Musiqualidade

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R E S E N H A

Artistas: IZABEL PADOVANI e RONALDO SAGGIORATO
CD: “AQUELAS COISAS TODAS”
Gravadora: INDEPENDENTE

Irrepreensível é o adjetivo que melhor qualifica “Aquelas Coisas Todas” (título da canção homônima de Toninho Horta), o novo e independente CD de Izabel Padovani (cantora que despontou na cena musical brasileira desde sua volta ao país, depois de uma década  vivendo na Áustria), o qual se fez gravado unicamente ao lado do virtuoso baixista Ronaldo Saggiorato. É o registro do ápice de um trabalho de duo voz e baixo que começou há onze anos e se eterniza através de treze seletas faixas que receberam um tratamento sonoro simples e sofisticado ao mesmo tempo, conforme bem definido em breve texto constante da contracapa.
Izabel venceu, em 2005, o respeitado Prêmio Visa de Música Brasileira, fato que serviu como ponte para sua volta definitiva ao Brasil. De lá para cá, lançou o álbum “Desassossego”, no ano seguinte, o qual foi entusiasticamente aplaudido pela crítica tanto aqui quanto na Europa. O disco seguinte, “Mosaico”, viria três anos depois e serviu para comprovar a versatilidade dessa grande intérprete, sem sombra de dúvida uma das mais belas vozes femininas da atualidade na nossa MPB.
Não bastasse ser graduada em Educação Musical pela Universidade Federal de São Carlos e professora de Técnica Alexander, formada pelo The Alexander Technique Teacher Trainning Centre em Viena, ela, que, atualmente cursa o mestrado da Unicamp, exala emoção por todos os poros. Uma fácil constatação dessa afirmativa é a audição da faixa “Na Virada da Costeira”, obra-prima resultante de parceria entre Chico Saraiva e Paulo César Pinheiro e que ganha agora sua arrebatadora e definitiva versão.
Dona de voz límpida e com afinação acima da média, Izabel dá uma verdadeira aula de tempo, divisão e ritmo em um CD que deveria ser conhecido por todos e todas que têm a arte de cantar como meta. Já Saggiorato consegue magicamente transformar o seu baixo elétrico em múltiplos instrumentos, fazendo com que um ouvinte mais desavisado possa procurar, sem êxito, os nomes de outros músicos na ficha técnica. Ora com efeitos percussivos, ora fazendo surgir minimalistas acordes, o baixo pontua os sempre presentes e precisos vocalises de Izabel.
Difícil, assim, se torna explicitar os destaques de um repertório de pérolas pinçadas a dedo e lapidadas com esmero que vai de um Dominguinhos jobiniano (“Contrato de Separação”, parceria com Anastácia, em registro que traz, como convidado, Thibault Delor e seu baixo acústico) até o próprio Maestro Soberano (“Falando de Amor”), passando por inspiradas parcerias de Zé Miguel Wisnik com Luiz Tatit (“Baião de Quatro Toques”) e de Guinga com Aldir Blanc (“Vô Alfredo”). Mas não há – mesmo – como deixar de ressaltar a alegria ao se ouvir a belíssima releitura de “Piaçaba”, inspirado tema composto pela nossa Joésia Ramos junto com Luhli.
Longe das escolhas óbvias, o set list contempla preciosidades como “É Preciso Perdoar” (de Alcyvando Luz e Carlos Coquejo), “Samba com Pressa” (de Rosa Passos e Fernando Oliveira) e “Gávea” (de Alegre Corrêa e Marcio Tubino), abrindo espaço também para os eternos Assis Valente (“Alegria”, composta com Durval Maia) e Jacob do Bandolim (“Doce de Coco”, letrada por Hermínio Bello de Carvalho). E como cereja do delicioso bolo, há ainda a participação especial de Marcelo Pretto na interessante canção “No Tempo do Espicho” (de Marlui Miranda).
Despontando, desde já, como um dos melhores álbuns do ano, o CD que une os talentos de Izabel Padovani e Ronaldo Saggiorato é, de fato, item obrigatório em toda e qualquer cedeteca que preze pela qualidade. Im-per-dí-vel!

N O V I D A D E S

* O pernambucano João Fênix está lançando, através da gravadora Biscoito Fino, o seu quinto CD (o quarto gravado em estúdio e o primeiro em que ele se posiciona apenas como intérprete). Intitulado “De Volta ao Começo” (pescado da música homônima de Gonzaguinha), traz, na sintomática capa, uma foto em preto e branco de Fênix enquanto menino e termina por se tornar um mosaico das influências musicais que o tornaram o grande artista que é. Com arranjos assinados pelo competente violonista Jaime Alem e pelo criativo guitarrista JR Tostoi e tendo a banda base completada por Alberto Continentino no contrabaixo e Marcos Suzano com Marcelo Costa nas percussões, o recém-lançado projeto possui uma sonoridade adequada ao atual momento de Fênix: simples e contundente. O álbum traz um repertório de onze faixas, as quais foram escolhidas a dedo e vão da mais recente “Minha Casa” (de Zeca Baleiro) à seminal “Último Desejo” (de Noel Rosa). Os melhores momentos ficam indubitavelmente por conta do insuspeito mergulho em belo tema de Elomar (“Arrumação”, em registro que conta com a rabeca de Nicolas Krassik), da segura releitura de um ótimo lado B da obra de Gilberto Gil (“Língua do P”) e do oportuno resgate de parceria de Pixinguinha com Gastão Vianna (“Yaô”, em gravação cujo destaque é o trombone de Darci do Trombone). Eclético, o disco traz ainda, entre outras, canções assinadas por Caetano Veloso (“Motriz”), Milton Nascimento (“A Feminina Voz do Cantor”, feita com Fernando Brant) e Nelson Cavaquinho (“Minha Festa”). Vale super a pena conhecer!

* O cantor e compositor carioca Macau, compositor do sucesso ”Olhos Coloridos” (funk lançado com grande sucesso pela cantora Sandra de Sá em 1981), estará lançando em breve o EP “Antes que o Dia Acabe”. Quem viver ouvirá!

* O cantor e compositor paulistano Romulo Fróes dá uma pausa em sua carreira eminentemente autoral para mergulhar na seara musical do carioca Nelson Cavaquinho. Declarando ser este sua maior influência, Fróes acaba de lançar, através do selo Sesc, o CD intitulado “Rei Vadio – As Canções de Nelson Cavaquinho”. O álbum, produzido pelo próprio artista, joga luzes sobre quatorze temas compostos pelo homenageado, os quais foram por ele criados com alguns parceiros como Guilherme de Brito, Amado Regis, Alcides Caminha, José Ribeiro, Amâncio Cardoso e Elcio Soares. Cercado de músicos da cena indie atual, a exemplo de Thiago França (sax e flauta), Juliana Perdigão (clarone), Marcelo Cabral (baixo), Rodrigo Campos (violão e cavaquinho) e Guilherme Held (guitarra), Fróes descontrói sambas famosos que já fazem parte do inconsciente coletivo nacional (“Juízo Final”, “Notícia” e “Erva Daninha” estão entre eles), trazendo-os para um universo cheio de estranhezas e barulhos diversos. O bem-vindo projeto conta com as participações mais que especiais de Ná Ozzetti (em “Caminhando”), Dona Inah (em “Eu e as Flores”) e Criolo (em “Luz Negra”). Corra e ouça!

* Já se encontra pronto “Teia”, o CD de inéditas que o sambista Benito Di Paula tenciona lançar até o final deste ano. O novo álbum contará com as participações especiais da cantora Fernanda Takai e do grupo Sambô. A conferir!

* A carioca Luiza Possi nunca teve o rigorismo artístico de sua mãe, a excepcional Zizi Possi, e vem mantendo sua trajetória entre discos mornos e outros interessantes. Infelizmente, o seu novo (e oitavo) CD, sugestivamente intitulado “LP” (as iniciais de seu nome) e produzido a quatro mãos por Rodrigo Gorky e Arthur Gomes, não se posiciona entre os seus melhores trabalhos e muito porque ela insiste em apostar no seu lado de compositora. Cantora de bonita voz, dona de timbre claro e afinado, Luiza escolheu quatro medianas parcerias suas (entre elas “Por Quanto Tempo” e “Aventura”, compostas com Dudu Falcão e Thiaguinho, respectivamente) para figurar entre as dez faixas que compõem o repertório desse disco que chega às lojas de maneira independente. Há também três músicas assinadas pelo já citado Arthur Gomes (duas feitas com Yuri Drummond) que também pouco contribuem para alavancar o álbum (até a boa “Pensando Bem”, de Bruno Calman, surge pouco aproveitada), de forma que os destaques terminam mesmo ficando com a regravação da surrada “Como Eu Quero” (de Leoni e Paula Torres) e com as interessantes “Insight” (de Jaloo – esta, sim, com grande potencial radiofônico) e “O Meu Amor Mora no Rio” (de Pélico).

* Chegou às lojas, no finalzinho do ano passado, o CD “Claudette Soares e a Bossa de Caymmi” no qual a cantora Claudette Soares homenageia Dorival Caymmi. Produzido pela filha do Buda Nagô, Nana Caymmi, e com a direção musical a cargo do pianista Giba Estebez, o álbum possui seu repertório calcado em canções mais intimistas do famoso baiano, tais como “Não Tem Solução”, “Nem Eu” e “Só Louco”. Danilo Caymmi surge como convidado na releitura do samba-canção “Sábado em Copacabana”.

* Nei Lisboa é cantor e compositor gaúcho bastante conhecido em sua aldeia, mas ainda pouco comentado fora dela. A sua maior chance de isso acontecer se deu quando Caetano Veloso regravou sua canção “Pra te Lembrar” para a trilha sonora do filme “Meu Tio Matou um Cara”, transformando-a instantaneamente em hit, mas o fato é que, não obstante dono de vasta discografia e bem gravado por intérpretes de sua terra natal, o talento de Nei verdadeiramente ainda não se fez por reconhecido a nível nacional. Seguindo em frente, ele acaba de colocar no mercado, de maneira independente, um álbum gravado ao vivo, em junho do ano passado, no Salão de Artes da UFRGS, em Porto Alegre, o qual, intitulado “Telas, Tramas & Trapaças do Novo Mundo”, condensa, em dezoito faixas, algumas de suas canções mais conhecidas em novos registros feitos com o auxílio luxuoso da vigorosa banda que o acompanhou na ocasião. Entre outras músicas, estão lá, “Translucidação”, “Produção Urgente”, “Publique-se a Versão”, “A Verdade Não me Ilude” e “Relógios de Sol”, além das inéditas “Para Um”, “A Lei” e ”Pôquer no Escuro”. Para os que porventura ainda não conhecem o trabalho autoral do artista, trata-se de uma ótima oportunidade!

* O cantor e compositor Don Tronxo, parceiro de Alceu Valença em canções como “Moinhos” e “Nas Asas de um Passarinho”, lançou recentemente o CD “Folias de Carnavais” com o qual comemora quatro décadas de carreira. O repertório contempla dezesseis músicas que passeiam por diversos gêneros musicais. E Alceu participa, como convidado especial, da faixa-título e de “Beijando a Flora”.

* Sabedora como poucas dos caminhos do (necessário) marketing musical, a cantora Marisa Monte está pondo nas lojas a compilação intitulada “Coleção”. Trata-se de seu derradeiro trabalho pela gravadora EMI (que lança seus discos desde a sua estreia no mercado em 1989) e, a partir de agora, a diva está livre para gorjear da forma como melhor lhe aprouver. Para um artista comum, o recém-lançado projeto soaria como tão somente uma reunião de fonogramas dispersos. Mas Marisa não é uma qualquer e está divulgando o disco com a mesma voracidade adotada quando lança álbuns inéditos. Para os fãs mais aficcionados, os que a acompanham com afinco, muito pouco há de novidade. Já no que diz respeito ao público em geral, este CD poderá matar a saudade, já que ela não lança nada novo desde 2011 quando saiu seu mais recente disco de estúdio (“O que Você Quer Saber de Verdade”). A coletânea reúne faixas que passam pelas participações dela nos dois volumes do projeto “Red Hot + Rio” (“Nu com a Minha Música”, de Caetano Veloso, e “Waters os March”, versão para o inglês de “Águas de Março”, de Tom Jobim, gravadas respectivamente com Rodrigo Amarante e David Byrne), por temas de produções cinematográficas (“Cama”, dela, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, “Carinhoso”, de Pixinguinha e João de Barro, e “Esqueça”, de Marc Anthony e Roberto Corte Real) e por participações em discos de colegas (“É Doce Morrer no Mar”, de Dorival Caymmi e Jorge Amado com Cesária Évora, “Alta Noite”, de e com Arnaldo Antunes, e “Chuva no Mar”, de Marisa e Arnaldo com a cantora portuguesa Carminho). Há ainda registro ao vivo de encontro com o Café de los Maestros (“Fumando Espero”, de Masanas, Garzo e Eugenio Paes), dois sambas gravados por Marisa em disco de Argemiro Patrocínio (“Dizem que o Amor”, dele e Francisco Santana) e de tributo à Portela (“Volta meu Amor”, de Manacéa e Áurea Maria) e duas apresentações no “iTunes Live from São Paulo”: “A Primeira Pedra” (dela, Arnaldo e Brown com Gustavo Santaolalla, e “Ilusão”, de e com Julieta Venegas).

* Ainda pouco conhecido, o cantor, compositor e ator pernambucano Almério deverá ser a bola da vez quando se efetivar o lançamento de seu aguardado segundo álbum, o qual está sendo viabilizado através de patrocínio do projeto Natura Musical. Com a produção de Juliano Holanda e o possível título de “Desempena”, o CD aportará em breve no mercado.

RUBENS LISBOA é compositor e cantor.

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