Musiqualidade

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R E S E N H A

Cantora: ZÉLIA DUNCAN
CD: “PELO SABOR DO GESTO – EM CENA”
Gravadora: BISCOITO FINO

Mesmo tendo começado a cantar profissionalmente ainda no início dos anos oitenta, Zélia Duncan somente foi lançar seu primeiro disco (“Outra Luz”) em 1990, quando ainda adotava o nome artístico de Zélia Cristina. Como esse trabalho de estreia, naquela oportunidade, não aconteceu, ela resolveu “dar um tempo” e o fez nos Emirados Árabes, onde passou um semestre inteiro cantando em um hotel.
Quatro anos mais tarde, já contratada pela gravadora Warner, ela lançou o álbum “Zélia Duncan”, o qual, de imediato, tornou-a conhecida de norte a sul do Brasil devido à explosão de “Catedral” (versão do sucesso da cantora alemã Tanita Tikaram). Já ali se estabelecia uma feliz parceria entre ela e Christiaan Oyens e outras faixas assinadas pelos dois também chegaram a emplacar, como “Não Vá Ainda”, “Sentidos”, “Nos Lençóis desse Reggae” e “Tempestade”.

Os dois discos seguintes (“Intimidade”, de 1996, e “Acesso”, de 1998) serviram-lhe para consolidar a carreira e outras músicas também caíram no gosto do público, a exemplo de “Enquanto Durmo”, “Verbos Sujeitos” e “Imorais”.
Com a virada de século, Zélia mudou de gravadora (passou a integrar o cast da Universal) e parece ter sentido a necessidade de se abrir a novas possibilidades, o que de fato começou a se efetivar com o álbum “Sortimento”. Ali, a colaboração de Christiaan se resumiu a apenas uma faixa (“Me Revelar”), dando espaço a novos colaboradores, como Rodrigo Maranhão, Fred Martins e Rita Lee. E o que se mostrava um esboço de mergulho em criações alheias, concretizou-se por completo em 2004 com o lançamento do elogiado “Eu Me Transformo em Outras”, disco que inseriu o nome de Zélia no rol das grandes intérpretes da nossa música popular ao trazer releituras marcantes para músicas de Tom Jobim, Itamar Assumpção, Herivelto Martins, Dorival Caymmi e Jacob do Bandolim, entre outros.  Em seguida, vieram “Pré Pós Tudo Bossa Band” (de 2005) e “Pelo Sabor do Gesto” (de 2009), cujo registro do show homônimo realizado no Teatro Municipal de Niterói, em março do ano em curso, deu origem ao CD “Pelo Sabor do Gesto – Em Cena”, o qual acaba de chegar ao mercado através da gravadora Biscoito Fino.

Zélia continua mandando muito bem. É uma artista que incontestavelmente vem crescendo com o passar dos anos. No palco, ela se agiganta, conseguindo dominar a plateia como poucos. Sua voz grave e bela encontra-se em plena forma. Talentosa, ela (que recentemente fez uma proveitosa turnê ao lado de Simone), logo depois de ter caído na estrada junto com os irmãos Serginho e Arnaldo Baptista, à frente dos Mutantes, consegue fazer com que, ao vivo, temas como “Todos os Verbos” (dela e Marcelo Jeneci), “Aberto” (dela e Edu Tedeschi) e “Telhados de Paris” (de Nei Lisboa) ganhem novas e interessantes nuanças.

O roteiro do CD é composto por treze faixas, nove delas oriundas do aludido registro anterior de estúdio. Destas, oito fazem parte do repertório do álbum que lhe deu origem. A única novidade é a inclusão de “Felicidade”, de Luiz Tatit, compositor que conquistou Zélia com suas letras quilométricas recheadas de tiradas criativas (tanto que ela vem externando o desejo de realizar um trabalho somente com canções dele). As outras quatro faixas são inéditas gravações adicionais feitas em estúdio, um deleite para os fãs sempre ávidos por novidades. Assim, ela alia duas canções mais recentes (a aclamada “Borboleta”, composta por ela ao lado do já citado Jeneci e mais Alice Ruiz e Arnaldo Antunes, e “O Tom do Amor”, dela e Moska) a outras antigas (a recorrente “Por Isso Eu Corro Demais”, de Roberto Carlos, e “Defeito 10: Cedotardar”, de Tom Zé e Moacyr de Albuquerque).

Igualmente ao CD original, Fernanda Takai surge como convidada especial em “Boas Razões” (versão de Zélia para “De Bonnes Raisons”, de Alex Beaupain), um dos grandes momentos. Outros destaques ficam por conta de “Tudo Sobre Você” (parceria de Zélia e John Ulhoa) e “Os Dentes Brancos do Mundo” (de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle).
Zélia Duncan é nome de ponta da nossa MPB e merece toda nossa admiração. O CD ora em tela vem ratificar que ela se encontra em momento profissional iluminado. Corra e ouça, portanto!

N O V I D A D E S

* A banda gaúcha Papas da Língua está pondo no mercado, de maneira independente, o CD intitulado “Bloco da Rua” (também disponível no formato DVD). Alçado ao sucesso por conta da inclusão da música “Eu Sei” que integrou a trilha sonora da telenovela “Páginas da Vida”, levada ao ar pela Rede Globo em 2006/2007, o grupo, que tem como vocalista Serginho Moah, reúne, num repertório de dezessete faixas, canções autorais e regravações de temas como “Rocknroll Lullaby” (de Cynthia Weil e Barry Mann) e “Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua” (de Sérgio Sampaio). Em grande parte gravado ao vivo durante apresentações realizadas em outubro do ano passado no Teatro Opinião de Porto Alegre (RS), o projeto tem como ponto alto o registro entusiasmado do público presente que acompanha, em coro, canções da própria banda como “Muriel”, “Blusinha Branca”, “I Fall In Love”, "Disco Rock” e “Tentação”, os destaques do repertório apresentado. Há as participações especiais de Bochecha na revisita a “Pingos de Amor” (de Paulo Diniz e Odibar) e de Tati Portella em “Oba Oba”. O roteiro inclui também as inéditas “Tô Fora” e “Olhos Verdes”.

* Em parceria, as gravadoras Sala de Som e Albatroz anunciam para o próximo mês de setembro o lançamento do CD “A Galeria do Menescal”, álbum que reunirá os talentos de Roberto Menescal, Wanda Sá e dos componentes do grupo carioca Bebossa.

* “La Liberación” é o título escolhido para o quarto CD do grupo paulista Cansei de Ser Sexy que contará com a participação especial de Bobby Gillespie, vocalista do grupo Primal Scream. O repertório será inédito e autoral.

* A todo vapor com o seu novo projeto, o qual se intitulará “Duas Faces”, a cantora Alcione recebeu, em sua casa no Rio de Janeiro, alguns colegas para registros sonoros e de vídeo que resultarão, em breve, em CD e DVD. Lenine, Emílio Santiago, Áurea Martins, Maria Bethânia, Djavan e Martinho da Vila farão parte desse primeiro volume denominado “Jam Session”. O outro será “Ao Vivo na Mangueira” e, como o próprio título já entrega, foi gravado em show ao vivo que se realizou recentemente na quadra da famosa escola de samba e contou com as participações de Leci Brandão, Jorge Aragão, Diogo Nogueira e do rapper MV Bill.

* Sob a supervisão de Patrícia Palumbo, já foi gravado o CD no qual cantoras da nova geração (como Marcia Castro, Iara Rennó, Cibelle, Karina Buhr, Tulipa Ruiz, Claudia Dorei, Barbara Eugênia, Karina Zeviani e Nina Becker) regravaram canções menos conhecidas de autoria de Marina Lima. O DJ Zé Pedro, proprietário da gravadora Joia Moderna, anuncia o lançamento ainda para este mês. Em tempo: por critérios artísticos, a faixa “Bobagens, Meu Filho, Bobagens”, regravada por Thalma de Fretas, terminou ficando de fora do projeto.

* A dupla gaúcha Kleiton & Kledir encontra-se em processo de gravação do décimo álbum da carreira. Desta vez, os irmãos desenvolvem um projeto especialmente voltado para o público infantil. Quem viver, ouvirá!

* O cantor e compositor Jair Oliveira está prestes a comemorar três décadas de uma carreira que teve início com ele ainda criança integrando A Turma do Balão Mágico. Para marcar essa data fechada, ele realizou recentemente um show no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, no qual recebeu diversos convidados especiais, a exemplo de Simony, Max de Castro, Simoninha, Pedro Mariano e Daniel Carlomagno, além da mana Luciana Mello e do pai Jair Rodrigues. Devidamente registrada, a apresentação será disponibilizada até o final deste ano nos formatos CD e DVD.

* Quanto ao novo e aguardado CD de Gal Costa, a informação que chega através de Caetano Veloso, o produtor do trabalho (ao lado de Moreno Veloso e Kassin), é que, de fato, todas as músicas que comporão o repertório serão de sua autoria, a maioria delas inéditas. E por falar em Caetano, ele criou uma nova canção especialmente para a trilha do filme “Reis e Ratos” do diretor Mauro Lima. Quem já ouviu, garante que é bastante interessante!

* A primeira parceria entre Erasmo Carlos e Arnaldo Antunes já tem nome: “Kamasutra”. A canção fará parte de “Sexo”, o CD de inéditas que o Tremendão porá nas lojas neste segundo semestre. A conferir!

* E quem teve a sorte, como este apreciador musical, de assistir ao novo show de Adriana Calcanhoto intitulado “Trobar Nova” (nome de uma canção dela que lista os diferentes tipos de “trobar” – verbo que deu origem à palavra trovador – utilizados na música provençal), pôde confirmar a magnética presença cênica da gaúcha. Acompanhada tão somente pelo violão do competente Davi Moraes, a artista lotou o enorme Teatro Guararapes e encantou a plateia com um repertório muito bem escolhido que reuniu grandes sucessos da carreira e canções do mais recente CD, o ótimo “O Micróbio do Samba”. As surpresas do roteiro ficaram por conta da inclusão de “Eu Sei que Vou te Amar” (de Tom Jobim e Vinicius de Moraes), “A Cor Amarela” (de Caetano Veloso) e “Traduzir-se” (de Fagner sobre poema de Ferreira Gullar). Tomara que, em breve, aporte em solo sergipano!

RUBENS LISBOA é compositor e cantor
Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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