Musiqualidade

0

R E S E N H A

Artistas: FRANCIS HIME e GUINGA
CD: “FRANCIS e GUINGA”
Gravadora: BISCOITO FINO

Dois grandes compositores da nossa música popular resolveram unir seus talentos e vêm, desde o ano passado, realizando juntos um memorável show no qual se fazem acompanhados tão somente pelos seus instrumentos. Trata-se de Francis Hime e Guinga, os quais, munidos de piano e violão, respectivamente, desfiam verdadeiras pérolas do nosso cancioneiro, fazendo com que a plateia se deleite diante de tanta beleza.
O registro desse encontro foi perpetuado com o CD simplesmente intitulado “Francis e Guinga”, o qual acaba de chegar ao mercado através da gravadora Biscoito Fino. Sob a produção de Paulo Aragão e com os arranjos e a direção musical a cargo dos próprios artistas, entrelaçam-se as obras dos dois em dez faixas, seis delas unindo canções criadas por cada um ao lado de outros parceiros, o que resulta em um repertório total de dezesseis músicas.
Nenhum dos dois – e isto é fato – pode ser considerado um grande cantor, embora saibam bem colocar suas vozes. Na realidade, são autores que apresentam suas criações com propriedade. Francis tem voz anasalada e Guinga traz como característica inata seu timbre rouco. No geral, enfrentam suas intrincadas melodias de forma satisfatória e, ainda que se torne incontestável que temas do alto quilate dos apresentados crescem consideravelmente quando interpretados por vozes melhor talhadas para o canto, mostram-se intérpretes habilidosos. Sim, na arte tudo é mesmo bastante relativo!
A maioria das canções não é inédita e as de Francis são bem mais conhecidas do público médio que as de Guinga. Mas decerto que não foi o critério do conhecimento o adotado para a seleção final e, sim, o encaixe dos temas originalmente existentes. Assim, casam-se perfeitamente em medley “Cambono” (de Guinga e Thiago Amud) e “Anoiteceu” (de Francis e Vinicius de Moraes), o que também acontece com “A Noiva da Cidade” (de Francis e Chico Buarque) e “Senhorinha” (de Guinga e Paulo César Pinheiro) e ainda com “Noturna” (outra de Guinga e Pinheiro) e “Minha” (de Francis e Ruy Guerra).
Cantando, eles se jogam ora nas suas próprias músicas, ora nas do outro, o que cria uma atmosfera muito legal de cumplicidade. Ambos cariocas (embora um da zona sul – Francis – e o outro do subúrbio – Guinga), começaram a estudar música desde cedo. Francis, que é engenheiro, chegou a morar alguns anos na Suíça, estudando os clássicos, e, na volta, mergulhou de cabeça nos festivais. Na década de setenta, começou a engatar um sucesso atrás do outro, como “Trocando em Miúdos", "Meu Caro Amigo", "Vai Passar", "Atrás da Porta" e "Pivete", por exemplo. Guinga, por incrível que pareça, alterna até hoje o trabalho musical com o de dentista. E com composições gravadas por gente do porte de Elis Regina, Clara Nunes, Leila Pinheiro, Ithamara Koorax e Leny Andrade, ele tem aval acima de qualquer suspeita.
A admiração antiga e mútua contou com uma ajuda do destino: de um encontro casual na ponte aérea surgiu neles a ideia de um trabalho em conjunto. E assim se fez. Álbuns de encontro entre grandes artistas são como um bálsamo para os apreciadores da boa música (como esquecer os discos históricos de Elis Regina com Tom Jobim, Maria Bethânia com Chico Buarque, Roberto Carlos com Caetano Veloso, Simone com Zélia Duncan, Ney Matogrosso com Pedro Luís e A Parede, Milton Nascimento com Gilberto Gil, só para ficar em meia dúzia de exemplos)? O de Francis e Guinga encaixa-se nessa categoria e traz, como plus, duas belas parcerias inéditas entre eles: “A Ver Navios” (feita com a colaboração de Olívia Hime) e “Doentia” (que tem ainda a adesão do já citado Amud).
Ressaltando afinidades, Francis Hime e Guinga construíram um CD pra lá de bacana que, embora com caráter nitidamente intimista, não soa monocórdio. Pelo contrário, consegue, com suavidade e elegância, fazer aflorar várias e plurais emoções em quem o ouve. Imprescindível!

N O V I D A D E S

* Acompanhado pelo pianista Jonas Dantas e pelo percussionista Guga Machado, o cantor Carlos Navas gravou entrevista para o programa “Ensaio”, conduzido por Fernando Faro e que faz parte da programação da TV Cultura, em agosto do ano passado, oportunidade em que também interpretou nove temas musicais. Esse registro se transformou no primeiro DVD da carreira do artista e já se encontra disponível. Com sua costumeira elegância, ele desfia canções que fazem parte do seu repertório, a exemplo de ”Jura” (de Sinhô), “Voo de Coração” (de Ritchie e Bernardo Vilhena), “A Casa” (de Vinicius de Moraes), “História de uma Gata” (de Chico Buarque, Bacalov e Bardotti), “Que Tal o Impossível?” (de Itamar Assumpção) e “Se Você Jurar” (de Francisco Alves, Ismael Silva e Nilton Bastos). Entre os melhores momentos do projeto estão as inspiradas releituras de “Velho Realejo” (de Custódio Mesquita e Sadi Cabral), “Beatriz” (de Edu Lobo e Chico Buarque) e “Ícaro” (de Fred Martins e Marcelo Diniz). Em tempo: Carlos Navas, uma das mais bonitas vozes masculinas da atualidade, deverá estar se apresentando aqui em Aracaju no próximo mês de maio. É bom se ligar!

* Ellen Oléria, a vencedora do programa global “The Voice Brasil”, encontra-se em estúdio gravando as canções que farão parte de seu segundo CD (o primeiro foi o independente “Peça”, lançado em 2009), o qual chegará ao mercado em breve através da gravadora Universal. Na regravação de “Aqui é o País do Futebol” (de Milton Nascimento e Fernando Brant) a cantora conta com a participação especial de Carlinhos Brown.

* Estreou semana passada em São Paulo a versão nacional de “O Rei Leão”, musical que há quinze anos faz sucesso na Broadway. E as versões em português das músicas do espetáculo foram feitas por Gilberto Gil, o que basta para fazer valer a pena assisti-lo…

* No mês passado, a cantora Verônica Sabino realizou show especial em Juiz de Fora (MG), o qual foi devidamente registrado para se transformar no segundo DVD de sua carreira, em breve nas lojas através de uma parceria entre o selo MP,B com a gravadora Universal Music e o Canal Brasil. Contando com as participações especiais de Milton Nascimento e Roberto Menescal, ela se fez acompanhar por uma banda enxuta e competente formada por Sérgio Chiavazzoli (arranjos, violão e guitarra), André Vasconcelos (contrabaixo), João Hermeto (percussão) e Chico Werneck (piano e acordeon). O repertório, todo ele escolhido a dedo, contempla verdadeiros clássicos nacionais (a exemplo de “Saia do Caminho”, “Ouça”, “Demais”, “Insensatez”, “O Barquinho” e “Influência do Jazz”) e estrangeiros (caso de “It's Now or Never”, “Kiss me Quick” e “Day Tripper”) e faz paradas estratégicas nas jovens tardes de domingo (em “Eu te Darei o Céu” e “Splish Splash”).

* A cantora Waleska, conhecida como a Rainha da Fossa, nome bastante em voga na década de setenta do século passado, está comemorando cinquenta anos de carreira com o lançamento do projeto “Waleska – 50 anos de MPB”, o qual já se encontra disponível nos formatos CD e DVD. Trata-se de registro do show por ela realizado ano passado no Centro Cultural Carioca (RJ), o qual contou com Rildo Hora, Miéle e João Roberto Kelly como convidados especiais. Do repertório fazem parte temas atemporais do nosso cancioneiro, a exemplo de “As Rosas Não Falam”, “Eu e a Brisa”, “Ninguém me Ama”, “Viagem”, “A Flor e o Espinho”, “Trocando em Miúdos” e “A Noite do meu Bem”.

* Estará sendo lançado dentro de poucos dias, nos formatos CD e DVD, o projeto da Multishow através do qual Zeca Pagodinho comemora três décadas de carreira. A única faixa inédita é “Vida que Segue” (de Serginho Meriti, Rodrigo Leite e Cocão) que conta com a participação especial de Xuxa Meneghel. Outros convidados que se presentes em temas revisitados são Hamilton de Holanda, Marisa Monte, Paulinho da Viola e Yamandu Costa.

* Se vivo estivesse, Renato Russo teria completado, na quarta-feira passada, cinquenta e três anos. Um dos nomes mais incensados do rock nacional, o cantor e compositor, à frente da banda Legião Urbana, colecionou vários e grandes sucessos que marcaram toda uma geração. Entre os mais interessantes estão “Há Tempos”, “Pais e Filhos”, “Índios”, “Eu Sei” e “Faroeste Caboclo”.

* “Músicas para Saudar Jorge Amado” é o título que batizará o primeiro CD da Orquestra Revelia, a qual, para efetuar a homenagem, mergulhou de cabeça no universo do famoso escritor baiano. Trata-se de uma produção independente que chegará ao mercado no próximo mês com um repertório majoritariamente inédito, excetuando-se a regravação de “É Doce Morrer no Mar” (parceria sazonal de Amado com Dorival Caymmi). Quem viver, ouvirá!

RUBENS LISBOA é compositor e cantor
Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

Comentários

Nós usamos cookies para melhorar a sua experiência em nosso portal. Ao clicar em concordar, você estará de acordo com o uso conforme descrito em nossa Política de Privacidade. Concordar Leia mais