Musiqualidade

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R E S E N H A

 

Cantor: GILBERTO GIL

CD: “FÉ NA FESTA”

Gravadora: UNIVERSAL

 

Gilberto Gil é, sem sombra de dúvida, um dos maiores nomes de todos os tempos da nossa música popular brasileira. Surgiu nos anos sessenta junto com o movimento denominado Tropicalismo, ao lado dos conterrâneos baianos Caetano Veloso, Gal Costa e Tom Zé, e de lá para cá lançou diversos discos dos quais se extraem canções de nível inquestionável, várias delas tendo se tornado grandes sucessos, entranhando-se no inconsciente coletivo nacional.

Gil é um exímio músico e mesmo tendo tido o acordeão como o seu primeiro instrumento, tornou-se mesmo um ás portando o violão. Compositor que transita com facilidade e maestria por ritmos que vão do samba ao rock, passando pelo funk, pelo blues e pelo reggae, ele acaba de lançar, através da gravadora Universal, o CD intitulado “Fé na Festa”, totalmente voltado aos ritmos nordestinos, através do qual reafirma sua devoção às festas brasileiras, apresentando xotes, xaxados, toadas e baiões da melhor qualidade. E é claro que a proximidade dos festejos juninos irá alavancar a execução das novas canções bem como a venda do produto. Como também se faz nítida a boa estratégia de marketing de lançar o disco nessa época em que as fogueiras começam a aparecer nas portas das casas e as quadrilhas esquentam todo tipo de arraial. Mas ainda bem que, em meio a tantos artistas e bandas que descaracterizam o verdadeiro e autêntico forró, surge um trabalho como o de Gil, que tenta recolocar na ordem do dia a nossa cultura com sua força e beleza ímpares.

O artista já tinha feito, há dez anos atrás, uma experiência muito bem recebida nessa seara quando, ancorado no lançamento de prestigiado filme protagonizado pela amiga Regina Casé, lançou o disco “As Canções de Eu Tu Eles” e transformou a faixa “Esperando na Janela” em uma das mais executadas de 2000. Mas o trabalho recém-lançado vem revestido por um aspecto diferente, vez que a maioria das treze canções que compõem o repertório são, agora, inéditas.

O próprio Gil assina dez delas. Destas, apenas a gostosa “Norte da Saudade” (parceria dele com Perinho Santana e Moacyr Albuquerque) veio resgatada de um disco antigo seu (“Refavela”, de 1977). As outras aparecem fresquinhas e mostram como o lado compositor se encontra intocável. E ainda que se reconheça que as duas novas parcerias feitas com Nando Cordel e Vanessa da Mata (“São João Carioca” e “Lá Vem Ela”, respectivamente) sejam canções palatáveis, os melhores momentos ficam mesmo com as músicas que ele criou sozinho. Exemplo disso é “O Livre-Atirador e a Pegadora”, canção que já toca em várias rádios, de construção melódica primorosa e letra super antenada com o atual momento de pluralidade sexual. Outros temas que merecem ser destacados são “Assim, Sim” (de cadência contagiante), “Vinte e Seis” (em que ele brinca com a data de seu aniversário) e “Não Tenho Medo da Vida” (que traz a lume, ainda que superficialmente, questões existenciais e faz conexão direta com a canção “Não Tenho Medo da Morte”, uma das faixas de seu CD anterior, o confuso “Banda Larga Cordel”).

Em três outros instantes, Gil se abre para obras alheias. É assim que ele resgata as pouco conhecidas “Dança da Moda” (de Luiz Gonzaga e Zé Dantas) e “Aprendi com o Rei” (de João Silva) e abre novo espaço para o trabalho de Targino Gondim com “Maria Minha” (parceria com Eliezer Setton).

Chegando de mansinho, Gilberto Gil realizou um dos melhores trabalhos de sua extensa discografia. Mesmo que sua voz, ainda rouca, não roce o brilho de outrora, a nova safra de canções permitiu que ele construísse um CD muito bem-vindo que certamente já garantiu o seu espaço entre os melhores lançamentos deste ano. É para ouvir com fé e se esbaldar na festa!

 

 

N O V I D A D E S

 

· A cantora e compositora Mona Gadelha põe nas lojas o seu quarto CD. Intitulado “Salve a Beleza” e produzido pelo violonista Alexandre Fontanetti, o trabalho soa bem legal, embora a mixagem tenha optado por uma sonoridade seca. São onze faixas dentre as quais se encontram as seis assinadas pela própria artista (metade delas composta sozinha, o restante com os parceiros Moisés Santana, Paulo Bira e o já citado Fontanetti). Os melhores momentos ficam por conta das faixas “Desolado Samba”, “Estrela Morta” (de Fernando Chuí) e “Ou Nada” (de Clima e Rômulo Fróes, que conta com a intervenção vocal deste último).

 

· Chegará às lojas no comecinho do próximo mês o novo CD do cantor paulista Carlos Navas, uma das vozes masculinas mais bonitas atualmente em ação na nossa Terra Brazilis. “Tecido” é o nome do aguardado disco que trará, entre outras canções, “Contramão” (de Fred Martins e Marcelo Diniz), “Onde o Vento Se Inventou” (de Paulo Padilha) e “Deus Conserve Pra Sempre Meu Bom Senso Temperado a Pitadas de Loucura” (de Edu Krieger). O artista resgatou ainda com bastante propriedade o hit “Vôo de Coração” (de Ritchie e Bernardo Vilhena). Há as participações especiais da cantora Lady Zu em “Isso Não Vai Ficar Assim” (de Itamar Assumpção) e da atriz Clarice Abujamra, declamando fragmento do texto de sua autoria (“Na Artéria”), incluído na faixa-título (de Clarisse Grova e Léo Saramago).

 

· Eclético, além do CD de rock que tenciona pôr no mercado até o final deste ano (e que já se encontra devidamente gravado com a participação do grupo Mar Revolto), Carlinhos Brown já anuncia o interesse em fazer um disco de música sertaneja. Para tanto, já está começando a compor alguns temas, os quais deverão evocar os genuínos sons do sertão.

 

· Já se encontra em fase de masterização o novo CD da cantora e compositora carioca Monique Kessous que chegará em breve ao mercado através da gravadora Sony Music e trará a assinatura de Rodrigo Vidal na produção.

 

· Leny Andrade, cantora que dispensa maiores comentários, acaba de lançar, através da gravadora Fina Flor, o CD intitulado “Alma Mía”, composto por quatorze faixas e produzido pelo pianista Fernando Melino. São bons boleros cantados por quem entende do riscado, vez que a artista morou, entre 1966 e 1971, no México. Ainda com voz vigorosa, Leny mostra rara categoria (mesmo economizando nos habituais improvisos, uma característica inata quando mergulha no universo do samba-jazz) ao interpretar canções passionais que, em outras mãos, poderiam descambar para um excesso sentimentaloide. Com arranjos urdidos de sopros e cordas, o disco alcança os seus melhores momentos em “Vete de Mi” (de Virgílio Expósito e Homero Expósito), “Nosotros” (de Pedro Junco), “Una Mañana” (de Clare Fischer, em versão temperada com leve molho cubano) e “El Día Que Me Quieras” (de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, originalmente um conhecidíssimo tango).

 

· A entrevista que Ney Matogrosso deu em 1990 ao programa “Ensaio”, entremeada por números musicais, chega ao formato DVD através da gravadora Biscoito Fino. As treze canções apresentadas contam com o auxílio luxuoso de Raphael Rabello no violão e de Don Chacal na percussão. E por falar em Ney, ele irá gravar em breve o show “Beijo Bandido” para edição em vídeo que será lançado até o final deste ano.

 

· O encontro do sanfoneiro paraibano Sivuca com o gaitista belga Toots Thielemans e a cantora sueca Sylvia Vrethammar no Chiko”s Bar, Rio de Janeiro, foi registrado, em 1985, pelo produtor Rune Ofwerman para uma emissora de TV da Suécia. Essa reunião chega ao formato DVD (intitulado “Encontro no Rio”) através da gravadora Biscoito Fino e contempla nove temas, entre eles: “Vai Passar” (de Francis Hime e Chico Buarque) e “Começar de Novo” (de Ivan Lins e Vítor Martins).

 

· Através da gravadora Som Livre, está chegando às lojas o CD oficial com a trilha sonora nacional da telenovela global “Passione”. Entre os artistas selecionados o ouvinte encontrará nomes consagrados como Djavan (“Sabes Mentir”), Ivan Lins (“A Gente Merece Ser Feliz”), o grupo Demônios da Garoa (“Samba Italiano”), Lenine (“Aquilo que Dá no Coração”, o tema de abertura) e Ângela Maria com Cauby Peixoto (“Contigo Aprendi”) ao lado de talentos emergentes ainda pouco conhecidos, a exemplo de Thaís Gulin (“Paixão e Passione”), Rita de Cássia (“Cama Vazia”) e Greice Ive (“Até Você Passar”). Adriana Calcanhotto comparece como ela própria (“Canção de Novela”) e como seu heterônimo Partimpim (“Gatinha Manhosa”). Também integram o time os cultuados Otto (“Crua”), Roberta Sá (“Fogo e Gasolina”) e a banda Pedro Luís e a Parede (“Animal”).

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor

Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br   

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