Musiqualidade

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R E S E N H A     1

Artistas: MATEUS SARTORI e GUILHERME RIBEIRO
CD: “QUE SE DESEJA REVER”
Gravadora: INDEPENDENTE

Um dos melhores cantores da nova geração (mas infelizmente ainda pouco conhecido pelo público em geral), o paulista Mateus Sartori mergulha de cabeça nas comemorações do centenário de nascimento de Luiz Gonzaga e lança, ao lado do exímio instrumentista Guilherme Ribeiro, o excelente CD independente “Que Se Deseja Rever” (o quarto de sua carreira, o qual chega ao mercado com distribuição da Tratore), título extraído de verso de “Qui Nem Jiló”, uma das treze faixas selecionadas para compor o repertório.
É somente a voz de Mateus acompanhada ora pelo piano, ora pelo acordeão, ambos a cargo de Guilherme. E o que poderia resultar em um álbum monocórdio termina se revelando um dos grandes lançamentos deste ano. Mérito de um intérprete acima da média, de arranjos muito bem sucedidos e de escolhas pouco óbvias.
Afora o tema acima já destacado, somente os dois maiores clássicos do cancioneiro do Mestre Lua estão lá: “Asa Branca” e “Assum Preto” (ambas parcerias dele com Humberto Teixeira). As demais faixas foram pinçadas a dedo e o ouvinte tanto pode se deleitar com músicas bem-humoradas (caso de “Ou Casa ou Morre”, de Elias Soares e Paulo Roberto Machado, e “Tenho Onde Morar”, insuspeito samba de Gonzagão e Dário de Souza) quanto com canções mais engajadas (a exemplo de “Fica Mal com Deus”, de Geraldo Vandré) ou próprias do universo junino (“Noites Brasileiras”, de Gonzagão e Zé Dantas).
Alguns dos destaques ficam por conta do resgate da bela e esquecida “Rosa do Mearim” (de Luiz Guimarães), da versão quase tango de “Acácia Amarela” (de Gonzagão e Orlando Silveira) e das pungentes releituras de “O Adeus da Asa Branca” (de Dalton Vogeler) e “Ave Maria Sertaneja” (de Júlio Ricardo e O. de Oliveira).
É, realmente, um disco imperdível que deve fazer parte de toda cedeteca que se preze!

R E S E N H A     2

Artista: MARIO ADNET
CD: “AMAZÔNIA – NA TRILHA DA FLORESTA”
Gravadora: UNIVERSAL DISCOS

Uma dúzia de faixas compõe o CD-concerto "Amazônia – Na Trilha da Floresta", uma declaração de amor do violonista, cantor e compositor Mario Adnet à Floresta Amazônica, aos povos que nela habitam e às lendas que fazem parte de sua história.
Já na faixa de abertura, "Trilhas da Floresta", se pode constatar a grandiosidade do projeto, o qual chegou recentemente às lojas através da gravadora Universal. Com a direção musical e os arranjos a cargo do próprio Adnet, são desfiadas canções de compositores que sempre se preocuparam com a natureza e a preservação da vida nas nossas matas. E é assim que o ouvinte se depara com uma vigorosa versão de "Borzeguim", de Tom Jobim, em precisa interpretação de Mônica Salmaso. Ambos, Tom e Mônica, também aparecem em dois outros momentos do álbum: ele assinando ao lado de Jararaca a pérola "Boto" (que ganha contornos mais delicados na versão de Lenine), ela cantando o clássico "Uirapuru", de Waldemar Henrique.
O projeto, aliás, faz-se rico em convidados já que dele também participam as cantoras Roberta Sá e Antonia Adnet. A primeira, cheia de graça, faz bonito em duas faixas ("Canoa Canoa", de Nelson Ângelo e Fernando Brant, e "Amazonas II", de João Donato, Arnaldo Antunes e Péricles Cavalcanti). Já a segunda, com a delicadeza que lhe é característica e acompanhada por um coro familiar, desfia os versos de "A Rã" (outra de Donato, agora em parceria com Caetano Veloso).
Mister se faz destacar que a maior surpresa do álbum fica por conta da presença do jovem cantor Vicente Nucci, dono de bela e bem colocada voz, o qual interpreta com segurança "Os Rios" (de Claudio Nucci e Juca Filho) e "Saci" (de Guinga e Paulo César Pinheiro), ambas canções de complexa teia melódica. Completam o repertório três ótimos momentos instrumentais: "Rio Amazonas" (de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro), "Prelúdio 17" (de Claudio Santoro) e o segundo movimento da peça sinfônica "Saudades das Selvas Brasileiras" (de Heitor Villa-Lobos).
Um álbum muito bem realizado que cumpre com destreza a ideia de entrelaçar a linguagem da música erudita com canções populares. Corra e ouça!

N O V I D A D E S

* O cantor e compositor Maciel Melo lançou recentemente, através de uma parceria entre a gravadora Universal e o selo Zeca PagoDiscos, mais um CD. Intitulado “Minha Metade”, o álbum foi produzido pelo próprio artista ao lado do experiente José Milton e se faz composto por quatorze faixas, oito delas assinadas por Maciel, a maioria ao lado de parceiros. Da obra centenária de Luiz Gonzaga, estão presentes “Qui Nem Jiló” e “Assum Preto”, ambas parcerias com Humberto Teixeira. Há as participações especiais de Elba Ramalho, Fagner, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Alceu Valença, Dominguinhos e do Quinteto Violado, além – é claro! – de Zeca Pagodinho. Entre os destaques do repertório apresentado estão as faixas “A Poeira e a Estrada” (parceria de Maciel com Cláudio Almeida), “Choro de Poeta” (de Anchieta Dali e Carlos Villela), “Pano do Dia Um” (de Maciel, Zeh Rocha e Xico Bizerra) e “O Sol das Manhãs” (de Maciel e Cezzinha).

* A cantora Silvinha, que nos deixou cedo, tem reeditado o seu CD “Grita Coração”, lançado originalmente em 1984. A iniciativa é do selo carioca Discobertas que tem o competente e incansável Marcelo Fróes à frente. Com sua voz de grande extensão e uma afinação ímpar, Silvinha (que foi casada com o cantor Eduardo Araújo) entabula quatro canções de Don Beto, o qual surge também como convidado especial na faixa “Calmaria”, e se entrega a temas como “Cidade Grande” (de Jane Duboc e Luca Salvia), “You Light Up My Life” (de Joe Brooks) e “O Sal da Terra” (de Beto Guedes e Ronaldo Bastos). Há ainda a inclusão de duas faixas bônus: “Que as Crianças Cantem Livres” (de Taiguara) e “Desejo Desejado” (parceria de Filó com José Maurício Machine).

* Claudia Amorim chega a “Sede”, seu terceiro CD, um trabalho independente que tem a produção assinada pelo violonista Perinho Santana. São doze faixas, entre inéditas e regravações, que mostram uma intérprete correta, dona de um bonito timbre. Entre os destaques do repertório estão “Ai que Saudade” (de Manassés Campos), “Pandemia” (de Mauro Aguiar e Mário Seve) e “Zabelê” (de Rud Jardim), além das boas releituras de “Tenho Sede” (uma das mais inspiradas parcerias de Dominguinhos e Anastácia) e “Do Brasil” (lindo tema pouco conhecido de autoria de Vander Lee).

* No recém-lançado CD intitulado “Ultraje a Rigor vs. Raimundos”, o qual está chegando ao mercado através da gravadora Deck com produção assinada por Rafael Ramos, as duas bandas – numa muito bem sacada ideia – invertem os repertórios e conseguem gerar ótimos momentos (ressalte-se que em nenhuma das quatorze faixas eles se encontram). Com o exagerado subtítulo de “O Embate do Século”, o que se ouve é o velho e bom rock n’ roll em perfeita sintonia com temas ora inteligentes e bem humorados (caso de “Rebelde Sem Causa”, “Nós Vamos Invadir sua Praia” e a atualíssima “Inútil”), ora beirando o escatológico (a exemplo de “Puteiro em João Pessoa”, “Me Lambe” e “Selim”). Ambas as bandas, em momentos diferentes, já dominaram as paradas de sucesso, arrebatando milhares de fãs para as suas apresentações e mesmo que, no momento, nem uma nem outra esteja na crista da onda, vale a pena constatar que seus componentes continuam em forma!

* A Vale Verde Records está pondo no mercado, em vinil, apenas quinhentas cópias do compacto duplo “Transas do Futuro” do cantor, compositor e instrumentista Jarbas Mariz, o qual também é integrante, há anos, da banda que acompanha Tom Zé. Trata-se de um dos discos mais raros do Brasil, lançado originalmente em 1977, sob a influência da psicodelia da época, mas nitidamente conceitual.

* O show derivado do CD “Recanto” com que Gal Costa vem se apresentando pelo Brasil deverá ser registrado em breve para futuro lançamento em CD e DVD. O repertório alberga as canções do estranho álbum lançado no ano passado, mas se abre a outros temas mais palatáveis de Caetano Veloso. Aliás, este já está em estúdio gravando as músicas que farão parte de seu próximo álbum de inéditas, ainda sem data definida para lançamento.

* Embora o Pará possua, há tempos, intérpretes de peso na nossa música nacional, tais como Leila Pinheiro e Fafá de Belém, só agora parece que o Brasil vem descobrindo realmente a existência daquele como um Estado musical. O boom da vez – claro! – é a cantora Gaby Amarantos, mas outros artistas de lá vêm chegando devagarzinho, tentando ocupar espaço, como é o caso das cantoras Aíla e Lia Sophia e do cantor e compositor Felipe Cordeiro. Este acaba de lançar, de maneira independente, o seu segundo CD “Kitsch Pop Cult” (sucessor de “Banquete”, de 2008), o qual leva a assinatura do paulista André Abujamra na produção. Das dez faixas, nove são autorais, algumas criadas ao lado de parceiros. Há dois bons temas instrumentais, mas os destaques do repertório ficam por conta de “Legal e Ilegal”, “Café Pequeno”, “Fogo da Morena” e “Historinha”. A sonoridade, conforme ressaltado já no título do trabalho, busca revestir o kitsch com tons moderninhos e a ideia básica é aliar sons característicos paraenses como a lambada, o carimbó e a cumbia com a novidade mais explorada pela mídia atual, o chamado tecnobrega.

* Djavan lançará no próximo mês o seu novo e aguardado CD. O trabalho, que chegará às lojas através da gravadora Universal, se intitulará “Rua dos Amores” e conterá treze faixas inéditas e autorais gravadas pelo artista alagoano devidamente acompanhado de uma formidável banda composta por Marcelo Mariano (baixo), Paulo Calasans e Glauton Campello (teclados), Torcuato Mariano (guitarra), Carlos Bala (bateria), Jessé Sadoc (trompete) e Marcelo Martins (saxofone).

* Com as participações especiais de Zeca Pagodinho, Dudu Nobre e Arlindo Cruz, um time de peso que lhe credencia o trabalho, o sambista Fred Camacho está lançando um CD homônimo, o qual chegou recentemente às lojas através da gravadora Bolacha Discos. Produzido pelo maestro Ivan Paulo e composto por quatorze faixas (treze delas compostas pelo próprio Fred, a maioria ao lado de parceiros como Cassiano Andrade, Acyr Marques, Nei Lopes, Rogê, Marcelo Moreira, Almir Guineto e Pretinho da Serrinha), o álbum mostra um artista de fato talhado para o universo do samba, tanto no lado intérprete como no quesito compositor. Indicadíssimo para as melhores rodas, o disco traz, entre os destaques do repertório, as faixas “Em Busca da Sorte”, “Salto”, “Quem Sou Eu”, “Formiga Sem Asa” e “Toca Aí”.

* Egressos de bandas que dominaram as paradas musicais nos anos oitenta, o ex-titã Charles Gavin (bateria), o legionário Dado Villa-Lobos (guitarra), o ex-Barão Vermelho Dé Palmeira (baixo) e o ex-cantor do grupo Hojerizah Toni Platão (voz) estão anunciando a formação de um novo grupo que já está a ensaiar para, em breve, entrar em estúdio visando à gravação de um CD. Quem viver, ouvirá!

RUBENS LISBOA é compositor e cantor
Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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