Mundo em Desordem.

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Há livros que se fazem indispensáveis. “Rumo a Estação Finlândia” (To The Finland Station), de Edmund Wilson (1895-1972), é um deles. Sua leitura me traz uma espécie de atração confiável com o autor. Algo que me impede de esquecê-lo, abandoná-lo, como se fora um livro-texto adotado numa disciplina básica, rotineiramente repetida e estudada.

Assim, como se existisse uma atração irresistível, realizo uma feliz decisão toda vez que enceto uma nova leitura desta viagem comandada por Wilson ao longo das idéias e desejos dos homens, nos bondes baldeados da história, desde a narração dos feitos revolucionários franceses de 1789, tão longínquo, em peregrinação do pensar tão utópico, quão oscilante e dialético, ao não tão próximo viajar de Lênin em demanda da Estação Finlândia, em Petrogrado.

Dir-se-á, como crítica inclusive, que “Rumo a Estação Finlândia” ao vir a lume em 1940, já chegava desatualizado pela dinâmica da História.
E assim, por circunstâncias inerentes ao desempenho dos personagens já autores desta mesma História, suas histórias pessoais, misérias e conflitos, mesmo em noticiário pouco conhecido, tudo fazia o ensaio vir a lume, deveras desatualizado.

Toda a trama já restava desvirtuada, desbotara-se o contexto idealizado por século e meio de lutas e sonhos, pelo comezinho e sempre medíocre, interesse individual, pantanoso estuário da miudeza dos homens.

Assim, não faltou quem dissesse que “Rumo a Estação Finlândia” restara uma obra inútil, que nascia sepultada pelo “lixo da história”, só para citar uma locução leniniana, enterrando os seus adversários mencheviques.

No entanto, mesmo agora quando a queda do Muro de Berlim modificou o mundo, ensejando apressadas conclusões de “Fim da História”, Edmund Wilson se faz eminentemente atual, merecendo ser continuado e refletido, como anseio dos desejos individuais e coletivos.

É triste a reflexão dos que se arrimam nas explicações simplistas que apressadamente teimam queimar etapas, espécie de Mobral ou Cursos Supletivos de sua herança, conferindo certificados ao superficial e rasteiro.

Neste particular, a Queda do Muro de Berlim fez muita gente pensar que Hegel, Marx e Engels, e tantos outros que permearam o caudaloso regato do pensar utópico, constituíam leitura inútil, vazia, doravante, afinal o mercado resolveria sonhos e traumas.

Na verdade este pensar preguiçoso e impaciente ressurge quando cavalgando os cavalos da História os homens se ensoberbecem com o próprio rastro. Ah! Quantos já foram assim, em galope desembestado, igual à tempestade inexorável, povoada de trovão e medos, onde nem os coriscos respeitam abrigo.

No entanto ao abrigo deste tropel, os homens vêem passar os seus guerreiros imbatíveis. Assim foram Alexandre e Aníbal. Foram também os Césares, questores ou conquistadores, fugacidade bem vista em Constantino, cercado de Bispos para, usando a fé e o sínodo, fulminar o seu dissidente, utilizando-se do dogma, do credo e da bula, para ferretear o herético, o que não coonestava o seu mando.

Passados seguem ainda os destrutivos Átila e Genghis Khan, espécie de gênios inspirados em Satã, ou Arimã, ou Shiva, em danação, maniqueísmo, ou eterno retorno de recriação.

Igualmente foram embora aqueles bem nascidos e abonados, por herdados ou bem casados, como Felipe II de Habsburgo, que tentou ser dono do mundo e foi senhor do Brasil, ou outros mal nascidos e desabonados, que vitoriados ousaram igual, como Napoleão, sem falar no deletério e do despautério que foram Hitler e Stalin, e tantos outros que os amaram em odes e canções, e que hoje restam já rejeitados, por ultrapassados, embora sejam todos, opressores e oprimidos: indeletáveis; por passível imitação e restauração, e até ressuscitação forçada.
Enfim, o mundo que foi sempre se poderá repetir, afinal o homem é capaz das mesmas misérias.

E assim, livros como “Rumo a Estação Finlândia” não se desatualizam, merecendo reflexão e continuidade. É como se Wilson estivesse a seguir a sugestão de Hannah Arendt em “A Condição Humana”, estudo que nunca lera, afinal morto em 1972, os seus escritos mais destacados não revelam conhecer a produção filosófica da judia alemã aluna de Heidegger.

Um livro indispensável.

Talvez, neste campo de análise, perseguindo o trem da História e permeando a linha romanceada de Edmund Wilson, a mais notável análise surgida em terra pátria seja o recente lançamento de “O Mundo em Desordem”, Volume 1, 1914-1945 (Editora Record 2011), de autoria de Demétrio Magnoli e Elaine Senise Barbosa.

Corajoso e instigante, este ensaio ousa contrapor na dicotomia Liberdade Versus Igualdade, o grande debate do século que passou, e que ainda não foi bem estudado, afinal persiste impregnado de preconceitos e ideologias.

Se a queda do muro de Berlim permitiu a inserção alcalótica de morte das utopias, por inutilidade incompatível a ideologizar o pensar racional produtivo, e por incompatibilidade dessas mesmas ideologias com a liberdade das sociais democracias ocidentais, os defensores da planificação estatal, saudosos pregadores da socialização dos meios de produção, aceitando relutantemente a falência de tais modelos derrubados na mesma queda, longe de qualquer capitulação, persistem atolados em suas trincheiras, renovando suas baterias contra o livre mercado, agora defendendo o meio ambiente, posando de Cassandra, assombrando previsões terríveis de derrocada da vida na Terra.

Ou seja, combate-se o Capital, não mais usando bandeiras vermelhas contra a exploração e espoliação da mais valia, mas portando estandartes verdes, contra o agro-negócio, a grande empresa, enquadrando-os na vilania poluidora do meio ambiente.

Mas, se não é tanto assim, poder-se-á imaginar que tal temática, mudando o rótulo, a cor e o pavilhão, tudo se irá inserir no futuro de “O Mundo em Desordem” e no despertar percuciente proposto por Magnoli e Senise Barbosa.

Porque o cerne de sua discussão origina-se no ideal tripartite surgido com a grande Revolução Francesa, em condenação da monarquia e seu autoritarismo. “Liberté, Egalité, Fraternité”, estandarte símbolo da Marselhesa, que restou referendado, como síntese e missão, espécie de escolho ou resumo da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789.

E assim, por reflexão renovada, revejo meu artigo “Fraternidade ou Ordem” de 4 de março de 2009 ali encontrando: “se analisarmos as 795 palavras e os dezessete artigos daquela declaração, veremos que a Liberdade comparece oito vezes, a Igualdade duas e a Fraternidade nenhuma vez. Nota-se, portanto, que o constituinte revolucionário, em meio a discursos verbosos e febris, não fora capaz de explicitar, nos 31 direitos ali listados, o dever ser, ou o como fazer para a fraternidade, saltar do dogma para a realidade”.

Ora, se a Fraternidade se situou no campo da ingenuidade pretendida ou da busca de santidade jamais atingida, ao longo da história recente, segundo Magnoli e Barbosa “‘o partido dos liberais’ se apoderou do princípio da liberdade, traduzindo-o sob forma de direitos individuais, que compreendem os direitos políticos e as liberdades econômicas, enquanto o ‘partido dos socialistas’ apoderou-se do princípio da igualdade, convertendo-o numa plataforma de direitos coletivos econômicos e sociais”.

Nada mais lúcido, discutir passo a passo ao longo desta dicotomia que ensejou o banimento dos excessos, com a vida restando melhor, em maior fruição das benesses da criação do homem, ciente senhor do seu destino, cada vez mais liberto de amarras e preconceitos.

E hoje, o grande desafio é palmilhar esta gaussiana, curva em forma de sino, aferidora da opção mediana e verdadeira, mas medíocre, muitas vezes, que se aplica aqui para o encontro do melhor grau da liberdade e da fraternidade, para que seja possível uma decrescente desigualdade.

O livro de Magnoli e Barbosa, por certo, suscitará muitas críticas, sobretudo daqueles que não concordando com suas teses, irão rejeitá-lo preferindo outras leituras. Mesmo porque, ali também se trata a desorganização brasileira, com os autores discutindo a nossa gente, em descaminhos de golpes, contragolpes, rebeliões, insurreições, tudo sem sangue, mas com bastante grito e passeata.

Neste particular não estariam os autores derrubando mitos, desmistificando heróis, restaurando vilões, realizando uma revisão do culto a personalidade de Getúlio Vargas, Plínio Salgado e o Cavaleiro da Esperança, Luiz Carlos Prestes?

Mas, não será melhor assim, contemplar tais homens segundo sua real estatura?

Assim, o livro do Sociólogo Demétrio Magnoli e da Historiadora Elaine Senise Barbosa merece ser adquirido como texto vigoroso e essencial aos estudiosos de História Antropologia e Política, e curiosos iguais a mim, que em leitura superficial ainda, já o tem como indispensável, e melhor lançamento não ficcional da editoria nacional. A conferir!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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