Musiqualidade

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M U S I Q U A L I D A D E

 

 

R E S E N H A

 

Cantor: CARLINHOS BROWN

CD’s: “DIMINUTO” e “ADOBRÓ”

Gravadora: SONY MUSIC

 

O baiano Carlinhos Brown começou na música como percussionista. Foi quando integrava a banda do conterrâneo Caetano Veloso que viu explodir no país inteiro o seu primeiro grande sucesso: a canção “Meia Lua Inteira”, gravada pelo irmão mais famoso de Maria Bethânia no álbum “Estrangeiro”, de 1989, a qual se tornou um dos principais temas da trilha sonora da telenovela global “Tieta”. Necessário foi que se passassem sete anos para que o primeiro CD de Brown aportasse no mercado. Quando isso aconteceu, veio acompanhado de grande estardalhaço pela mídia. O disco (“Alfagamabetizado”) ganhou participações ilustres de Caetano, Maria Bethânia, Gal Costa, Gilberto Gil e Marisa Monte e chegou a emplacar dois hits (“A Namorada” e “Seo Zé”), mas a verdade é que o resultado de vendas ficou aquém do esperado. Seguiram-se mais alguns discos e algumas músicas sendo cantaroladas de norte a sul do Brasil com registros nas vozes de, entre outros, Daniela Mercury, Margareth Menezes e do grupo Timbalada, até que se deu o encontro com a já citada Marisa e o ex-titã Arnaldo Antunes, em 2002, no etéreo movimento “Tribalismo” que se transformou em um divisor de águas na carreira de Brown, não apenas porque o credenciou junto a um público mais exigente, mas também porque mostrou que, quando cria canções musicalmente palatáveis sem resvalar para o exotismo exagerado, ele consegue atingir momentos de inspirada realização.

Chegaram recentemente e de forma concomitante às lojas, através da gravadora Sony Music, os dois novos CD’s de Brown, os quais se fizeram possíveis de concretizar por conta do incentivo cultural da Natura Musical (o que, aliás, merece todos os aplausos). São trabalhos eminentemente autorais (Brown tem como hábito compor compulsivamente) em que o artista se abre, em vários momentos, a parcerias. Produzidos por ele próprio, os álbuns possuem conceitos nítidos e totalmente díspares. Enquanto “Diminuto” se concentra em canções delicadas e melódicas, urdidas com sons orgânicos e recheadas de violões e cordas em seus arranjos, “Adobró” traz a miscelânea sonora característica de Brown, com todos os baticuns afro-baianos e programações modernosas a que julga ter direito. Estilisticamente falando, ambos são bem delineados, mas uma audição mais atenta deixa claro que “Diminuto” terá indubitavelmente vida muito mais duradoura. Algumas das canções nele incluídas têm, inclusive, grande chance de virem a ser regravadas por outros nomes da nossa música, o que lhes garantirá novas luzes. Não que Brown esteja fazendo feio nos vocais. Pelo contrário, aqui se merece ressaltar que, se no começo da carreira ele deixava a desejar no quesito cantor, agora já se denotam grandes avanços nessa seara. Impossível não se constatar a beleza de seu canto quando se mostra inteiro, por exemplo, em “Romântico Ambiente”, um dos melhores momentos de “Diminuto”. Outros destaques ficam por conta dos belos sambas “Centro da Saudade” (parceria com Pedro Baby e Davi Moraes) e “Você Merece Samba”, além do contundente xote “Veleiros Negros” (que traz referências celtas e mouras). Ainda que haja faixas menos inspiradas (caso de “Tara – Solvendo as Falas” e “Lady My Moon”, esta uma parceria com Don Pi), o resultado geral soa acima da média. As passagens por ambiências nordestinas soam bem pertinentes (em “Pestaneja” e na toada “Vi, Voou”, composta com Arnaldo Antunes) e as participações especiais do sogrão Chico Buarque (declamando o poema “Suor Caseiro” durante a abolerada “Mãos Denhas”) e dos Paralamas do Sucesso (no instrumental do reggae “Verdade, uma Ilusão”, dos Tribalistas) dão um brilho todo especial ao álbum.

Já “Adobró” vem com o que Brown já se acostumou a (bem) fazer, embora mostre que ele está a se abrir para novas perspectivas, sem se esquecer da miscelânea percussiva que mistura a raiz e a modernidade, dualidade em que sempre acreditou. “Tantinho”, a primeira música de trabalho desse disco, é realmente deliciosa. E há, ainda, outros ótimos momentos, como é o caso de “Odô Amin” (saudação a mestres dos ritmos baianos), “Desde” (interessante balada pop), “Terra Viva” (que bebe nas raízes orientais da música nordestina) e “Tastatá” (de apelo dançante, ancorada em beats eletrônicos). Confira os dois CD’s e escolha o seu preferido!

 

 

N O V I D A D E S

 

· “Caixa Preta” é o box lançado recentemente pelo selo Sesc que embala a obra de Itamar Assumpção, um dos grandes compositores brasileiros de todos os tempos. São doze preciosos CD’s que mostram o talento incomensurável do artista, dentre os quais dois inéditos: “Preto Brás II – Maldito Vírgula” (produzido por Beto Villares e com as participações de Arnaldo Antunes, B Negão e Elza Soares, esta em interpretação de arrepiar) e “Preto Brás III – Devia Ser Proibido” (produzido

por Paulo Lepetit e com as participações de Arrigo Barnabé, Zélia Duncan e Ney Matogrosso). Definitivamente imperdível!

 

· Já se encontra disponível o DVD “Dois É Show” no qual Adriana Calcanhotto se traveste em Partimpim e mergulha no lúdico universo infantil. Foi filmado em maio de 2010, no Rio de Janeiro (RJ), com direção da cineasta Susana Moraes.

 

· A cantora e violonista Ana Clara Horta põe nas lojas, através da gravadora Biscoito Fino, o seu ótimo CD de estreia. Intitulado “Órbita” e produzido por Mário Moura, o trabalho é composto por onze faixas autorais (em sete delas, a artista se abre a parcerias). Boa intérprete, dona de voz suave e bem colocada, sua verve de compositora lembra, por vezes, a obra de Vanessa da Mata, passeando ora por passagens mais simples, ora por pegadas mais pop. Entre os melhores momentos do repertório estão as faixas “Pé Atrás”, “Concha do Mar”, “Melodrama” e “Bailarina”, esta contando com a participação especial de Pedro Luís nos vocais.

 

· De maneira independente, Pedro Holanda põe nas lojas o seu CD de estreia no mercado fonográfico e que se intitula “Demorô!”. Cantor, compositor e violonista, ele assina todas as treze canções de um repertório que prioriza o samba. Entre as faixas que se destacam nesse álbum por ele próprio produzido estão “Na Lapa”, “Oração”, “Tempestade e Calmaria” e “Minha Noite É de Manhã”.

 

· “Um Tributo Brasileiro a Michael Jackson” é o título do lançamento do selo Discobertas que reúne nomes emergentes da cena indie nacional ligados ao pop rock (a exemplo de Jorge Ailton, Rodrigo Santos, Filhos da Judith, Amplexos e Eletro, entre outros), dando suas versões para sucessos como “Bad”, “Black or White”, “Ben”, “The Girl Is Mine” e “Off the Wall”. Boa pedida para quem deseja lembrar o mito que se foi precocemente…

 

· “Rio Sonata” é o título do excelente documentário dirigido por Georges Gachot sobre a carreira da cantora Nana Caymmi. Entrelaçando imagens do Rio de Janeiro com takes de arquivo, músicas e uma entrevista com a homenageada, o vídeo traz, entre os melhores momentos, depoimentos de, entre outros, Gilberto Gil (que já foi casado com Nana), Milton Nascimento e Erasmo Carlos.

 

· A banda Seu Chico lança, de maneira independente, o CD “Tem Mais Samba”, recheado de pérolas criadas por Chico Buarque. Gravado ao vivo durante apresentação realizada em março deste ano no Estrela da Lapa, no Rio de Janeiro, o álbum traz arranjos que de fato parecem contagiar a galera presente. Entre os destaques estão as faixas “Jorge Maravilha”, “Não Existe Pecado ao Sul do Equador” e o medley que apropriadamente reúne “Caçada’ e “Não Sonho Mais”.

 

· Alçada ao posto de “a cantora do momento” (muito pela enorme estratégia de marketing armada pela gravadora Som Livre desde o seu lançamento), Maria Gadú faz chegar às lojas o seu segundo trabalho, na realidade basicamente um remake do seu disco de estreia, só que desta vez gravado ao vivo durante apresentação realizada em julho deste ano no Credicard Hall, em São Paulo. É realmente surpreendente como o público canta as músicas da artista do começo ao fim, o que comprova que a mesma possui inegável carisma. Dona de voz bonita e boa compositora, ela traz como novidades, no set list apresentado, releituras para hits de autoria de Herbert Vianna, Renato Russo, Adoniran Barbosa e Noel Rosa (respectivamente “Lanterna dos Afogados”, “Quase Sem Querer”, “Trem das Onze” e “Filosofia”, as duas primeiras também presentes no repertório de Cássia Eller). Um dos pontos altos desse novo projeto, também disponível no formato DVD, é a irrepreensível interpretação de Gadú para “Who Knew”, conhecido sucesso lançado pela cantora Pink.

 

· Já se encontra disponível, nos formatos CD e DVD, o registro do show realizado em maio de 2009, no Teatro Fecap, em São Paulo, no qual Edgard Scandurra celebrou seus vinte anos de carreira. O repertório contempla canções gravadas pelo Ira! e também temas inéditos. Há as participações especiais de Zélia Duncan, Guilherme Arantes e Fernanda Takai.

 

· Retornam em boa hora ao catálogo, através da gravadora Warner, três grandes títulos da discografia do violonista e compositor Baden Powell, todos produzidos por Sérgio Cabral. Trata-se de “O Grande Show Gravado ao Vivo” (1979), “Nosso Baden” (1980) e “De Baden para Vinicius” (1981), este uma das primeiras homenagens póstumas prestadas ao Poetinha, o qual passou para o andar de cima em julho de 1980. Muito legal!

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor

Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br  

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