Musiqualidade

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R E S E N H A

Cantora: ELBA RAMALHO
CD: “VAMBORA LÁ DANÇAR”
Gravadora: SALA DE SOM RECORDS

Desde que surgiu no mercado fonográfico nacional com o seu excepcional disco “Ave de Prata”, a paraibana Elba Ramalho se gabaritou como o nome feminino mais representativo da música nordestina. Nascida em Conceição do Piancó, no interior da Paraíba, foi morar ainda adolescente em Campina Grande e aí passou a se interessar pela música, integrando o grupo As Brasas como baterista. Convidada pelo Quinteto Violado, viajou para o Rio de Janeiro para apresentar o espetáculo "A Feira" e decidiu permanecer na Cidade Maravilhosa. Após enfrentar grandes dificuldades, viu sua grande chance acontecer ao ser selecionada, em 1979, para a peça "Ópera do Malandro", de Chico Buarque, onde se destacou por sua interpretação de "O Meu Amor". Dali em diante, sua voz agreste e sua presença cênica arrebatadora conquistaram o Brasil e a artista foi engatando um sucesso atrás do outro, tais como “Não Sonho Mais”, “Bate Coração”, “Banho de Cheiro”, “De Volta pro Aconchego” e “Chão de Giz”.

Após o seu último CD de estúdio (“Balaio de Amor”, de 2009) no qual mergulhou em um repertório de xotes românticos, Elba anunciou que visitaria, em projetos especiais, as obras do primo Zé Ramalho e de Chico Buarque. Estes deverão se concretizar em breve, mas enquanto isso não ocorre, ela está lançando, através da gravadora Sala de Som Records, mais um álbum que vem a ser o 31º de sua vitoriosa carreira. Trata-se de “Vambora Lá Dançar”, o qual é composto por quatorze faixas em que se alternam temas animados e canções românticas. E se as primeiras se destinam ao bate-coxa dos arrasta-pés, dentre as segundas há várias vocacionadas para virem a fazer parte de trilhas sonoras de produções televisivas (e, consequentemente, caírem bem mais facilmente no gosto do grande público).

Na verdade, Elba tinha pronto outro disco (que se intitularia “Forró Brasileiro”). Mas como cabeça de artista é algo mutante, nos últimos meses ela decidiu aproveitar somente parte desse repertório gravado sob a produção do ex companheiro e sanfoneiro Cezinha e escolheu outras seis canções, confiando-as ao produtor Zé Américo com quem trabalha há anos. Um ouvinte mais atento perceberá essa dual diferença até porque as faixas que trazem os arranjos assinados por Zé Américo soam mais modernos que os bolados por Cezinha (timbres elétricos versus acústicos). Nada, porém, que venha a comprometer sobremaneira o resultado desse trabalho que, ao final, resulta bastante interessante.

Elba continua mandando muito bem. Sua potente emissão vocal ainda se encontra em grande forma e o lado intérprete aflora a todo momento, o que a faz pairar acima da maioria das colegas insossas que permeiam a MPB atual. Sua voz é, de fato, única e contempla uma alegria sofrida que somente os que souberam sugar o verdadeiro pólen da vida possuem. É sabidamente uma artista que se agiganta no palco e ainda que nem todas as faixas do novo CD estejam à altura do seu talento, ele já se consolida como um produto a ser levado em conta dentre os lançados em 2013.

A faixa de abertura, “Embolar na Areia” (de Herbert Azul), é deliciosa em sua simplicidade e contagia de primeira. Já “Frevo Meio Envergonhado” (de Monique Kessous), cuja roupagem vem merecendo críticas nas redes sociais, é uma canção bacana, porém realmente merecia pelo menos um andamento mais rápido. Elba regravou “Mucuripe” (marco inicial das trajetórias de Fagner e Belchior) em versão abolerada, resgatou uma bela criação pouco conhecida de Chico César (a balada “Quando Fecho os Olhos”, parceria com Carlos Rennó) e, de maneira até inusitada, trouxe para sua praia a contemplativa “Onde Deus Possa me Ouvir” (de Vander Lee). Da lavra da dupla Antônio Barros e Cecéu, fornecedores de hits nordestinos, ela abriu espaço para “Deitar e Rolar” e “Tu de Lá, Eu de Cá”. No que tange aos melhores momentos, alguns deles ficam por conta do maracatu “Fibra de Cristal” (de Sérgio Sá), da regional “Amor de Bumba-meu-Boi” (de Rogério Rangel) e dos xotes românticos “Por Que Tem que Ser Assim?” (de Chico Pessoa e Cezinha) e “Minha Vida É te Amar” (de Dominguinhos e Nando Cordel).

Enfim, é a nossa Elba de sempre esbanjando talento e competência. Quem tiver bons ouvidos para escutar que o faça!
Em tempo: o exímio sanfoneiro sergipano Mestrinho, filho do nosso querido Erivaldo de Carira e atual integrante da banda de Elba, exibe o seu talento inato de instrumentista em algumas faixas. É a gente chegando lá!

N O V I D A D E S

* Como é sabido por aqueles que acompanham a história da nossa música popular, o álbum “Canção do Amor Demais”, lançado no já distante ano de 1958 por Elizeth Cardoso, se transformou em um dos discos mais importantes da história do nosso cancioneiro e não somente por reunir parcerias de Tom Jobim e Vinicius de Moraes que se tornariam antológicas, mas por trazer um certo João Gilberto que, com seu violão único, apresentava a tal batida diferente na faixa “Chega de Saudade”, tornando-a, assim, um dos marcos iniciais da Bossa Nova, espécie de movimento que abriu as fronteiras musicais do Brasil para o mundo. As treze faixas desse trabalho foram revisitadas, no final do ano passado, pelo vibrafonista Guga Stroeter, capitaneando a HB Jazz Combo, em um CD que traz a cantora Rita Braga à frente dos vocais. Contando com arranjos super bem elaborados que resvalam para o lado camerístico, os quais foram escritos pelo violonista Dino Barioni, o projeto mostra outros músicos de ponta na ficha técnica, a exemplo de Pepe Cisneros ao piano e Ramon Montagner na bateria e percussão. Rita canta muito bonito, ainda que não seja dona de voz de grande extensão. Tarefa hercúlea é explicitar destaques, mas não dá para deixar passar que entre os melhores momentos estão “Janelas Abertas”, “Medo de Amar”, “As Praias Desertas” e “Serenata do Adeus”. Aconselhável para quem tem refinado gosto musical!

* A gravadora Biscoito Fino está pondo no mercado dois CDs (vendidos separadamente) que trazem o áudio do DVD “Noite Luzidia” (já lançado em dezembro do ano passado), registro do show comemorativo dos trinta e cinco anos de carreira de Maria Bethânia, o qual foi  realizado em 2001 no Canecão e contou com a participação de vários nomes da primeira linha da nossa MPB, dentre os quais Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Adriana Calcanhotto, Ana Carolina, Nana Caymmi, Chico César, Edu Lobo, Lenine e Renato Teixeira. Imperdível!

* Compositor que esteve em grande evidência durante a década de oitenta do século passado quando teve canções de sua autoria gravadas por Zizi Possi (“Perigo” e “Noite”) e Marina Lima (“PseudoBlues” e “Todas”) e transformadas em sucessos instantâneos, o paulista Nico Rezende faz um resumo de sua obra no recém-lançado CD “Piano & Voz”, composto por doze faixas, no qual ele próprio se acompanha ao instrumento. Cantor correto, Nico desfia, além dos quatro temas anteriormente citados, músicas interessantes como “Esquece e Vem”, “Penso Nisso Amanhã” e “Transas”.  Lembranças super oportunas para quem viveu fortes emoções àquela época!

* A cantora e compositora Patricia Mellodi lançou no último dia 30 de janeiro, na internet e com download gratuito, a sua nova música, “O Dia da Saudade”. Bonita canção que vale a pena conhecer!

* Produzido pela dupla dinâmica Charles Möeller e Claudio Botelho, o elogiado musical “Nada Será Como Antes”, ainda em cartaz no Rio de Janeiro, homenageia os setenta anos de Milton Nascimento e acaba de ser perpetuado em áudio através de um CD que chega às lojas com a chancela da gravadora MP,B em parceria com a Universal, tendo a produção a cargo do violoncelista Lui Coimbra. Interpretadas pelos próprios atores-cantores que participam do espetáculo (Estrela Blanco, Tatih Köhller, Délia Fisher, Jonas Hammar, Wladimir Pinheiro, Marya Bravo, Cássia Raquel, Pedro Sol, Claudio Lins, Jules Vandystadt e Sérgio Dalcin), as trinta canções, muitas delas já enraizadas no inconsciente coletivo nacional, ganharam novas roupagens. É fato que algumas interpretações soam exageradas, mas no geral o projeto alcança um resultado bacana. Todas as músicas são de autoria de Milton ao lado de seus principais parceiros, com exceção de “Caçador de Mim” (de Sérgio Magrão e Luiz Carlos Sá), “Para Lennon e McCartney (de Lô Borges, Márcio Borges e Fernando Brant) e “Amor de Índio” (de Beto Guedes e Ronaldo Bastos), três pérolas que ganharam grandes registros de Bituca pelo que se tornam perfeitamente justificáveis ao contexto. Entre os destaques do repertório selecionado figuram as faixas “Canção Amiga”, “Paula e Bebeto”, “Milagre dos Peixes” e “O Que Foi Feito Devera”, além do medley que reúne “Canto Latino”, “Sentinela” e “Menino”.

* O primeiro disco solo de Rodrigo Amarante, ex Los Hermanos, será lançado em maio deste ano e trará o repertório recheado de composições autorais inéditas.

* A cantora Fernanda Guedes vem lá de Goiás e apresenta um CD muito legal. Trata-se de “Eu Vou É Cantar” (título pra lá de bem sacado e que foi retirado da letra de “Que Pena”, de Jorge Ben Jor, canção presente no repertório composto por dez faixas). Com voz agradável e sob a produção do baixista Marcelo Maia, a artista soube escolher muito bem as canções gravadas, transformando nos momentos mais interessantes do seu projeto as releituras de “Áh, Se Eu Vou” (de Lula Queiroga), “Com Mais de Trinta” (de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle) e “Incompatibilidade de Gênios” (de João Bosco e Aldir Blanc). Vale a pena conferir!

* “Roda-Gigante”, o novo CD do grupo carioca Biquíni Cavadão, estará chegando às lojas através da gravadora Warner Music em março próximo. O repertório é composto por doze músicas.

* O compacto duplo “Só Morto Burning Night”, primeiro registro fonográfico de Jards Macalé, lançado em 1970, ganhará nova reedição, a qual chegará em breve ao mercado através do selo Discobertas a tempo de comemorar as sete décadas de vida do artista. As quatro faixas originais contarão com a adição de dez outras como bônus, algumas delas inéditas em CD.

* Através da gravadora Universal, os Titãs puseram recentemente no mercado o CD “Cabeça Dinossauro – Ao Vivo 2012” (também disponível no formato DVD), registro do show realizado no Circo Voador, no Rio de Janeiro, em junho do ano passado, o que se deu com o objetivo de comemorar os vinte e cinco anos do lançamento original do disco. Na oportunidade, o agora quarteto, formado por Branco Mello, Paulo Miklos, Sérgio Britto e Tony Bellotto (no início, eram oito, pois se contava com as presenças de Arnaldo Antunes, Charles Gavin, Marcelo Fromer e Nando Reis), teve a adesão de Mario Fabre na bateria. O repertório contempla alguns dos mais explosivos sucessos do rock nacional formatado nos anos oitenta, a exemplo de “AA UU”, “Polícia”, “Bichos Escrotos” e “Homem Primata”.

RUBENS LISBOA é compositor e cantor
Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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