MUSIQUALIDADE

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R E S E N H A     1

 

Cantora: BARBARA MENDES

CD: “NADA PRA DEPOIS”

Selo: TRILHOS.ARTE

 

Barbara Mendes é nome ainda desconhecido no cenário nacional, embora atualmente esteja lançando já o seu quarto CD solo. Isso de certa forma é justificável porque os discos anteriores voltaram-se quase que exclusivamente para o mercado externo, até porque a cantora residiu, durante a última década, nos Estados Unidos para onde se mudou com o objetivo de estudar canto.

Filha da também cantora Marisa Rossi (ganhadora da primeira “A Grande Chance”, quadro que descobria talentos musicais no lendário programa do apresentador Flávio Cavalcanti), Barbara chegou a se formar em Direito, mas o sangue artístico que lhe corre nas veias fez com que abandonasse rapidamente a idéia de labutar no campo jurídico.

Após acumular experiências ímpares como participar, no Town Hall em Nova York, de Tributo a Elis Regina, ao lado de Nana Caymmi e Bebel Gilberto, e de ter sido a única cantora brasileira escolhida para participar do festival de jazz “Ocean Blue Jazz Festival” no Japão, ao lado de Herbie Hancock, Wayne Shorter, Tito Puente e Milt Jackson, ela foi convidada, em 1999, pelo arranjador e produtor Eumir Deodato para gravar o tema de abertura do filme “Bossa Nova”, dirigido  por Bruno Barreto (a bela canção “Inútil Paisagem”, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira).

Barbara é intérprete segura. Dona de voz forte, possui pronúncia clara e respiração perfeita. Sabe adequá-la às intenções que cada canção exige e seu timbre claro, meio aveludado, passeia com desenvoltura pelas regiões mais agudas sem, contudo, esmaecer-se quando necessário se faz chegar às notas graves. No recém-lançado CD (que, para marcar sua entrada no mercado fonográfico nacional, traz a artista emoldurada pelas cores verde e amarelo na foto da capa), ela se mostra também uma compositora inspirada que – louve-se! – não soa repetitiva. São onze faixas (uma surge como faixa-bônus, a delicada “Maya”, feita em homenagem à filha), das quais ela assina a autoria de sete, ao lado dos parceiros Maurício Oliveira, André Vasconcellos, Alain Mallet e Rodrigo Sha. Nelas, há desde uma nítida influência da velha bossa nova (“Ardendo em Cores”) até canções de pegada mais pesada (“Joana”, uma mistura de Lenine e Ana Carolina), passando pela seara romântica (“Ouro e Marrom”) e pelo rock nordestino (“Segue Sorrindo”, um dos grandes destaques do trabalho).

O álbum, que aporta no mercado através do selo Trilhos.Arte, conta com as participações especiais de Ivan Lins (que presenteou Barbara com a boa inédita “E Isso Acontece”) e de Djavan (na agradável faixa-título, outro destaque do repertório). E a cantora comprova sua versatilidade ao se mostrar à vontade tanto no terreno do samba (“Vem Cá”, de Leonardo Reis e Saulo Fernandes) quanto na regravação da obra-prima “Tatuagem” (de Chico Buarque e Ruy Guerra).

Barbara Mendes é uma cantora que vem com toda a garra e que dentro em breve deverá fazer parte do panteão sagrado da nossa música popular brasileira. Corra e conheça!

 

 

R E S E N H A     2

 

Cantor: SÉRGIO RICARDO

CD: “PONTO DE PARTIDA”

Gravadora: BISCOITO FINO

 

Paulista da cidade de Marília, o compositor Sérgio Ricardo conheceu a música desde muito cedo. Estudou piano na infância e foi com esse instrumento que, ao se mudar para o Rio de Janeiro em 1952, começou a se apresentar em casas noturnas, chegando a substituir Tom Jobim em algumas delas. Embora tenha participado do núcleo inicial de compositores da bossa nova e tenha sido um dos artistas mais visados pela censura na época da ditadura, seu nome caiu efetivamente na boca do povo quando, ao levar uma estrondosa vaia por conta de sua participação no II Festival de Música Popular Brasileira da TV Record com a música “Beto Bom de Bola”, terminou quebrando raivosamente um violão no palco, atirando seus pedaços à platéia.

Afastado há alguns anos do mercado fonográfico, Sérgio acaba de lançar, com o patrocínio da Petrobrás e através da gravadora Biscoito Fino, um novo CD. Intitulado sugestivamente “Ponto de Partida”, o trabalho mostra, através de suas quinze faixas (dessas, somente uma é inédita: o toque de capoeira “Palmares”, parceria com Capinam), a criatividade de um artista que sabe dosar influências diversas. Trata-se de um rico painel que condensa canções de vários estilos, embora tenha se evitado incluir suas criações mais famosas como, por exemplo “Zelão”, “Esse Mundo é Meu” e “Bouquet de Isabel”.

Cercado por músicos jovens mas super talentosos (estão entre eles o bandolinista Hamilton de Holanda, o violinista Nicolas Krassik e o baixista Rodrigo Villa), os quais foram capitaneados por Alain Pierre, responsável pelos inspirados arranjos (assinados ao lado dos irmãos Marcelo Caldi e Alexandre Caldi), Sérgio pôde contar ainda, no recém-lançado trabalho, com as presenças de seus filhos Marina Lutfi, Adriana Lutfi e João Gurgel. As duas primeiras terminam por se mostrar afinadas cantoras, participando ativamente de várias faixas, enquanto que o rapaz comprova seu talento como violonista.

O septuagenário Sérgio conserva em forma sua voz grave de barítono, fazendo dela a base para as canções selecionadas, em geral ótimos sambas que, em suas letras, ressaltam experiências (reais ou não) acumuladas ao longo dos anos. Algumas das canções escolhidas serviram de temas para filmes (como é o caso de “Barravento” e “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, esta uma parceria com o cineasta Glauber Rocha) e peças de teatro (a faixa-título), projetos sempre abraçados com muito carinho pelo artista.

Dentre os bons momentos desse álbum muito bem-vindo estão a suave “Ausência de Você” (tema que transita pelo formato mais tradicional da canção), a milonga “Beira do Cais”, a melancólica “Enquanto a Tristeza Não Vem”, a contagiante “Cacumbu” e a deliciosa “Maria do Tambá”.

Um lançamento que vem resgatar a obra de um compositor inspirado que merece ser (re)descoberto, inclusive pelas novas gerações, tão carentes de música de qualidade.

 

 

N O V I D A D E S

 

·                     O aguardado novo disco de inéditas de João Bosco (que não lança um trabalho desse tipo desde 2002) chegará às lojas neste segundo semestre e marcará o retorno de suas parcerias com o letrista João Bosco, além do início de sua fase criativa ao lado do sambista Nei Lopes. Falando em Bosco, o inspirado compositor irá gravar, em setembro próximo, na Alemanha, um CD ao lado da orquestra de jazz NDR BigBand, o qual deverá ser lançado inicialmente na Europa.

 

·                     O CD “Humanized” junta o DJ paulista Julio Torres e o violinista Amon-Rá, integrante da Família Lima. Mas o mais exótico do álbum é mesmo a participação especial da cantora Sandy que, sob o pseudônimo de Miss S., gravou a faixa “Scandal”, um electro-house de sotaque pop. Os vocais dela foram filtrados por vocoders e soam robóticos, a exemplo de algumas gravações de Madonna.

 

·                     O primeiro DVD de Toni Platão chegará em breve às lojas e terá o repertório baseado no ótimo CD de estúdio “Negro Amor”, lançado pelo cantor em 2006. O registro contará com Zélia Duncan, Dado Villa-Lobos e Fausto Fawcett como convidados.

 

·                     Outro que lançará em breve um DVD novinho em folha (que sairá também em versão CD) é o mineiro Flávio Venturini. Gravado durante shows realizados em sua terra natal, o projeto apresentará parcerias inéditas feitas com a conterrânea Ana Carolina (“Amanheceu em Julho”) e com Ronaldo Bastos (“Mantra da Criação”). As participações especiais de costume ficam por conta de Milton Nascimento (em “Música”), Mart’nália (em “Pierrot”), Marina Machado (em “Noites com Sol”) e Luiza Possi (em “Beija-Flor”).

 

·                     Se vivo estivesse, Cazuza estaria por completar meio século de existência. Para marcar essa data redonda, a Universal Music acaba de pôr no mercado, em parceria com a empresa Globo Marcas, o DVD “Pra Sempre Cazuza” que condensa três números gravados pelo irrequieto artista, em 1985, na Praia do Pepino (RJ), para o programa “Mixto Quente” (as canções “Medieval II”, “Por que a Gente É Assim?” e “Exagerado”) e a íntegra do especial “Uma Prova de Amor”, realizado em 1988 no Teatro Fênix, que teve as participações afetivas de Simone, Gal Costa e Sandra de Sá.

 

·                     O terceiro CD de Frejat (o parceiro mais constante do supracitado Cazuza) recebeu o título definitivo de “Intimidade entre Estranhos” e estará chegando às lojas no próximo mês através da gravadora Warner. Trata-se de um disco recheado de canções inéditas que objetiva sedimentar a carreira solo de um bom compositor até agora mais conhecido por integrar o grupo de rock Barão Vermelho. Deve vir coisa boa por aí…

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor


Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

 

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