Musiqualidade

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M U S I Q U A L I D A D E

 

 

R E S E N H A

 

Cantora: VÂNIA BASTOS

CD: “NA BOCA DO LOBO”

Gravadora: LUA MUSIC

 

Voz vestida de luz. É assim que o cultuado Arrigo Barnabé define a voz de Vânia Bastos na apresentação do novo CD da cantora. Bastante apropriada, a definição resume a beleza de um timbre cristalino único que passeia com maestria pelas melodias por vezes complexas que compõem o repertório de “Na Boca do Lobo”, o disco que aportou recentemente nas lojas e no qual ela mergulha no repertório autoral de Edu Lobo.

Paulista de Ourinhos, Vânia mudou-se para a capital paulista em meados da década de setenta, estreando como cantora ao lado do citado Arrigo na cena vanguardista da época como vocalista da banda Sabor de Veneno e, em seguida, participando do aclamado álbum “Clara Crocodilo”. Foi necessário que se passassem sete anos para que ela viesse a gravar o primeiro disco individual, mas de lá para cá, vem lançando bons trabalhos, dentre os quais alguns temáticos que foram dedicados às obras de Caetano Veloso, Tom Jobim e ao cancioneiro do Clube da Esquina mineiro.

O recém-lançado CD chega às lojas através da gravadora Lua Music e leva as assinaturas de Thiago Marques Luiz e do exímio violonista Ronaldo Rayol na produção e na direção musical, respectivamente. Composto por uma dúzia de faixas, tem como objetivo apresentar um painel das canções criadas por Edu Lobo, um dos melhores compositores da história da nossa MPB. Delas, apenas três são assinadas por ele sozinho; nas demais podem-se ver, nos créditos, nomes como o do teatrólogo Gianfrancesco Guarnieri e os dos poetas Cacaso, Capinam, Paulo César Pinheiro e Vinícius de Moraes, além de Chico Buarque e Joyce.

Com uma bonita sonoridade, o disco se abre com a instrumental “Casa Forte”, na qual Vânia, em excelente forma vocal e ratificando suas qualidades naturais de excelente intérprete, presenteia os ouvintes com precioso vocalise. Com afinação irrepreensível, ela soa com precisão e adequação ímpares, fazendo antever os belos momentos que vêm logo em seguida. É o caso, por exemplo, de “No Cordão da Saideira” que pisa no terreno do frevo, um dos ritmos que Edu (que não é nordestino, embora seja filho do pernambucano Fernando Lobo, também um grande compositor) conhece como poucos. Com um arranjo inspirado, a faixa se impõe como um dos grandes momentos do álbum, muito por fugir da óbvia utilização de naipe de metais.

Um dos méritos do CD é que ele alia canções das mais conhecidas de Edu (a exemplo de “Upa Neguinho”, imortalizada na voz de Elis Regina, mas que Vânia consegue resgatar, imprimindo-lhe insuspeitas tintas novas, e de “Viola Fora de Moda”, um daqueles temas atemporais que beira a genialidade) com algumas músicas menos conhecidas, mas nem por isso de importância menor. Esse é o caso de “Glória”, que segue a cartilha sacra, inclusive com letra em latim (cuja gravação conta com um vocal de peso formado por Carlos Navas, Passoca e Markinhos Moura), e de “Meia Noite”, obscuro tema pinçado do musical “O Corsário do Rei”. De uma trilha feita para o espetáculo de ballet “O Grande Circo Místico” Vânia selecionou a faixa “O Circo Místico”, cuja melodia de tessitura extremamente delicada lhe caiu super bem, ainda mais com a moldura camerística proporcionada pelo piano de Keco Brandão. Outros momentos de rara sensibilidade ficam por conta do romantismo de “Canção do Amanhecer” e do clima jazzy de “Tempo Presente”. O homenageado se faz presente, como convidado mais que especial, na deliciosa “Gingado Dobrado”, de nítida influência nordestina que surge pontuada pela flauta de Ubaldo Versolato. Completam o set list a bonita “Negro, Negro” e a contundente “Vento Bravo”.

Enfim, trata-se de um trabalho feito com constatável carinho e que termina por refletir um resultado mais que satisfatório. Com sua voz iluminada, Vânia Bastos construiu um CD que, desde já, se transforma em um dos pontos altos de sua discografia e em um dos melhores deste ano. Corra e ouça!

 

 

N O V I D A D E S

 

· Mesmo ainda não tendo chegado à telona dos cinemas (a estreia nacional será nesta sexta-feira, dia 23), o filme “O Bem Amado” (dirigido por Guel Arraes e inspirado na obra de Dias Gomes) já começa a ter os seus produtos correlatos jogados no mercado. O primeiro deles é o CD contendo a trilha sonora original da película, cuja responsabilidade ficou a cargo de Caetano Veloso, Berna Ceppas e Mauro Lima. O maior destaque é mesmo a inédita “A Vida é Ruim”, tema de Caetano que Zélia Duncan interpreta de forma irrepreensível. O baiano também musicou versos de “Esta Terra”, poema da lavra do sociólogo e poeta pernambucano José Almino, remetendo-se, no refrão, à melodia de “Alegria, Alegria”. Entre algumas boas canções temáticas (mas que certamente só resistirão ao filme), há as regravações de “Carcará” (de João do Vale e José Cândido) por Zé Ramalho e de “Nossa Canção” (de Luiz Ayrão) na voz infantil de Mallu Magalhães. Jorge Mautner é outro nome presente com a autoral “A Bandeira do Meu Partido”.

 

· Com a plateia lotada (fato a ser registrado com alegria por conta de se tratar de um trabalho instrumental), o Ferraro Trio (formado por Saulo Ferreira na guitarra, Robson Souza no baixo e Rafael na bateria) lançou oficialmente na sexta-feira passada, no Teatro Lourival Baptista, o primeiro DVD da carreira. Repleta de convidados especiais, a apresentação realizou-se de maneira irretocável, desde a produção até a execução do primoroso repertório. Palmas para a galera!

 

· Guitarrista dos melhores da atualidade (acompanha, há algum tempo, Nando Reis na banda Os Infernais), Carlos Pontual lança o CD independente “Inventa Qualquer Coisa”, contendo uma dúzia de faixas autorais e produzido por ele próprio. Cantor mediano, o artista se mostra um compositor com chances radiofônicas, a julgar pelo interessante surf rock que dá título ao álbum. Entre baladas (“Mesmo que Seja Ilusão” e “Janelas Sincronizadas”), ele abre espaço também para o rock (“Veneno de Cobra”) e para o country (“Mensagens Subliminares”).

 

· “Harmonia” é o título do novo CD de Lô Borges. Com um repertório prioritariamente formado por canções inéditas, destacam-se, nos arranjos, as cordas muito bem executadas e equilibradas. Os melhores momentos ficam por conta de “Tudo de Novo”, “Cordão de Ouro” e “Caminho, Chegado”.

 

· A cantora Heloisa Helena lança “Alma Carioca”, o seu segundo CD, que chega ao mercado de maneira independente. Intérprete correta, de voz grave e encorpada, a artista conta com as participações especiais de Luiz Melodia, Roberto Menescal e Angelo Angolano. O repertório, que prioriza o samba, traz entre os melhores momentos as faixas “Lorena”, “E Agora Vem”, “Mistérios e Segredos” e ”Anos Ausentes”.

 

· No final deste mês, Maria Gadu, a cantora sensação do momento, vai realizar show no Credicard Hall, em São Paulo, o qual servirá de base para CD e DVD ao vivo que chegarão às lojas ainda este ano. A artista incluirá no roteiro algumas canções inéditas em sua voz e receberá convidados especiais.

 

· É da cantora curitibana Thaís Gulin a voz que se ouve na telenovela global “Passione” quando aparece o casal Gerson e Diana. A canção (“Paixão Passione”, de Ivan Lins) tem espaço garantido no segundo CD da artista que chegará ao mercado no comecinho de setembro. Quem viver, ouvirá!

 

· A gravadora Biscoito Fino repõe em catálogo, em dois CD’s vendidos separadamente, “Toquinho, Seu Violão e Suas Canções”. Trata-se de um projeto no qual o mais famoso parceiro de Vinicius de Moraes revisita trinta de suas mais conhecidas músicas acompanhando-se apenas de seu virtuoso violão. Constam do primoroso repertório, entre outras, “Que Maravilha”, “Escravo da Alegria”, “Na Boca da Noite”, “Aquarela” e “O Caderno”.

 

· O pesquisador Rodrigo Faour, que apresenta o programa “Sexo MPB” na rádio MPB FM carioca e também uma série no Canal Brasil, acaba de lançar um CD duplo homônimo. No primeiro volume foram compiladas algumas das mais sensuais canções do nosso cancioneiro nacional, a exemplo de “O Meu Amor” (com Maria Bethânia e Alcione), “Medo de Amar nº 2” (com Simone) e “Avassaladora” (com Gonzaguinha). Já no segundo volume foram reunidas várias músicas safadinhas (aquelas conhecidas como de duplo sentido) como “É mais Embaixo” (com Maria Alcina), “A Perereca da Vizinha” (com Dercy Gonçalves), “Radinho de Pilha” (com Genival Lacerda) e “Só Gosto de Tudo Grande” (com Marinês). Legal!

 

· Será de Rildo Hora a produção do novo CD que a cantora Beth Carvalho (ainda em repouso devido ao problema na coluna sofrido em dezembro do ano passado) tenciona gravar em breve e para o qual já tem selecionado o repertório, o qual priorizará canções inéditas.

 

·  Quem se guiar somente pelas três primeiras faixas do primeiro bom CD da cantora Marya Bravo terá a errônea impressão de que se trata de um disco de rock. “Água Demais Por Ti”, no entanto, vai muito além disso. Trata-se de um trabalho muito bem concebido que mostra uma cantora de técnica acima da média e que também canta com muita emoção, resultado de seu talento de atriz. São onze faixas das quais seis delas são assinadas pela própria artista (que é filha de Zé Rodrix), metade em parceria. Da seara autoral destacam-se “Se Deixa”, “Nós” e a faixa-título. Dentre as restantes, merecem ser ressaltadas as três ótimas regravações: “Pra Você Gostar de Mim” (de Vital Farias, conhecida na voz de Rita Ribeiro), “Fala” (de Luhli e João Ricardo, um dos maiores sucessos do grupo Secos & Molhados) e “Imitação da Vida” (pérola de Batatinha gravada anteriormente por Maria Bethânia). Vale super a pena conhecer!

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor

Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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