MUSIQUALIDADE

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M U S I Q U A L I D A D E

 

 

R E S E N H A     1

 

Cantor: LULU SANTOS

CD: “SINGULAR”

Gravadora: EMI

 

Não poderia mesmo ser diferente: o adolescente que, aos doze anos, tocava num grupo cover dos Beatles e que, ao longo da década de setenta, emprestaria sua guitarra às bandas Albatroz, Veludo Elétrico e Vímana (na qual tocou com o então flautista Ritchie e o baterista Lobão), terminou se transformando num dos nomes mais famosos e cultuados da música pop nacional. Estamos a falar de Lulu Santos, artista que teve canções de sua lavra gravadas por nomes de ponta na nossa MPB, tais como Gal Costa, Zizi Possi, Marisa Monte, Ivete Sangalo e Caetano Veloso, entre vários outros, e frequentador assíduo das paradas de sucesso (é ele o autor de, por exemplo, “Como uma Onda”, “O Último Romântico”, “Toda Forma de Amor”, “Tudo Azul”, “Fogo de Palha” e “Já É!”).

Sua primeira canção a obter considerável aceitação popular foi “Tesouros da Juventude”, uma parceria com o jornalista e produtor Nelson Motta gravada em um compacto do já distante 1981. No ano seguinte, Lulu lançou seu LP de estreia e emplacou, de imediato, a faixa-título (“Tempos Modernos”). De lá para cá, entre discos de maior ou menor aceitação, ele vem se mantendo como um artista inquieto, sempre antenado com as tendências atuais da música mundial. E, embora sua praia seja mesmo o pop, tendo como essência o rock, ele dá vazão, por vezes, a um criador eclético que também compõe com destreza samba, funk, rumba e outras levadas.

No finalzinho do ano passado, chegou ao mercado o 22º disco do artista. Intitulado “Singular”, o trabalho é composto por doze faixas e leva a assinatura do próprio Lulu ao lado do tecladista Hiroshi Mizutani na produção. O álbum é aberto e fechado por duas boas faixas instrumentais (“Spydermonkey” e “Restinga”) e traz regravações para conhecido tema nacional (“Zazueira”, de Jorge Ben Jor, canção que já ganhou registros antológicos por parte de Elis Regina e Wilson Simonal) e internacional (“Black and Gold”, de Jesse Rogg e Samel Falson, gravada anteriormente pelo cantor, compositor e produtor australiano Sam Sparro). No que se refere a temas alheios, ainda sobra espaço para a inclusão de “Atropelada” (de Apoena e Jorge Ailton, este o baixista da banda que acompanha Lulu atualmente), que surge turbinada com grooves espertos. Aliás, esse recém-lançado CD vem recheado de programações eletrônicas, as quais conferem um molho especial ao som do artista.

Como cantor, é fato que Lulu continua em forma, com seu estilo único de cantar. No lado compositor, o novo trabalho comprova que ele mantém a criatividade aflorada, tanto que são as sete faixas restantes, todas elas assinadas unicamente por ele, as responsáveis pelos melhores momentos do disco. Dentre elas está “Baby de Babylon”, que já toca com frequência nas rádios (muito por conta de sua inclusão na trilha sonora da telenovela global “Viver a Vida”, o que não lhe retira o mérito de ser uma esfuziante canção dançante que remete à efervescência da disco music).

Mas há outros destaques, tais como a contagiante “Na Boa”, que tem toda a chance de se transformar em hit, e o bom funk “Perguntas (II)”, tema atualizado do disco “Popsambalanço e Outras Levadas”, lançado em 1989. E se a faixa-título vem com uma pegada meio western, envolvida de forma criativa por letra e música bem encaixadas, “Duplo Mortal” surge emoldurada com linhas características da obra autoral de Lulu. Nada que supere, no entanto, o bolero pop “Fulcio” e o belo samba “Procedimento” que pega o ouvinte desde a primeira audição, ambas realmente grandes músicas.

O CD figura, portanto, entre os melhores títulos da discografia do artista e tem vários ingredientes para ter vida longa. Com fãs conquistados entre diversas faixas etárias, Lulu Santos mostra que soube se adaptar bem ao passar dos anos e que suas canções, sejam as antigas ou as mais novas, servem mesmo para comprovar seu talento criativo atemporal.

 

 

R E S E N H A     2

 

Artistas: VERÔNICA FERRIANI e CHICO SARAIVA

CD: “SOBRE PALAVRAS”
Selo: BORANDÁ

 

A cantora Verônica Ferriani lançou o seu primeiro CD solo no começo do ano passado com caprichada produção assinada por BiD. Bem recebido pela crítica, mostrou uma cantora de grandes virtudes técnicas, dona de um timbre bastante agradável e se fez composto por um repertório legal. Ainda no ano passado, mas quase no apagar das luzes, e por conta de ter sido selecionado para o Projeto Pixinguinha, chegou também ao mercado o álbum “Sobre Palavras”, trabalho dividido entre a artista e o violonista e compositor Chico Saraiva.

Verônica é paulista de Ribeirão Preto e nasceu em família que sempre venerou a música. Aos oito anos, começou a ter aulas de violão, mas somente subiu pela primeira vez num palco em 2003, tendo, a partir de então, se apresentado em diversos locais e dividido o microfone com grandes nomes da música brasileira.

Saraiva, por sua vez, é filho de arquitetos e desde que se iniciou no violão erudito, deparou-se com o que seria uma de suas maiores influências: a obra de Heitor Villa-Lobos. Ao lado dessa admiração pelo clássico, também tocou guitarra em bandas de rock. Em 1992, mudou-se de Florianópolis (SC) para Campinas (SP) para cursar Música Popular na Unicamp. Participou dos Trios Água e Corda Coral e do grupo A Barca, mas seu primeiro álbum solo somente foi lançado em 2000, um trabalho instrumental.

O CD ora em resenha traz doze faixas, todas elas resultantes de parcerias entre Saraiva e o letrista Mauro Aguiar, as quais revelam harmonias de intrincada teia criativa. Não se espere, pois, ouvir canções de fácil assimilação. A aceitação do que é mostrado não se faz imediata. É que não somente as letras, trabalhadas e elegantes, merecem uma audição mais atenciosa para se chegar a um completo entendimento, mas também as melodias terminam por não apresentar construções comuns, o que pode de fato afugentar algum ouvinte mais imediatista. No entanto, não há como deixar de ressaltar que são canções bem construídas, algumas delas com passagens que chegam a lembrar as inspiradas parcerias de Guinga e Aldir Blanc.

Os arranjos amoldam-se aos temas de cada faixa e contam com as participações de grandes músicos da atualidade, a exemplo de Carlos Malta (na flauta), Toninho Ferragutti (na sanfona), Marcelo Cabral (no baixo), Adriana Holtz (no cello), Ari Colares e Pepe Cisneros (na percussão), mas logicamente a base recai mesmo sobre o violão preciso de Saraiva.

Verônica surpreende como intérprete ao se sair ilesa das armadilhas contidas nas complexas construções melódicas, o que denota que se encontra pronta para quaisquer mergulhos. Mostra-se irrepreensível tanto em canções mais delicadas (como “Lua Pós-Lua” e “Canção Extinta”) quanto em outras que exigem maior segurança na divisão rítmica (como “Coco Cabotino” e “Filha de Encanto”).

As participações especiais ficam por conta de Chico César, apropriado em “Sanfona Safenada”, e Marcelo Pretto, à vontade em “Errática”. Já alguns dos melhores momentos ficam por conta do bolero “Revés” e dos sambas “De Salto Agulha” e “Metralhadora Giratória”.

“Sobre Palavras” é, na realidade, um CD coletivo que reúne uma cantora de personalidade, um compositor rico em ideias e um letrista amigo das palavras. Refinado e repleto de intenções, é disco que merece ser descoberto aos poucos, mas indubitavelmente vem ratificar o talento desses três grandes artistas.

 

 

N O V I D A D E S

 

·                     De maneira independente, chegou recentemente às lojas o CD de estreia de Clarice Magalhães, o qual leva o nome da cantora no título. É um disco de MPB de primeira qualidade, mas cuja predominância no repertório de doze faixas recai sobre o samba, embora traga também afoxé, valsa e ciranda. Produzido por Tuninho Galante, mostra uma cantora pronta, de alcance vocal considerável e dona de timbre belo e límpido que, por vezes, lembra Gal Costa nos áureos tempos. A emissão perfeita faz com que a artista interprete com igual talento tanto temas mais simples quanto alguns mais sofisticados. Alguns dos melhores momentos ficam por conta das faixas “Juros de Mora” (de Evandro Lima e Sérgio Fonseca), “Na Areia” (de Edu Krieger), “Ouvido de Mercador” (de Alfredo Del-Penho) e “Meu Saravá” (do já citado Galante em parceria com Marceu Vieira). 

 

·                     A cantora Patrícia Camin estreia no mercado fonográfico com CD produzido por Luiz Schiavon e Eudes Freitas. Trata-se de uma intérprete de voz segura com potência acima da média, mas que infelizmente a pôs a serviço de covers. Dentre as onze faixas selecionadas, há a predominância por canções já bastante conhecidas, tais como “Revelação”, “Esquece e Vem” e “Pedacinhos” que surgem com arranjos voltados para as pistas, embora seja justo reconhecer que a maioria deles não descaracteriza as músicas em seus nascedouros. Dentre erros e acertos, os melhores momentos ficam com as faixas “Viajante” e “Olhos nos Olhos”.

 

·                     Roberta Sá já realiza, no Rio de Janeiro, alguns shows (acompanhada do Trio Madeira Brasil) com o intuito de testar as canções que comporão o repertório de seu próximo CD, o qual deverá se intitular “Chita Fina” e recairá sobre a obra autoral de Roque Ferreira, compositor baiano especialista em chulas e sambas-de-roda. Se tudo sair dentro do previsto, ela entrará em estúdio logo após o Carnaval.

 

·                     Embora gravado desde 2007, o primeiro CD da banda carioca Manacá somente chegou às lojas nos últimos meses do ano passado através da gravadora EMI. Formado por Luiz César Pintoni (guitarra), Bruno Baiano (bateria), Daniel Wally (baixo) e Leticia Persiles (percussão e vocais), o álbum leva a assinatura de Mario Caldato na produção e é composto por uma dúzia de faixas, onze delas de autoria dos próprios componentes da banda (a única exceção é a bela e vigorosa releitura de “Canto de Ossanha”, conhecida parceria de Baden Powell e Vinicius de Moraes). A vocalista Leticia, para quem assistiu à minissérie “Capitu”, levada ao ar pela Rede Globo, é também atriz, tendo representado a personagem-título. Intérprete de voz possante e bem colocada e dona de timbre bonito e elegante, ela capitaneia com segurança o trabalho pop regionalista que se baseia na fusão do rock com sons e elementos do folclore e da cultura brasileira, principalmente a nordestina. É nessa seara que a galera se sai melhor (adicionando, em alguns momentos, instrumentos típicos como o acordeão e a rabeca), fazendo com que o disco cresça e mostre seus melhores momentos, como é o caso, por exemplo, das faixas “A Flor do Manacá” e “O Galo Cantou”. As letras são inspiradas e diretas (caso de “Diabo” e “Lamento”, outros dois destaques). Já os arranjos soam pesados e os riffs de guitarra em excesso terminam meio que homogeneizando desnecessariamente o resultado. No entanto, o saldo é bem positivo e a banda já demonstra que tem fôlego para uma vida longa. Quem viver, ouvirá!

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor

Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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