MUSIQUALIDADE

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R E S E N H A     1

 

Cantora: MÔNICA SALMASO

CD: “NOITES DE GALA, SAMBA NA RUA”

Gravadora: BISCOITO FINO

 

A voz é suave, sai quase num sussurro. O timbre, grave e bonito, foi lapidado em incansáveis aulas de canto. A interpretação é contida, mas nem por isso soa monocórdia; pelo contrário, é no silêncio das respirações (sempre corretas) que se denotam os sentimentos impregnados (e empregados) em cada canção. Está a se falar de Mônica Salmaso, cantora ainda pouco conhecida pelo grande público, porém uma das preferidas atualmente pela crítica especializada.

Paulista, Salmaso iniciou a carreira em 1989, na peça “O Concílio do Amor”, dirigida pelo renomado Gabriel Vilela. Em 1995, lançou o primeiro CD, junto com o violonista Paulo Bellinati, intitulado “Afro-Sambas”, no qual revisitou a obra de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Em seguida, vieram “Trampolim” (em 1998), “Voadeira” (em 1999) e “Iaiá” (em 2004).

Acaba de chegar às lojas, através da gravadora Biscoito Fino, o seu novo álbum. Intitulado “Noites de Gala, Samba na Rua” (retirado de versos da canção “Quem Te Viu, Quem te Vê”, presente no repertório), é totalmente dedicado às canções de Chico Buarque, a quem, no encarte, Salmaso diz ter lhe ensinado a alma e a cultura brasileiras, juntamente com Dorival Caymmi.

Na verdade, a aproximação real com Chico surgiu no ano passado quando o compositor a convidou para fazer uma participação especial na faixa “Imagina”, presente em seu último disco, o combalido “Carioca”.

No trabalho recém-lançado, Salmaso, acertadamente, convidou o Pau Brasil para acompanhá-la. Formado só por feras (Nelson Ayres no piano, Teco Cardoso no sax e flautas, Ricardo Mosca na bateria e percussão, Paulo Bellinati no violão e cavaquinho, Rodolfo Stroeter no baixo), o grupo conferiu uma sonoridade toda especial, revestindo as obras-primas de Chico com arranjos delicados e criativos na dose certa. Feitos sob medida para a voz de Salmaso, esta termina soando como um instrumento a mais, o que transforma o CD, com personalidade e elegância, no melhor de sua discografia.

Os destaques (difíceis de explicitar pela qualidade fantástica do resultado final) ficam por conta dos hits “Construção”, “Morena dos Olhos d’Água” e “Partido Alto” e das menos conhecidas “Logo Eu?”, “Basta Um Dia” e “Bom Tempo”.

Imperdível!

 

 

R E S E N H A     2

 

Cantor: ZÉ DE RIBA

CD: “REPROCESSO”

Gravadora: URBAN JUNGLE RECORDS

 

O que mais chamou a atenção quando a cantora Simone lançou, em 2001, o seu CD “Seda Pura” foi a presença, no repertório, de duas canções de um compositor nunca antes gravado por outro grande nome da MPB: o maranhense Zé de Riba, responsável pelas faixas “www.sem” e “Fuga nº 1”, duas das mais interessantes daquele trabalho.

Alguns anos depois daquele que poderia ter sido o empurrão definitivo em sua carreira, chega às lojas o primeiro álbum oficial de Zé, intitulado “Reprocesso” (antes, ele tinha lançado, em tiragens não oficiais, os discos “Pancada Seca” e “Cara dum Cara do Outro”). Com produção assinada por Mano Bop, as treze faixas (todas de autoria do próprio artista, algumas delas com parceiros) ganham contornos eletrônicos e chegam a viajar até pelo rap.

Zé de Riba começou a tocar ainda adolescente. Filho exilado do Nordeste, diz-se um poeta de rua que encontra sua inspiração na miscigenação cultural, nas crendices do interior e nas contradições urbanas. Junta tudo isso em seu liquidificador criativo e serve doses misturadas com vários ritmos. Cria personagens que, ao protagonizarem suas letras, mostram os dilemas do homem moderno. No entanto – que fique claro! – sua poesia traz sempre a visão do homem simples. Nada de rebuscado, pois a linguagem escolhida é a do dia-a-dia.

Assim, há espaço para o ambulante de ônibus (“Oito Pilha Um Real”), para o enrolado que pede um troco para comprar o ‘cigarrinho do diabo’ (“Juvenal”) e para a amiga que lhe convida pr’uma festa que termina em pancadaria (“Samba da Dalgisa”). Por outro lado, enquanto “Banto” mergulha nas raízes africanas, criando uma roda de capoeira psicodélica, “Moça de Rua” se transforma em forró estilizado, com direito a inserção de guitarra. Na obra de Zé, notam-se influências de Tom Zé (em “Sabe Alencar”) e Adoniran Barbosa (em “1,99”).

Integrantes da banda Nação Zumbi aparecem na faixa-título e André Abujamra faz uma participação especial no quase samba-enredo “Desempregado”, um dos melhores momentos do disco, ao lado do funk “Valente Tupi” e de “Samba pro Bocato” (canção feita em homenagem ao festejado trombonista).

Boa pedida!

 

N O V I D A D E S

 

·               Infelizmente cada vez mais distante da MPB, a cantora Zizi Possi confirma a gravação ao vivo de show que vai realizar em breve com a Orquestra Sinfônica de Heliópolis. O repertório será todo ele composto por músicas clássicas.

 

·                O competente Rildo Hora está produzindo um álbum com artistas brasileiros que servirá para inaugurar um novo selo na Inglaterra. Dentre os confirmados estão Elza Soares, Jair Rodrigues e Luciana Mello.

 

·               Depois de fazer uma homenagem à obra de Odair José em 2005 através do CD “Eu Vou Tirar Você desse Lugar”, o selo Allegro Discos, de Goiânia (GO), lança novo tributo aos artistas considerados mais populares e que tiveram o auge de suas carreiras na década de setenta. O álbum “Eu Não Sou Cachorro, Mesmo” traz, com roupagem moderninha, treze canções que se transformaram em sucesso nas vozes de artistas como Waldick Soriano (“Tortura de Amor”, na interpretação lusitana na banda Clã), Reginaldo Rossi (“Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme”, com o grupo Laranja Freak), Benito di Paula (“Retalhos de Cetim”, desconstruída magistralmente pelo grupo Os The Darma Lovers), Lindomar Castilho (“Você É Doida Demais”, com a banda Los Diaños) e José Augusto (“De Que Vale Ter Tudo na Vida?”, com o grupo Rádio de Outono).

 

·               A banda Charlie Brown Jr. está prestes a lançar, através da gravadora EMI, um novo e esperado CD. Contendo 19 faixas (algumas delas integrantes da trilha do filme “O Magnata”, idealizado pelo vocalista Chorão e estrelado pelo ator Paulo Vilhena), o primeiro destaque do repertório é a canção “Não Viva em Vão” que já começa a tocar nas rádios.

 

·               Chegará às lojas ainda este mês o segundo CD solo de Paula Toller, a vocalista da banda Kid Abelha. O repertório é inédito e traz parcerias de Paula com vários compositores, tanto jovens quanto consagrados. Desse time fazem parte Dado Villa-Lobos e Paul Ralphes, que também assina a produção do trabalho. O novo disco contará também com músicas dos compositores estrangeiros Jesse Harris, Donavon Frankenreiter e Kevin Johansen.

 

·               Para quem gosta de música suave, uma boa pedida é o CD “Kandagawa” da cantora Kay Lyra. A bela morena de pele alva é filha do compositor Carlos Lyra, autor de grandes sucessos da bossa-nova, com a atriz americana Kate Lyra (aquela do bordão: “Mas brasileiro é tão bonzinho!”) e mostra-se bastante à vontade no bom álbum que acaba de chegar às lojas e que leva a assinatura de Maurício Maestro na direção musical. Kay possui uma voz muito agradável e seu cantar, quase que sussurrado, se transforma em um charme à parte. Há canções em português (“Faz Parte do Meu Show”, de Cazuza e Renato Ladeira) e em inglês (“Lucy in the Sky with Diamonds”, de John Lennon e Paul McCartney). Mas os destaques ficam por conta de “Canto do Paraíso”, “The Night Will Fall” e “Epigrama”, esta musicada sobre poema de Cecília Meireles. Do papai famoso, Kay regravou “Maria Moita” (parceria com Vinicius de Moraes que ainda está presente no álbum com a faixa “Garota de Ipanema”, dele e de Tom Jobim).

 

·               A cantora mineira Tânia Bicalho já possui dois CD’s lançados e no momento está terminando de gravar o seu terceiro trabalho que leva a assinatura de Sérgio Natureza na produção. Com arranjos do maestro Jaime Além (o preferido de Maria Bethânia), o disco trará no repertório canções assinadas por Luhli, Lucina, Fred Martins e Sérgio Sampaio, além de uma inédita que lhe foi presenteada por Zeca Baleiro.

 

·               O terceiro CD de Maria Rita já começa a ser formatado e deverá chegar às lojas em setembro próximo. Enquanto escolhe o repertório dentre as dezenas de canções que tem recebido, a filha de Elis Regina já dá como certo o nome de Leandro Sapucahy como o produtor oficial do novo e esperado álbum.

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor


Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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