Minhas Copas do Mundo VI.

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Quem é Bruno?

 

Um leitor das minhas lembranças das Copas do Mundo telefona-me indócil. Quem foi este Bruno que marcara um pênalti na vitória contra a Itália na decisão de 1994? Você errou aí, cara! Não tinha Bruno na seleção tetracampeã. Tem alguma coisa errada, reveja seus arquivos! Disse-me ele sem nomear o marcador, o que me seria melhor. Realmente, o chutador do pênalti não fora Bruno (quem é Bruno?), mas Branco, dono de um chute potentíssimo.

 

O que Branco tem a ver com Bruno? Nada, afirma-me o Dr. Google, o pai dos novos burros. E eu sou um destes asnos, sobretudo quando se fala de futebol.

 

Mas, como há quantos e nunca houve tantos a dissertar futebol, continuo ousadamente, agora pondo manchão por conserto, dizendo que Branco nunca fora Bruno, embora continue sendo Cláudio Ibraim Vaz Leal, o que não seria nada, não fosse tão verdadeiro.

 

Copa de 1998.

 

Verdadeira ou falsamente, a Copa de 1998 restou incompreendida. Um fato a desfiar investigadores conscientes, excitar maledicentes mistificadores e deslindar historiadores deliqüescentes, só para explicar o irrelevante que ficou incógnito na nossa memória por vã inglória.

 

O que aconteceu na França, que a Copa nos fugiu entre os dedos inexplicavelmente? Houve alguma combinação, um acerto de conchavo ou uma marmelada para definir o campeão? Ou é o futebol que é assim, em reservas de surpresa?

 

Pesquisando tal tolice e até sua inutilidade, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Congresso Nacional foi convocada para apreciar o desmando do nosso futebol. Porque a crônica esportiva falando mais dos cartolas e suas marolas do que da própria bola, sempre exige que alguém “passe a limpo” toda administração esportiva, dos clubes aos técnicos se alongando a mais longínqua federação.

 

E o Congresso Nacional que nunca se contempla impuro, bem pior que a FIFA e a CBF, abriu uma CPI que se mostrou inútil tanto quanto. Porque o que se viu, em sessões televisivas, foi mais uma sequencia besteirol, agora envolvendo Deputados e Senadores, exibindo-se em mediocridade, futilidade e imaturidade, com tanta coisa importante a discutir e debater. Um assunto hoje esquecido, embora fosse tentada uma caça às bruxas para assacar desafetos, só excedida pela tietagem descarada em requisições de autógrafos e declarações amorosas assaz melosas.

 

Como comparar desiguais?

 

Há sempre uma preocupação da crônica esportiva em fazer comparações do passado com o presente para estabelecer suas preferências. É como se perguntasse, ou se fizesse um torneio para saber quem foi maior Hércules, Sansão ou o Cancão de Fogo? Dante, Camões ou Ovídio? Euclides, Pitágoras ou Newton? Seria uma comparação impossível. Mas em termos de Copa do Mundo, e na falta de uma maior objetividade tentam comparar Horácios e Curiácios com pascácios e cartapácios, esquecendo que as regras foram mudadas, o número de países participantes também, um conjunto de alterações que torna incompatível um cotejamento de escores, goleadores, qualquer dado quantificado em gradação verdadeira.

 

Na Copa de 1998, por exemplo, o número de equipes subira de 24 para 32. Antes já aumentara de 16 para 24 em 1982, sem falar do número crescente de países atingindo todos os continentes, com a inclusão de povos africanos e asiáticos, ampliando o número de confrontos na fase eliminatória. Mas, mesmo assim faz-se a comparação dos desiguais, um assunto que ainda retornarei.

 

Tomando Zagallo como purgante.

 

Na Copa de 1998 eis que volta Zagallo ao comando da seleção. Um retorno que reavivava novas reações explosivas da crônica esportiva que nunca perdoou o sucesso de Zagallo, jamais imitado, quer como jogador e campeão em 1958 e 1962, quer como técnico vitorioso em 1970, e ainda sendo pentacampeão em 1994, como membro da supervisão técnica ao lado de Carlos Alberto Parreira.

 

Tanta vitória assim era motivo para reavivar ódios, críticas e frustrações contra o “velho lobo”, deglutido a contragosto como purgante.

 

Muitos têm que engolir esta foto.
Neste particular, a crônica esportiva só “engole redondo”, como suave golada de cerveja gelada, aquilo que seria um chope choco, por desprovido de taças e títulos na nossa seleção; o “coleguinha” João Saldanha, um comentarista esportivo posando de treinador, e o técnico Tele Santana, vitorioso no comando de clubes, mas sem títulos em Copa do mundo.

 

E assim, na impossibilidade de lhes acrescentar os loiros não conquistados nos campeonatos mundiais, tentam apagar os feitos de Mário Lobo Zagallo só porque dele não gostam, nem lhe querem bem. Tentam no adjetivo e no dicionário negar-lhe a substância de seus títulos d’ouro, criando por bestiário, um desdouro de futebol retranqueiro, caracterizado por um jogo covarde, ronceiro e medroso; receoso de se expor para golear, enfim tudo o que na prática resultou títulos e medalhas, mas que os “entendidos de bola” propagam nos microfones ser um futebol burocrático e morno.

 

Por outro lado, como em Copa do Mundo todo mundo entende de futebol, houve uma grande reação contra a não convocação de Romário, então o nosso maior atacante, mas que se contundira e não participaria da Copa.

 

Zagallo mal “engolido”,… e um fenômeno mal explicado.

 

A ausência do baixinho realmente fizera falta ao time. Ganhamos da Escócia por 2×1 com gols de César Sampaio, Boyd contra e Collins para os escoceses. Vencemos o Marrocos por 3×0 com gols de Ronaldo, Rivaldo e Bebeto. Perdemos para a Noruega por 1×2, com gols de Flo e Rekdal para os nórdicos e Bebeto pra nós. Goleamos o Chile por 4×1, com dois gols de Cesar Sampaio e outros dois de Ronaldo, e um de Sala para os chilenos. Vencemos a Dinamarca por 3×2, um gol de Bebeto e dois de Rivaldo, e Jorgensen e Laudrup goleando para os daneses. Empatamos em 1×1 com a Holanda, com gols de Ronaldo e Kluivert. Depois vencemos nos pênaltis por 4×2, com gols de Ronaldo, Rivaldo, Emerson e Dunga, e Bôer e Bergcamp para os oranges.

 

Finalmente cometemos a baboseira de perder para a França por 3×0, quando o Brasil jogou abaixo de todas as expectativas, com um Ronaldo sonolento e sorumbático, num comportamento ainda hoje mal contado e pouco explicado.

 

E assim a Copa de 1998 ficou na nossa história com esta lacuna inexplicável, Zagallo sendo execrado, por mal “engolido”, e Ronaldo um fenômeno mal aplicado. Mas ainda chegariam dias de glórias.

 

Pentacampeão com Luis Felipe Scolari

 

Em 2002 foi convocado o treinador Luiz Felipe Scolari, técnico dos mais capacitados e vitoriosos, campeão por vários times, embora também fosse considerado um técnico “retranqueiro”, de “jogo feio” e que entre outras coisas “mandava bater nos adversários”.

Luiz Felipe Scolari, o técnico pentacampeão.

 

Mas o seu sucesso em times como o Grêmio de Porto Alegre e o Palmeiras o levaram ao comando da nossa seleção e a escolha se revelou notável, afinal Felipão conseguira a unidade do time, convocando atletas da melhor qualidade, destacando os três erres Ronaldo, desta vez sem convulsão, Ronaldinho, o Gaúcho e Rivaldo.

 

Faltava novamente aquele que seria o quarto erre, o baixinho Romário, dono ainda de um excelente futebol, mas cuja conduta extra-campo ensejava excesso de estrelismo em contra-ponto de liderança; um mal sempre recorrente em des-criação da nossa imprensa que inventa semideuses, elevando-lhes o ego para destruí-los, substituindo-os sem lembranças quando lhes fogem a firula e o vulgo que ulula. Por isso ou quase isso, Luis Felipe Scolari justificou laconicamente o corte do “baixinho” por exclusivo “motivo tático”.

 

A luta do pentacampeonato.

 

O Brasil fez a seguinte campanha: 2 a 1 com a Turquia, com gols de Ronaldo, Rivaldo para nós e Sas para os turcos; 4 a 0 contra a China, com gols de Roberto Carlos, Rivaldo, Ronaldinho e Ronaldo; 5 a 2 com a Costa Rica, com dois gols de Ronaldo, Edmilson, Rivaldo e Junior para nós e Wanchope e Gómez para os Costarriquenhos; 2×0 contra a Bélgica, gols de Rivaldo e Ronaldo; 2×1 contra a Inglaterra, com gols de Rivaldo e Ronaldinho para nós e Owen para os ingleses; 1×0 contra a Turquia com gol Ronaldo e finalmente 2×0 contra a grande Alemanha com dois gols de Ronaldo, dito “o fenômeno”.

 

Curiosamente Ronaldo saíra da Copa como seu artilheiro com oito (8) gols em sete jogos, se redimindo da convulsão mal explicada de 1998. Um fenômeno menos brilhante se compararmos com o Diamante Negro, Leônidas da Silva com 7 gols em 4 jogos na Copa de 1938 e o pernambucano Ademir Marques Menezes com 9 gols em seis jogos na Copa de 1950, mas para que falar de ídolos esquecidos se os tempos eram outros, bem mais televisivos e fenomenais?

 

E assim aconteceu o pentacampeonato. Na partida final o Brasil entrou em campo com a seguinte equipe: Marcos; Lúcio, Roque Júnior e Edmilson; Roberto Carlos, Gilberto Silva, Kléberson, Cafu (Capitão) e Ronaldinho Gaúcho; Rivaldo e Ronaldo, e o capitão Cafu empalmou a taça, como Belline em 1958, Mauro em 1962, Carlos Alberto em 1970, e Dunga em 1994.

 

A Copa de 2006.

 

Em 2006, eis que volta a comandar a seleção brasileira o técnico tetracampeão de 1994, Carlos Alberto Parreira, que desta vez não angariou o mesmo sucesso, ficando em 5º lugar.

 

Zagallo e Parreira tetracmpões, mas desprestigiados pelos “entendidos” em futebol.

Ganhamos da Croácia de 1×0, com gol de Kaká, 2×0 contra a Austrália, com gols de Adriano e Fred. Goleamos o Japão por 4×1, com dois gols de Ronaldo, um de Juninho e outro de Gilberto Silva, enquanto Tamado pontuou para os nipônicos. Vencemos Gana por 3×0, gols de Ronaldo, Adriano e Zé Roberto, e finalmente perdemos de novo contra a França, desta vez por 0x1, com gol de Henry.

 

Como rotineiro os heróis de 2002, medalhões inexpressivos agora, foram criticados sobremodo.

 

Roberto Carlos, Ronaldo, Cafu e outros foram acusados de carreirismo e excessiva preocupação com suas marcas individuais e seus recordes na seleção, acusação também estendida a Carlos Alberto Parreira.

 

A história que continua.

 

Estava encerrada a história das minhas Copas do Mundo.

 

Minhas, porque desde 1958 para cá (este é o meu caso e de tantos), todos nós brasileiros temos torcido e vibrado, sofrido e bem alegrado. Foram cinco títulos mundiais, feito notável, ainda não imitado.

 

Mas a história continua. Estaremos caminhando para um hexacampeonato? Será isso uma coisa boa para o esporte, esta invencibilidade de super homens? Logo nós que nos fazemos pigmeus em tantas áreas?

 

É bom para o brasileiro querer ser sucesso apenas no futebol, como atleta, treinador ou comentarista?

 

A chuteira, que enseja o chulé, a coceira e o pé-de-atleta, deve ser o sonho e a exclusiva razão dos que fazem a pátria? Porque em tempos de Copa do Mundo, nada interessa ao brasileiro. Do vulgo ao vago, passando por poucos ilustres e bem menos ilustrados, estamos comentando os trejeitos, maus jeitos, e até o odor da cueca de Dunga, o técnico da seleção, que se tranca e se fecha, tentando realizar um bom trabalho, e lhe assacamos a intimidade atentando-a, até com especialistas em leitura labial, o que é abissal e terrível, por medíocre.

 

E assim surgirão os novos reis, imperadores, heróis fenomenais em meio a fabulosos respeitados e a tantos rejeitados e esquecidos.

 

Os imperadores romanos festejavam sua miséria dando pão e circo à plebe assaz ruidosa. Sem possuirmos imperadores, a arquibancada é a mesma, irracional, raivosa e assedentada. Que venha a taça para as nossas cores, eis de novo o nosso grito insaciável!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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