Minhas copas do mundo V.

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O fiasco de 1990.

 

A atuação do Brasil na Copa de 1990 disputa com a de 1966 como a pior campanha realizada. A novidade era o “futebolês” ou o Lazzaronês, novo idioma para traduzir o espetáculo técnico e tático da seleção comandada pelo técnico Sebastião Lazzaroni, convidado pela CBF para dirigir a seleção canarinha, por um relativo sucesso em campeonatos cariocas quando dirigiu o Flamengo e o Vasco da Gama.

 

Na copa de 1966 o Brasil ficara em 11º lugar entre dezesseis equipes, jogando três vezes, vencendo a Bulgária por 2×0 com gols de Pelé e Garrincha, e perdendo as outras duas de 1×3 para a Hungria (Tostão, Bene, dois, e Farkas) e de novo de 1×3 pra Portugal (Rildo, Simões e Eusébio, dois). Marcamos, portanto, quatro gols e tomamos seis. Na Copa de 1990, com 24 equipes participantes, jogamos quatro vezes e ficamos em 9º lugar, segundo a FIFA.

 

Lazzaroni; confuso e sofisticado.

 

A estratégia era defensiva com a introdução de um “líbero” que emasculava qualquer ação ofensiva. Detentor de um palavreado confuso e sofisticado Lazzaroni conquistara amplamente a crônica esportiva que o galhofava ao comentá-lo.

 

Segundo a Revista Veja é de Lazzaroni a explicação notável: “A filosofia é esta: estabelecer uma forma de compactar o time, sempre em função da coletividade.”.

 

Se a nossa história era plena de atacantes, agora privilegiaríamos a retranca em imitação às seleções européias. Vencemos por 2×1 a Suécia, com dois gols de Careca e um de Bralin para os nórdicos. Depois ganhamos por 1×0 a “fortíssima” Costa Rica, com gol de Müller. Derrotamos a “bem maios forte” Escócia por 1×0 com gol contra de Montero (atribuído erroneamente a Müller).

 

Batidos por Caniggia e Maradona.

 

O término de nossa Copa em 1990 foi lamentável e melancólico, banidos pela Argentina por 1×0, um placar minúsculo, com gol de Caniggia, em passe de Maradona.  

 

Nossa ofensiva nunca fora tão inoperante: marcamos quatro gols apenas. Na verdade três gols, porque um foi contra, e tomamos dois, um deles fatal; de Caniggia.

 

É bom repetir-lhe o nome: Caniggia. A nossa vanguarda era tão ruim que se atribui ao Senador Romeu Tuma, então Chefe da Polícia Federal, que a seleção teria se saído melhor se tivesse aprendido pontaria com a polícia.

 

A vitória de 1994.

 

Em 1994 o técnico foi Carlos Alberto Parreira com Zagallo na retaguarda. Parreira tinha se revelado como técnico da seleção Kuwait. Desta vez voltamos a acertar conseguindo o tetra campeonato na Itália.  

 

Mas a campanha da seleção não foi fácil, sobretudo em relação com a imprensa, que era crítica e merecia atenção, afinal naquele momento o melhor atleta nacional era o baixinho Romário. E Parreira teimava em não convocá-lo.

 

A convocação de Romário.

Romário foi o grande herói do tetracampeonato de 1994.
 

Finalmente há a convocação de Romário e este salva ao Brasil da desclassificação com 2×0 contra o Uruguai no Maracanã. Se a na classificação o time de Parreira se revelou fraco, na Copa o Brasil voltou a brilhar: 2×0 contra a Rússia (Romário e Raí), 3×0 contra o Camarões (Romário, Marcio Santos e Bebeto), empatou com 1×1 com a Suécia (Romário e Andersen), 3×2 com a Holanda (Romário, Bebeto, Branco, Bergcamp e Winter), 1×0 de novo com a Suécia e a final empatando em 0x0 com a Itália. Vencemos a Copa de 1994 na disputa de pênaltis, onde ganhou o Brasil só porque errou menos, afinal o placar final foi 3×2.

 

Tetracampeonato vencido por quem errou menos.

 

Foram batidos quatro pênaltis pelo Brasil e cinco pela Itália. Pelo Brasil perdeu Márcio Santos e acertaram Romário, Bruno e Dunga. Pela Itália converteram Albertini e Evani, enquanto Bresse, Massaro e Roberto Baggio perderam, um com defesa do goleiro Taffarel, e os outros por absoluta falta de pontaria.

 

Se em 1986 voltamos para casa imbatíveis, embora derrotados por 4×3 nos pênaltis contra a França, agora voltávamos campeões, também com disputa de pênaltis, em brilho nacarado.

 

Há os que se alegram.

 

Nesta Copa dois destaques sumamente alegres e um terceiro bastante lamentável. O primeiro pessoal e intransferível foi a primeira vitória do Brasil para os meus filhos, que desde 78 hasteavam a bandeira brasileira na frente da nossa casa ao som do Hino Nacional, no início de cada jogo da seleção e não sorriam a alegria do campeonato.

 

A segunda alegria derivava da excelente participação de Romário. Não fora o baixinho, esta Copa talvez não fosse nossa. Vitória trazida por Zagallo, pela quarta vez, só para restar espinho e abespinho na garganta dos seus verbosos críticos.

 

Quem? Ninguém se lembra. “Verba volan, scripta manent”, como diziam os latinos se referindo às palavras que voam e aos escritos que permanecem. Mas, os escritos e gravados convenientemente são desditos, esquecidos e até apagados para ressurgirem em novas críticas, afinal, “veritas odium parit”, a verdade engendra o ódio. E a verdade estava com Zagallo e não com a crônica esportiva, que jamais o deixaria em paz.

 

Há, todavia, os que só farejam misérias.

 

O lamentável ficou por conta da Receita Federal que resolveu fiscalizar o retorno da seleção como se fossem contumazes contrabandistas.

 

“Cherchez l’héros, et vous trouverez le coquin”, poderia ter bem dito um novo Javert, imitando o maldoso e inspetor de Les Miserables, a obra magna de Victor Hugo. Para estes, não existem heróis, só bandidos, falsários e contrabandistas

 

Assim num excedente excesso de mediocridade, boçalidade e falsa santidade, fiscais foram requisitados para constituir um corredor polonês de boas vindas aos nossos atletas. Na verdade, tais figuras deletérias queriam se orgasmar com um autógrafo de multa ou outra qualquer penalidade, porque “os jogadores têm que ser fiscalizados como qualquer um”, como afirmou o agente que agora entrava no jogo para melar a volta olímpica e angariar pior fama.

 

“Eles são cidadãos comuns!” repetia o funcionário autoritário, querendo requisitar até “os quintos do ouro” da taça conquistada. E o avião foi retido na pista com os nossos atletas sofrendo o vexame de mostrar a miudeza que portava nos bolsos e nas malas.

 

Um P.Q.P. bem grande.

 

Ah! Como é necessário berrar um P.Q.P. bem grande nestes casos, só inerentes à pequenez da pátria. Cidadãos comuns, somos todos. Mas naquele momento, eles eram deuses ou quase isso para a alma nacional sofrida. Éramos tetra campeões do mundo, uma novidade ainda.

 

E ao leão, queria sua parte leonina. O leão se fazendo inimigo da nação. E aí eu estou a me lembrar de Lavoisier, o Químico incomparável, tendo a cabeça cortada na guilhotina pelo povo, só porque era um cobrador de impostos o ou símbolo idiota do Estado massacrando o cidadão. Uma hiena bem comum nestes momentos.

 

Mas se 1994 restou assim, a história das minhas Copas ainda não estava no fim.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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