Juliná Aranha, Zulica Fraga de Almeida, Lucia Amarante, Valdete Cunha, Astrogilda Figueiredo, Isaura Garcez, entre outras, diplomando-se como Normalista em oito de dezembro de 1940, certificação assinada pela Irmã Saint Sylvain – Diretora, e Irmã Maria Vicentina – Secretária do Colégio.

Em 1951, Júlia casa-se com Aldjebran Garcia Moreno, o grande amor de sua vida, que lhe daria duas filhas, Tereza Cristina e Clara Angélica, num casamento não tão curto como aqueles de sua mãe, mas que, curto também, durou vinte anos apenas, por término com viuvez.

Aldjebran era o filho caçula do casal Pedro e Ambrosina Garcia Moreno.

Contador de profissão, Aldjebran graduou-se pela Escola de Comércio Conselheiro Orlando em dois de janeiro de 1945.

O casal residiu em várias cidades, em vista de diversas transferências de Aldjebran como Coletor Federal, nos Estados de Sergipe e São Paulo.

Após ter trabalhado em Lagarto, Maruim e Itabaiana e desejando seguir os passos do irmão Canuto Garcia Moreno, então médico em Santos, Aldjebran pede transferência para São Paulo, sendo lotado na cidade de São Simão, bem próximo de Ribeirão Preto.

A transferência pedida e conquistada não fora uma boa ideia, logo Aldjebran o perceberia, afinal a mudança para Santos não se confirmaria na celeridade esperada. E o que seria uma passada provisória de uma parada técnica no roteiro para a baixada santista, transformou-se num revés. Tinha subido de nível funcional, mediante promoção, e a dificuldade de novas vagas impediria não só atingir a cidade de Santos, como o próprio retorno para Sergipe, afinal a coletoria de São Simão possuía um nível hierárquico superior àquelas dos municípios sergipanos.

Da vida em São Simão, Tereza Cristina e Clara Angélica lembravam com Júlia muitos momentos de saudade, mas nada se comparava com as praias e a brisa de Aracaju. E assim a família logo retornou a Sergipe, com Aldjebran assumindo um cargo comissionado em Aracaju.
Alguns meses após a volta a Aracaju, eis que Aldegebran é forçado a retornar a São Simão, onde se vê afastado da mulher e filhas, ali permanecendo angustiado, abrigado na própria sede da coletoria.

É neste tempo que em reconhecimento aos méritos e inteligência de Aldjebran, este retorna de vez para Aracaju, onde assume diversas funções na Delegacia da Receita Federal de Sergipe, terminando por ocupar o posto de Delegado, por exclusivo mérito funcional e nenhuma indicação política, afinal os tempos sombrios de 1968 primavam pela primazia dos técnicos e pela eficácia administrativa.

Como Delegado da Receita Federal, Aldjebran teve uma passagem rápida que deixou saudade, pelo mérito e eficiência, e, sobretudo, no tratamento e convivência com colegas e subordinados.

Rapidamente, porém, após uma breve viagem de estudos aos Estados Unidos, Aldjebran contrai moléstia terrível que o leva ao túmulo em poucos meses, falecendo em 19 de setembro de 1971, muito jovem ainda, quarenta e oito anos, ficando Julia viúva com mesma idade, Tereza Cristina, acadêmica caloura de Odontologia na Universidade Federal de Sergipe, e Clara Angélica cursando o segundo grau no Atheneu Sergipense.

A vida de Júlia foi uma eterna lembrança de seu “Jeba querido”, e de contínua dedicação às filhas Tereza Cristina e Clara Angélica, firmando-se como exemplo de dignidade plena, disponibilidade a toda prova, correção exemplar e amizade sem limite.

Por este tempo, início de sua viuvez, testemunho o real sofrimento da família, momento em que namoro Tereza Cristina, em meio ao luto e às lágrimas, e casando logo após, em fevereiro de 1973, iniciando uma vida a dois de trinta e oito anos.

Há muitas piadas tendo as sogras por tema. Algumas destas hilárias estórias afirmam que uma sogra só é boa quando jaz debaixo do chão, sem chance de sobrevida ou ressuscitação. Nunca foi o meu caso. Júlia Garcia Moreno foi para mim uma sogra formidável, em apoio constante, confiança ilimitada, em reconhecimento do meu agir e proceder.

Não direi que eu era o seu genro mais querido. Com Ildácio Viana Guimarães, o seu outro genro, o esposo de Clara Angélica, creio que a sua afinidade era maior. Isso, porém, nunca me fez menor, afinal entre ser querido, bem amado e suscitar paixões, prefiro passar despercebido e jamais indiferente quando a correção no agir se faz necessário.

E neste ponto, o meu parecer e proceder a conquistava integralmente, em meio a raros erros e excedentes acertos.

Dona Júlia ensinou-me bastante em termos de criação dos filhos.

Em certos momentos, com os netos lactentes, chegava a ser incomodativa, nos modos e maneiras com que exigia de mim ao colocar minha primogênita Daniela no colo: “Cuidado, é uma casinha se fazendo”. E eu ficava louco para me ver a sós para pegar Danzinha, sem censuras e admoestações.

Outra coisa que Dona Júlia dizia, e isso eu achava inconveniente, era a referência excessiva de louvação ao Senhor Aldjebran: “Jeba é que era um santo.” Comentário, muitas vezes inoportuno quando se servia para interferir em alguma rusga, entre mim e Tereza Cristina, sempre ao lado da filha, com e, sobretudo sem razão.

Neste particular, diga-se em reforço que: se Aldjebran permaneceu como o seu eterno amor, inesquecível, nada se rivalizava à sua paixão por Tereza Cristina e Clara Angélica: “as suas cordas do coração”, daí dar-lhes razão, sempre.

Outro grande exemplo de Dona Júlia, notável para uma infinidade de pessoas que não agem assim, e inusitado para mim que nunca fora criado deste modo, vindo de uma família moderadamente abastada, era o seu desempenho, enquanto chefe provedor da sua família, gostando sempre de ajudar, presentear, ser útil, como mãe e avó, na educação e formação das filhas e netos, mas também, e, sobretudo, dando ajuda e apoio financeiro.

Ninguém me ajudara tanto, por empréstimo ou doação do que minha sogra, desde a aquisição da casa própria, alguns móveis, e até o meu primeiro automóvel, por ela parcialmente financiado, e pago por mim mês a mês, recusando o meu pagamento de juros, que recebidos a contragosto, foi integralmente depositado numa Caderneta de Poupança, em nome de Daniela, então a única neta.

Se mais não recebi de minha sogra, de ordem financeira, foi porque eu o recusava, coisa que para ela era fruto do meu orgulho bobo e desnecessário. Um orgulho que me enaltecia o ser e me fazia supremamente digno aos seus olhos, afinal obrigação minha era viver e consumir segundo os meus parcos e honestos recursos financeiros.

Isso, porém, suscitava reações de ordem diversa, afinal o proceder de Júlia ao dar algo a uma filha, se fazia de imediato pela doação de igual valor financeiro à outra. E neste particular, minha cunhada muitas vezes perdera algo, porque eu recusara receber oferta igual não requerida.
Mas, se isso correu assim, a chegada dos novos netos aumentou a pressão, sobretudo quando os meus três filhos atingiram a adolescência, bem como a única filha de Clara Angélica, Renata, dando a cada um dos netos, uma mesada de R$300,00, num tempo em que possuía um valor superior ao salário mínimo.

Diga-se de passagem, que tal mesada só fora concedida, condicionada à minha aprovação, porque Dona Júlia não queria intervir na educação que eu dava a meus filhos. Mesada, que permaneceu por longo tempo, até a emancipação de cada um.

De outra feita, quando Daniela passou no vestibular de Medicina, Dona Júlia deu-lhe de presente um Fiat Uno Zero Km. Eu, que conhecia seu costume de dar presente igual aos demais, disse-lhe na hora. “Dona Júlia, a senhora está abrindo um precedente, que será difícil cumprir depois com os outros netos.”

Mas, o precedente suscitou em mim o abrir da própria carteira. No vestibular de Machado demos, ela e eu em parceria, um Corsa GM Zero, e quando foi na vez de Odilon Junior eu banquei o seu carrinho integralmente, um Celta GM Zero, trocando-os, cada um deles, quando se fez necessário.

Eu, vindo de uma família mais abastada, nunca vira gesto igual. No meu ramo familiar talvez imperasse o mote agarrado: “Quem dá o que tem, a pedir vem!” Ou ainda: “O risco do pau quebrar é o mesmo do cabo do machado”, espécie de temor às prodigalidades do Rei Lear, célebre tragédia de Shakespeare.

Mas, não aconteceu nada disso. Com escassos bens e vivendo apenas da pensão de seu querido Aldegebran, Julia restou inesquecível para suas filhas, netos e genros, em doação e presença.

Depois, a decadência a atingiu em moléstia terrível; o mal de Alzheimer. A princípio um esquecimento senil, um retorno ao infantil, em repetição de estórias e entoação de canções: “Tereza Cristina, eu já cantei para você, ‘Você pensa que cachaça é água? ’” Era Julia deixando de ser Júlia, virando um vegetal, um sorriso cada vez mais perdido, em decadência lenta e continuada.

Seguir-se-iam oito longos anos de leito, sendo cuidada por Clara Angélica, a filha com quem escolhera viver, e por Tereza Cristina no apoio constante, sobretudo quando a crise exigia o esforço de todos.

Nesta segunda-feira, chamados por telefone, encontramos Júlia em desconforto traduzido por uma dificuldade respiratória. Na semana anterior, tinha se submetido a uma terceira intervenção para troca de sonda estomacal, realizada com sucesso pelo médico Dr. Raul Mendonça Filho.

Acionada, a equipe domiciliar da UNIMED em rapidez e eficiência, sob os cuidados da Dra. Lidiane (excelente), realizou alguns procedimentos, havendo sensível melhora. Posteriormente, éramos chamados novamente. O estado se agravara sobremodo e a equipe Unimed, com a Dra. Lidiane novamente, já a encontrava exalando os últimos suspiros. Falecia três dias antes de completar 89 anos de vida.

No seu sepultamento, teci-lhe palavras, comparando-a a Cornélia Semprônio Graco, a mãe de Tibério e Caio Graco, os mártires Tribunos da Plebe de Roma.

A história contada pelo poeta Orbílio, fala de um diálogo entre duas matronas romanas, Cornélia e uma amiga anônima, ensejando lições para a respública.

Enquanto a amiga enaltecia sua alegria em possuir jóias e muitas gemas preciosas, Cornélia, ao ver seus doze filhos se aproximarem, responde a sua amiga: “Hi púeri, inquit, sunt ornaménta mea! In his, non in gemmis es tota mea laetitia, omne meum gaudium”; Esses meninos são os meus ornamentos. Neles e não nas gemas está todo meu prazer, toda minha alegria.  Algo bem parecido de Julia Garcia Moreno, quando se referia a suas filhas Tereza Cristina e Clara Angélica, seus netos e familiares.

Para concluir, e em alongamento necessário, direi ainda que a palavra sogra, do latim “socra, ae”, tem no inglês sua versão para “mother-in-law”, mãe por costume, regra, legislação, algo rijo e duro, em tradução grosseira.

Já os franceses, mais sensíveis, doces e sentimentais, preferem chamar as sogras por “Belle-mères”, ou belas mães, simplesmente.

Nesse contexto especifico, e ao pé da letra do francês vertido, termino dizendo, que Julia Nascimento Garcia Moreno foi para mim uma grande “Belle-Mère”.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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