Musiqualidade

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R E S E N H A

Cantor: LENINE
CD: “CHÃO”
Gravadora: UNIVERSAL

O cantor e compositor Lenine nasceu em Recife (PE) e começou a se interessar pela música ainda na adolescência, ouvindo discos de rock, influência constatável até hoje em sua obra. Após se mudar para o Rio de Janeiro aos dezoito anos, lançou logo em seguida o seu primeiro álbum, “Baque Solto”, em parceria com o conterrâneo Lula Queiroga.

Foi necessário, no entanto, que se passasse uma década para que viesse à tona o segundo trabalho, “Olho de Peixe”, em parceria com o percussionista Marcos Suzano. A partir desse trabalho (lançado em 1993) foi que Lenine começou a ver o seu talento reconhecido, o que se fez por completo com o lançamento do primeiro CD solo em 1997, “O Dia em que Faremos Contato”. Ali ficava claro que a sua obra era construída sobre contornos bastante pessoais, utilizando-se de uma roupagem pop caracterizada pela mistura de ritmos eletrônicos, influências nordestinas e samba.

Artista gravado pelas melhores intérpretes deste imenso Brasil, a exemplo de Maria Bethânia, Zizi Possi, Elba Ramalho, Maria Rita e Zélia Duncan, Lenine distancia-se de sua costumeira rota sonora em seu novo CD, o qual chegou recentemente às lojas através da gravadora Universal.

Intitulado “Chão” e produzido por ele, um exímio violonista, ao lado do guitarrista JR Tostoi e do filho Bruno Giorgi, que se alterna no baixo, bandolim, synth, sampler e looper, esse novo trabalho traz uma sonoridade aparentemente simples, porém revestida por nuanças várias que terminam por saltar aos ouvidos a cada nova audição. De tessitura praticamente acústica e com acabamento refinado, o álbum mostra Lenine em um momento tranquilo de sua carreira, já sem precisar mostrar a que veio, e isso se constata de cara através da bela foto de capa onde se vê ele deitado com o neto dormindo sobre o seu tronco.

Embora o fato de as faixas virem recheadas por sons colhidos na intimidade cotidiana de Lenine (tais como passos, respiração, pio de pássaro, máquina de lavar, chaleira, motosserra, cigarras e máquina de escrever) tenha se transformado no chamariz do CD, ponto no qual vêm vários críticos se detendo, isso, na verdade, é apenas um detalhe, uma forma inteligente que o artista encontrou para explicitar ser este um trabalho bem mais voltado para o seu interior.
Decerto que não é um álbum composto por canções que peguem tão direto o público quanto algumas outras famosas como “A Ponte”, “Paciência”, “Jack Soul Brasileiro”, “Lavadeira do Rio” e “Miragem do Porto”. Necessita-se de algumas audições a mais para que se reconheça ser esse recém-lançado quinto trabalho um dos melhores da discografia de Lenine e um dos grandes lançamentos deste ano.

Das dez faixas autorais Lenine assina sozinho três. As sete restantes são parcerias com seus colaboradores de costume: além do já citado Lula Queiroga, fazem-se presentes Ivan Santos, Carlos Rennó e Lucky Luciano.

O CD se abre com a boa faixa-título e segue com “Se Não For Amor, Eu Cegue”, um nítido exemplo de como uma simples ideia resulta eficiente quando bem formatada. E se a suave balada “Amor É pra Quem Ama”, que se mostra apta a fazer parte de qualquer trilha sonora que se preze, incorpora em sua letra versos do livro “Grande Sertão: Veredas”, obra-prima de Guimarães Rosa, “Seres Estranhos” denota uma perspicaz observação dos tipos humanos que nos rodeiam diuturnamente. São dois grandes momentos de um disco enxuto do qual também se destacam a contundente “Envergo Mas Não Quebro” e a quase aboio “Malvadeza”. A conquista da paixão faz-se referenciada em “Uma Canção e Só” e o questionamento de cunho filosófico sobre a origem e os limites de cada música é exposto em “De Onde Vem a Canção”. Completam o repertório “Tudo que me Falta, Nada que me Sobra” e “Isso É Só o Começo”, os momentos menos inspirados.

Dentro desse universo mais introspectivo, Lenine está cantando melhor que nunca, sem arroubos vocais e totalmente integrado ao tecido costurado. Cabe aos bons ouvidos reconhecer que, sob a assinatura forte do artista, se encontram canções bem bacanas, as quais o tempo dará o merecido valor, quem sabe nas vozes de outros intérpretes que, se forem espertos, detectarão em “Chão” um ótimo material para futuras releituras. Corra e ouça sem pressa!

N O V I D A D E S

* Zé Renato está lançando um novo CD, o qual chega ao mercado através de uma parceria entre as gravadoras MP,B e Universal. Trata-se de “Breves Minutos”, produzido pelo próprio artista e composto por uma dúzia de faixas autorais e inéditas. Zé assina sozinho os dois temas instrumentais (“Porque Choro” e “Sweet Gil”, esta em homenagem ao maestro canadense Gil Evans), dividindo o restante do repertório com os parceiros Joyce, Ivan Santos, Lula Queiroga, Pedro Luís e Juca Filho. Com a voz iluminada e o canto elegante de sempre, ele apresenta um CD de tessitura pouco complexa e que resulta eficiente e sincero. Há as participações especiais de Toninho Hora (violão e guitarra em “Tá Legal”) e Jaques Morelenbaum (violoncelo em “Água Pra Quê?”). Grandes momentos ficam por conta das canções “Imbora”, “A Cor do Anel de Isabel”, “Vai Tambor” e “Desarmonia”.

* Produzido por Zeca Baleiro, chegou recentemente ao mercado o CD “Parador” do cantor e compositor maranhense Nosly. Nada de muito especial nem na obra autoral nem no artista enquanto intérprete, embora haja alguns bons momentos como a faixa-título (parceria de Nosly com Gerude e Luis Lobo), “Versos Perdidos” (parceria de Nosly com Baleiro e Fausto Nilo) e principalmente “Nome” (de Nosly e Olga Savary, que conta com a participação especial de Zélia Duncan).

* Um dos grandes nomes do samba nacional, o compositor Wilson Moreira soltou recentemente a voz, lançando, através da gravadora Rob Digital, um novo CD (que começou a ser pensado há vinte anos) ao lado do Baticum, grupo formado pelos músicos Beto Cazes, Carlos Negreiros, Jovi Joviniano e Marcos Suzano. A sonoridade percussiva remete aos ancestrais africanos e as onze faixas do repertório fluem naturalmente na voz do artista que parece talhada para o mais brasileiro dos gêneros musicais. Entre os melhores momentos estão o samba de roda “Nego Sonso”, o forró “No Talho da Madeira”, o jongo “No Arrebol” (que fará parte do próximo álbum de Roberta Sá a ser lançado no próximo ano) e os belos sambas “Terreiro Grande” e “Mulata do Balaio” (parcerias com Paulo César Pinheiro e Nei Lopes, respectivamente, esta última gravada originalmente por Clara Nunes em 1979). Ótima pedida!

* A gravadora Universal está pondo no mercado uma compilação de registros ao vivo feitos por Zeca Pagodinho em companhia de diversos colegas artistas. Sob o título de “Zeca Pagodinho Ao Vivo com os Amigos”, o CD reúne, em dezoito faixas, encontros memoráveis com Beth Carvalho, Martinho da Vila, Almir Guineto, Simone, Arlindo Cruz, Dona Ivone Lara, Nei Lopes e Luiz Melodia, entre outros. A canção “Griselda”, feita especialmente para a trilha sonora da telenovela global “Fina Estampa”, é a única gravada em estúdio e fecha com chave-de-ouro o projeto. Há diversos momentos interessantes como, por exemplo, “Lenço”, “Insensato Destino”, "Ainda É Tempo pra Ser Feliz”, “Poeta do Morro” e “Lama nas Ruas”.

* Através da gravadora Biscoito Fino, chegou recentemente às lojas “Samba Carioca”, o novo CD do cantor e compositor Vinicius Cantuária que se tornou conhecido nacionalmente quando, em 1981, Caetano Veloso gravou a sua composição mais tocada até hoje, a dolente “Lua e Estrela”. O recém-lançado álbum é composto por apenas nove faixas, sete delas criadas pelo próprio Cantuária ao lado de parceiros como Marcos Valle, Liminha e Paulo Sérgio Valle. As duas outras são regravações de duas das mais conhecidas canções da era da Bossa Nova: “Inútil Paisagem” (de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira) e “Vagamente” (de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli). Gravado entre Nova York e Rio de Janeiro, a ficha técnica do disco conta com grandes instrumentistas, a exemplo de João Donato (piano), Paulo Braga (bateria), Luiz Alves (contrabaixo), Dadi (guitarra) e Sidinho (percussão). De verdade, não se trata de um trabalho dos mais empolgantes até porque a safra de inéditas apresentadas não é das mais inspiradas. Mas Cantuária, que possui timbre que lembra muito o de Caetano, caprichou, como de costume, na produção, a qual recebeu a chancela do incensado Arto Lindsay. Entre os melhores momentos estão as faixas “Berlin” e ”Conversa Fiada”, além da instrumental “Julinha de Botas”.

* O duo de folk Agridoce formado pela roqueira baiana Pitty (piano) com o guitarrista de sua banda Martin Mendezz (violão) acabou de lançar o CD homônimo de estreia, o qual chegou ao mercado através do selo Vigilante da gravadora Deck. Composto por doze faixas (onze delas criadas pelos dois artistas – a exceção é “Please, Please, Please, Let me Get What I Want”, pinçada do repertório do grupo inglês The Smiths) e produzido por Rafael Ramos, o álbum alcança os seus melhores momentos com as músicas “Dançando”, “O Porto” e “Romeu”. Entre canções cantadas em português, inglês e francês, Pitty pôs sua voz a serviço de dez temas enquanto os dois outros receberam o tratamento vocal de Martin.

* Depois de lançar um primeiro CD supervalorizado pela crítica, o que terminou por chamar atenção para o seu nome, a cantora pernambucana Karina Buhr está pondo nas lojas, através da gravadora Coqueiro Verde, o seu segundo trabalho, o qual se intitula “Longe de Onde”. Produzido por ela própria ao lado de Bruno Buarque e Mau, o novo álbum traz sonoridade pesada (com ênfase nas guitarras de Fernando Catatau e Edgard Scandurra) e é composto por onze faixas autorais, residindo aí o seu maior problema: com voz de timbre delicado e sotaque nordestinamente carregado, Karina tem lá o seu carisma, mas o fato é que deveria deixar em segundo plano o seu lado compositora. As canções apresentadas são difíceis de ser assimiladas pelo ouvinte médio posto que construídas sobre estruturas melódicas pouco convencionais ainda que, em algumas passagens, tragam versos interessantes. Mesmo assim, alguns destaques podem ser pinçados da safra de inéditas apresentada, como é o caso de “Amor Brando” e “Não Precisa me Procurar”. No entanto, para sobreviver em um mercado assolado por boas cantoras, Karina deve repensar suas opções e abrir um espaço bem maior para o seu lado de intérprete…

* Está confirmado ainda para este mês o lançamento do aguardado novo CD de Beth Carvalho. Intitulado “Nosso Samba Tá na Rua!”, o álbum chegará ao mercado através da gravadora EMI e, produzido por Rildo Hora, trará, no repertório, nove canções inéditas. A cantora aliou, no repertório escolhido, sambas de autoria de jovens compositores do gênero a nomes já recorrentes nas fichas técnicas de seus discos. Há as regravações de “Palavras Malditas” (de Nelson Cavaquinho) e de “Minha História” (versão de Chico Buarque para o tema “Gesú Bambino”, de Lucio Dalla e Paola Pallotino).

RUBENS LISBOA é compositor e cantor
Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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