MUSIQUALIDADE

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R E S E N H A     1

 

Cantora: MARIA BETHÂNIA

CD: “MAR DE SOPHIA”

Gravadora: BISCOITO FINO

 

A cantora Maria Bethânia acaba de pôr nas lojas, concomitantemente, dois novos CD’s, ambos temáticos. Um deles, lançado pela gravadora Biscoito Fino, recai sobre as águas salgadas e alinhava as canções com trechos de poemas da portuguesa Sophia de Mello Breyner, daí o título: “Mar de Sophia”.

No repertório, Bethânia compila alguns de seus compositores prediletos. Assim, pode-se encontrar Tom Jobim (“As Praias Desertas”), Dorival Caymmi (“Cantiga da Noiva”), Caetano Veloso (“Marinheiro Só”), Roberto Mendes (“Beira-mar”, parceria com Capinam), Chico César (“Grão de Mar”, parceria com Márcio Arantes) e Sueli Costa (musicando “O Mundo é Grande”, de Carlos Drummond de Andrade).

A artista domou o seu canto visceral, característico de trabalhos anteriores, e vem se mostrando cada vez mais contida e doce, muitas vezes apelando quase para o sussurro. Mas nem por isso se torna menos impactante. A baiana continua cantando muito bem e sua voz, inobstante os 60 anos completados este ano, mostra-se em plena forma, permitindo, inclusive, que se arrisque em regiões bem mais agudas que de costume (como em “Canto de Oxum”, de Toquinho e Vinicius), chegando a lembrar os falsetes do mano Caetano.

Produzido pelo experiente Moogie Canazio e levando a assinatura de Jaime Além (maestro que acompanha Bethânia já há um tempo considerável) na direção musical, o passeio bethaniano pelo universo marítimo resultou em um disco intimista, por vezes denso e, por isso mesmo, com poucas chances de uma aceitação radiofônica considerável. É um trabalho muito bem concebido e realizado, mas que inegavelmente vai se voltar para os fãs mais exigentes porque a maioria decerto vai achá-lo estranho.

Contando com as participações especiais de pianistas famosos como João Carlos Assis Brasil (na bela faixa “Lágrima”, insuspeita criação romântica do compositor de sambas e chulas Roque Ferreira) e Antônio Adolfo (em “Poema Azul”, de Sérgio Ricardo), os melhores momentos do álbum são as canções “Debaixo d’Água” (de Arnaldo Antunes), “Iemanjá Rainha do Mar” (de Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro) e “Memórias do Mar” (de Vevé Calazans e Jorge Portugal). Eclética,  Bethânia ainda regravou “Das Maravilhas do Mar, Fez-se o Esplendor de Uma Noite” (de David Corrêa e Jorge Macedo), o samba-enredo da Portela lançado no Carnaval de 1981.

  

R E S E N H A     2

 

Cantora: MARIA BETHÂNIA

CD: “PIRATA”

Gravadora: QUITANDA

 

Embora intitulado “Pirata”, o outro CD que Maria Bethânia acaba de lançar versa sobre as águas doces e desce mais fluido para o ouvinte comum. Também produzido por Canazio e tendo a direção musical assinada por Jaime Alem, o disco chega às lojas através do selo fundado pela própria Bethânia, o Quitanda.

Nele, as canções surgem com citações de autoria de Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Fernando Pessoa e Antônio Vieira (no texto deste, intitulado “Poesia”, há a participação especial do percussionista Naná Vasconcelos ao fundo, executando um baticum de maracatu). Igualmente a “Mar de Sophia”, a cantora percorre o universo de seus autores preferidos. Assim, fazem-se presentes Dorival Caymmi (“História pro Sinhozinho”), Caetano Veloso (“Os Argonautas” e “Onde Eu Nasci Passa um Rio”), Vanessa da Mata (“Sereia de Água Doce”) e a dupla Roberto Mendes e Jorge Portugal (“Memória das Águas”).

Os arranjos, calcados em violões, valorizam a voz da cantora e denotam a sua preferência atual por tons mais baixos.

Já o encarte é um primor! São imagens belíssimas elaboradas por bordadeiras que vivem às margens do Rio São Francisco. Bethânia conheceu o trabalho delas através de um programa televisivo e apaixonou-se imediatamente.

Os maiores destaques deste álbum ficam por conta das faixas “Eu Que Não Sei Quase Nada do Mar” (uma feliz parceria de Ana Carolina com Jorge Vercilo e que já começa a tocar nas rádios), “Santo Amaro” (típico samba de roda do recôncavo baiano, assinado por Roque Ferreira e Délcio Carvalho) e “Água de Cachoeira” (canção de nítida influência africana, pinçada do repertório da sambista carioca Jovelina Pérola Negra).

É Maria Bethânia, mais uma vez, provando que sabe o que quer, que sabe fazer e faz bem! 

 

N O V I D A D E S

 

·               Após quatro anos sem gravar, a banda sergipana Snooze reaparece no cenário musical, lançando seu terceiro trabalho, o qual marca o início de uma nova fase, a começar pela formação (pela primeira vez em estúdio com duas guitarras e três vocais), mas principalmente pela nova dimensão de “banda virtual”. É que apenas dois integrantes do disco (o baterista-fundador Rafael Jr. e o baixista Duardo) permanecem em Aracaju. O vocalista Fabinho mudou-se para São Paulo e os guitarristas Clínio Junior e Marcelo Moura agora residem no Rio de Janeiro e em Brasília, respectivamente. Mas apesar dessa condição sui-generis, a banda mantém-se firme e o novo CD, resultado de uma parceria entre a Monstro Discos (GO) e a Solaris Records (RN), é a maior prova disso. Do repertório constam doze canções que vão de experimentações em estúdio (“Snoozing All the Time” e “Stay with Me”) a músicas nunca executadas ao vivo (“Um Resfriado” eThe Sky and The Rain”). O CD encontra-se à venda nos seguintes locais: Freedom (Rua Santa Luzia, 151) e CD Club Locadora (Avenida Augusto Maynard, 141) Muito legal!

 

·               O gaitista Júlio Vasconcelos estará participando do “Fórum Harmônicas Brasil 2006” que vai se realizar no período de 23 a 25 de novembro em Fortaleza (CE). Ao seu lado, músicos experientes como Robson Fernandes, Pablo Fagundes, Jeovha da Gaita, Gabriel Grosso e Johnny Rover (este, dos Estados Unidos) também estarão participando do evento que é realizado pela Bens Harmônicas. Uma oportunidade sensacional para Sergipe mostrar ao mundo um de seus mais talentosos músicos! Boa sorte para Julinho que é “o cara” e um dos componentes do terceto Café Pequeno (juntamente com Guga Montalvão, no violão, e Pedrinho Mendonça, na percussão), grupo instrumental que vem arrebentando nos palcos sergipanos.

 

·               Na próxima sexta-feira, dia 24, às 20 horas, será lançado na Poyesis Livraria Jazz Café, situada à Rua Vereador João Calazans, 609, o CD “Sons da Mata” do pesquisador e antropólogo Oswaldo Giovannini Junior, o qual inclui gravações feitas diretamente com grupos folclóricos, além de interpretações levadas a cabo por músicos regionais e por corais de jovens adolescentes. O projeto com o folclore da Zona da Mata já vem sendo realizado desde 2002 e envolve várias ações ligadas à cultura tradicional, entre elas: festivais, oficinas permanentes, gravação de documentário e palestras em escolas. O lançamento em Aracaju tem o apoio da Rede Sergipe de Cultura.

 

·               O paraibano Sivuca lança o CD “Terra Esperança” através da gravadora Kuarup, com a produção da esposa, a compositora Glorinha Gadelha. Trata-se de um belíssimo álbum instrumental no qual o músico se cerca de onze dos melhores grupos instrumentais de João Pessoa (PB). Todos os arranjos foram escritos pelo sanfoneiro e as faixas passeiam por vários estilos musicais (jazz, baião, modinha, forró e samba-choro são alguns deles). Destacar alguma faixa é tarefa complexa, mas não dá para deixar de citar “Amoroso Coração”, “A Doce Presença de Nélida”, “Mãe África” e “Comigo Só”. 

  

·               Produzido por Alexandre Fontanetti, chegou recentemente às lojas o terceiro CD da cantora Márcia Salomon. Intitulado “Geminiana”, o trabalho é um lançamento da gravadora Dabliú Discos e mostra uma cantora de voz suave que vem construindo sua carreira à margem dos ditames da moda (leiam-se regravações de autores manjadíssimos e arranjos com aparatos eletrônicos). Só por isso já mereceria louvores, não fosse o álbum uma agradável surpresa. Emoldurado pelo som de belos violões, a sonoridade resvala para o lado acústico e se pecados há, fica por conta do tom pouco dinâmico do repertório. Dentre os destaques encontram-se os registros de “Logradouro” (de Rafael Altério e Kléber Albuquerque), “Não Vale a Pena” (de Jean e Paulo Garfunkel, canção que ficou conhecida na voz da Maria Rita), “Rosa in Blues” (de Roberto Menescal, originalmente composta para a cantora Rosa Maria) e “Fundo Falso” (de Otávio Toledo e J. C. Costa Netto).

 

·               Christiaan Oyens, parceiro de Zélia Duncan em vários dos maiores sucessos da cantora, acaba de lançar, de maneira independente, o CD instrumental “Adeus Paraíso”. Exímio instrumentista, o artista mostra a sua pegada característica nos violões de 6 e 12 cordas, além do weissenborn (tipo de violão havaiano que é tocado deitado no colo, estilo slide com uma barra de metal). A única faixa cantada é “Trem do Horizonte” que conta com a participação especial de Milton Nascimento.

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor


Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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