Minhas Mulheres.

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O dia 8 de março é o dia universal da mulher. Dito assim, parece que os outros 364 dias do ano (ou 365 naqueles bissextos e múltiplos de quatro) não são dias da mulher.

De quem serão, perguntará o tolo? Não sei! Não é importante! Pode ser da criança, da mãe, do pai, da vovó, do caixeiro, do bicheiro, do trabalho, do funcionário público, do estudante, do namorado, do professor, do samba, da Paixão do Senhor, do Natal, do Padroeiro Paroquial; a lista é longa. Aqui, alhures e no escambal.

Mas o dia 8 de março insere uma comemoração para lembrar a humanidade que ela, a humanidade, é capaz de todas as maldades.

No dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, em New York, fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica reivindicando melhores condições de trabalho. Queriam redução de carga diária de trabalho de dezesseis para dez horas, equiparação salarial com os homens, que ganhavam um terço a mais em idêntica eficiência, e tratamento digno no ambiente de trabalho.

A manifestação foi reprimida com extrema violência. As mulheres foram trancadas num compartimento da fábrica que foi incendiado. Morreram cerca de 130 tecelãs, mártires jamais esquecidas. Um ato totalmente desumano, mas rotineiramente repetido pelo humano agir.

Portanto, para que a humanidade não repetisse tragédias iguais, eis o dia universal da mulher e para dizer sobremodo, que a mulher é o melhor bem da vida. E feliz do homem que encontra a sua mulher amada, aquela que lhe deve ser única e permanente.

E já dito assim, eu começo sem cantar o samba gostoso de Martinho da Vila, o famoso “Já tive mulheres” que a mulherada tanto gosta. E a molecada também. Porque eu nunca me vi como o sambista se encena; um “gostosão”.

Nunca fui esta espécie de “furador”, como diria qualquer desbocado rufião, ou aquele vilão que imagina ser do cerne feminil a audácia, a malícia, ou o furor uterino inerente a qualquer Messalina.

Nunca entenderei a mulher em avidez promíscua, muito menos uma vocacionada para o engano e a mercancia do gozo.

Nunca imaginarei que, por ser assim, ao homem só resta o espinhoso aprendizado por descaminhos gozosos, entremeados por ejaculações inúteis e aleatórias, e por infecções tão deletérias quão venéreas, na busca do sol de sua vida.

Neste particular, identifico-me sobremodo, com a confissão de fragilidade do “Tremendão” Erasmo Carlos: “Dizem que a mulher / É o sexo frágil / Mas que mentira / Absurda! / Eu que faço parte / Da rotina de uma delas / Sei que a força / Está com elas.

E prossegue: Vejam como é forte / A que eu conheço / Sua sapiência / Não tem preço / Satisfaz meu ego / Se fingindo submissa / Mas no fundo / Me enfeitiça.

Ou seja, feliz do homem que encontra sua mulher amada.

Neste sentido vale também o melô “Nóis Não Vive Sem Muié” de Gilberto e Gilmar:

“Si a careca aumentar / Nóis arranja uma piruca / Si o meu time não ganhar / No juiz nóis põe a culpa / Si a vida amargar / Nóis adoça com açúcar.

E assim que seja repetido como refém. “Mais só não pode é acabar com as muié / Nóis não vive sem muié / Nois é doido por muié”.

Com tal amparo, estou a explicitar que não me anima querer estabelecer uma boa ou má valia da mulher perante o homem, ou promover uma competição entre eles afinal a mulher sempre pode realizar tudo que o homem já fazia. De modo que não pretendo inusitar o que não é novo.

Temos uma Presidente, uma Presidenta, melhor diria. No Brasil isto não chega a ser uma coisa tão nova assim. A Princesa Isabel, a Redentora, regeu a pátria muitas vezes. Era inclusive herdeira monarca imperial. O modismo da República é que a baniu e a impediu.

E a História nos relembra sem muita procura, que o maior monarca da Inglaterra não foi um rei, foi uma Rainha, com letra maiúscula inclusive; Elizabeth, a primeira, aquela que transformou sua ilha, um estado semibárbaro, no maior império, jamais imitado.

De modo que ao falar da mulher não a inserirei neste lugar comum de concessões, reinvindicações e estatísticas.

O que falta à mulher é a consciência de sua força.

Neste particular, vale o chiste gozador de Nelson Rodrigues, pouco entendido: “Toda mulher gosta de apanhar, menos a neurótica; o homem é que não gosta de bater.”

Chiste profundamente mal entendido porque atinge diretamente na ferida que é um cancro na relação homem mulher.

Se não é por isso, esta inconsciência feminina do reconhecimento da própria força, como se explica no Brasil ainda morrerem por ano cerca de 1830 mulheres assassinadas por seus maridos, namorados e amantes?

Por que uma mulher se apaixona, morre de amores por um monstro? Por acaso ela é presa tão fácil dos próprios hormônios?

Se não é assim, caça fácil em concessão irracional, por que ela se deixa engravidar por um cafajeste?

Seria esta vocação explícita de gostar de sofrer, de apanhar mesmo, de ser mal tratada, humilhada, vilipendiada, perguntaria Nelson que cantou infinitamente o amor romântico eterno, para além da vida?

Mulheres de todo mundo uni-vos! Tenham consciência de própria força, seu charme, sua mais que necessária presença como elo fundamental da humanidade!

Vocês já trazem consigo o próprio poder de submeter o homem, bruto ou polido! Competem a vocês, mulheres, excluí-los de suas vidas se brutais, desde o nascedouro da relação, à primeira divergência sem mor discussão, afinal neste particular e no mau caráter como um todo, ninguém melhora, ninguém merece perdão. Perdão é coisa de santo, de bobo e de tolo.

Melhor do que o perdão é a prevenção, o afastamento, o cuidado na própria preservação. É uma maneira de amar e de amar-se, sobretudo, porque todos pioram, sobremodo os transidos e fingidos em arrependimento.

Não fora assim, não existiria a inutilidade dos confessionários que a todos absolvem, mas não saneiam nem purificam.

Daí ser necessário o afastamento, o distanciamento mediante uma ação eminentemente cerebral.

Assim, por que não infertilizá-los, inutiliza-los sem emasculá-lo? Negar-lhes seu amor, a relação, condenar-lhes perpetuamente ao onanismo e à masturbação?

Seria muito difícil, impossível mesmo, a mulher agir de forma menos sensual que racional?

Ah! Quem não gosta de uma bunda feminina! As revistas vendem mais bundas que caras; sobretudo as bundas que gostam de apanhar, de se vender, de se menosprezar. Bonitas mas infelizes.

Que nada! Dirá aquela mulher vocacionada para a mercancia do prazer. Feliz de quem tem uma bunda assim; com ela se conquista o céu e a terra sem fim!

Mas, eu não quero ditar normas às mulheres. Eu quero falar é das minhas mulheres, ora essa! Não como Martinho da Vila que teve muitas e conservou poucas.

Eu tive poucas e as conservo no meu existir, começando por minha amorável avó, Maria Evangelina Cabral Machado, Dona Nina, educadora de órfãs, fundadora do Asilo São José na cidade de Capela, minha eterna contadora de história, minha Sheherazade.

Histórias não esquecidas na memória, desde meus nove anos, na infância, que repeti para meus filhos e hoje sou feliz por fazê-lo aos meus netos, reverberando o eco longínquo de sua voz já fraquinha quando a ouvi, já anciã.

Falar de minha outra avó, Ascendina Figueirêdo Cabral, mulher frágil, tipo mignon, magrinha, viúva por muitos anos, boa administradora do seu patrimônio, conservando-o, preservando-o, só para dizer que não é de hoje, ser a mulher um exemplo de eficiência e operosidade.

Dizer de minha mãe, Maria de Lourdes Cabral Machado, os olhos mais belos e ternos que conheci. Mais azul que o meu olhar em seu reflexo.
Mulher forte, digna, inteligente, ciosa de seu lar de seus filhos, educando-os e ilustrando-os para a vida.

Mulher de brilho próprio, interior. Não o brilho solar, esfuziante do seu marido, meu pai homem público notável, expressão fulgurante da inteligência e do intelecto, com quem nunca competiu, mas venceu, porque restou mais luminosa, amorável, por ser dos seus filhos somente.
Mulher que bem repetiria de Cornélia, a mãe dos Grachos, na apresentação dos seus filhos como gemas.

Que sejam abertas aspas em reverência às mulheres que são mães: “Hi púeri sunt ornamenta mea! In his, non in gemmis, est tota mea laetitia. Gloria horum liberorum meorum est gloria mea”. Estas crianças são o meu ornamento. Nelas, e não nas joias, reside toda minha alegria. A glória de meus filhos é a minha glória. Que se fechem as aspas!

Falar também de Dejanira Santos, Nanam, minha segunda mãe, que conosco viveu toda uma vida. E minha madrinha, Emerenciana Marques dos Santos, que viveu conosco mais de noventa anos, minha madrinha Mem, que gostava de fumar um mata-rato. E que viu o menino crescer agoniado, virar rapaz, fazer-se homem para poder comprar-lhe os melhores charutos por bem merecer. “Ah! Que menino bom, esse meu afiado Odilon, me deu de presente um charuto de governador”.

Nanam e Mem, estas minhas queridas mulheres, em cuja lápide deixei-lhes minha imorredoura saudade repetindo as palavras de Rute, a juíza de Israel. “Teu povo será o meu povo, teu Deus o meu Deus”. Ah! Que saudade destas santas mulheres!

Falar de Minha mulher Tereza Cristina; que me santifica o ser, sendo o sol da minha vida. Que me abençoa o viver e o existir, na mesma cama, quase no mesmo colchão dos nossos cheiros, há quase quarenta anos.

Ah como eu tenho pena dos homens que passam pela vida e não encontram a mulher amada, seu complemento, o sorriso que os anima a prosseguir!

Falar de minha sogra Julia Nascimento Garcia Moreno, presença viva na minha vida, avó de incomensurável amor por meus filhos e pelos netos que viu, sorriu-lhes apenas, sem mais conhecer.

Decantar e destacar a minha filha Daniela Garcia Moreno Cabral Martins, uma mulher belíssima, esposa de Mario Henrique Martins, mãe de Pedro Henrique e João Marcelo, profissional vitoriosa, laureada e especializada nos melhores Centros Cardiológicos do país, médica formada pela nossa Universidade Federal de Sergipe, implantando marca-passos e desfibriladores cardíacos.

Uma guerreira, campeã em todos os concursos públicos que concorreu, aqui e alhures.  Sempre terna, calma, precisa, segura no seu diagnóstico, na sua profilaxia; um profissional exemplar. E que ninguém poderá dizê-lo diferente sem cometer perjuro ou motivado por mau juro.

Falar também das minhas noras Aline e Maíra, pela alegria que se entranha no sorriso de meus filhos Machado e Junior.

Poderia falar de muitas mulheres que se fizeram minhas, por amigas e parentas, destaque-se para minhas alunas, inesquecíveis alunas, a ouvir meus estímulos e conselhos.

Belas, sempre belas!  E se tornando bem mais belas em sendo vitoriosas, vencedoras!

Assim, excluindo o institucional e prendendo-me ao essencial, encerro com o refrão do “Tremendão”:

“Mulher! Mulher! / Na escola / Em que você foi / Ensinada / Jamais tirei um 10 / Sou forte / Mas não chego / Aos seus pés.”

Deus abençoe as minhas mulheres!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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