Na violência o Brasil é mais desigual e preconceituoso

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Os números sobre homicídios no Brasil são alarmantes, é como se o país vivesse numa guerra sem fim, e o cenário recentemente revelado pelo Atlas da Violência 2019 mostra que nossa triste realidade só tende a piorar.

A publicação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com base em dados oficiais do Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde (SIM/MS), desta vez reporta ao ano 2017, quando houve 65.602 homicídios no Brasil, o que equivale a uma taxa de aproximadamente 31,6 mortes para cada cem mil habitantes. Trata-se do maior nível histórico de letalidade violenta intencional no país.

As taxas de homicídio no Brasil são cinco vezes a média global e a Organização Mundial da Saúde considera epidêmicos os índices superiores a 10 mortes violentas por cada grupo de 100 mil habitantes do lugar.

Os meninos do Brasil estão correndo perigo: 59,1% do total de óbitos de homens entre 15 e 19 anos de idade são ocasionados por homicídio. Em 2017, 35.783 jovens foram assassinados no Brasil. Esse número representa uma taxa de 69,9 homicídios para cada 100 mil jovens no país, taxa recorde nos últimos dez anos.

Observando especificamente o grupo dos jovens do sexo masculino, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes quase duplica e chega a 130,4 por 100 mil.

Em Sergipe, sexto estado mais violento para os jovens, a taxa foi de 125,5/100 mil — embora tenha havido uma redução de 12,1% em relação a 2016. Entre homens jovens, a taxa por aqui sobe para escandalosos 240,5 assassinatos por grupo de 100 mil indivíduos nessa faixa de idade, ainda que haja o atenuante da redução de 14,3% das mortes em relação a 2016.

Na faixa dos 15 aos 29 anos, 767 jovens do sexo masculino foram assassinados em Sergipe em 2017.

Se o cenário é dramático para o povo brasileiro e assustador para os mais jovens, para a população negra a violência é ainda mais absurda. Os dados descritos no relatório trazem evidências de um processo extremamente preocupante nos últimos anos: o aumento da violência letal contra públicos específicos, incluindo principalmente negros, população LGBTI e mulheres.

O Atlas da Violência 2019 confirmou o contínuo processo de aprofundamento da desigualdade racial nos indicadores de violência letal no Brasil, já apontado em outras edições. Em 2017, 75,5% das vítimas de homicídios foram indivíduos negros (definidos aqui como a soma de indivíduos pretos ou pardos, segundo a classificação do IBGE, utilizada também pelo SIM), sendo que a taxa de homicídios por 100 mil negros foi de 43,1, ao passo que a taxa de não negros (brancos, amarelos e indígenas) foi de 16,0.

Ou seja, proporcionalmente às respectivas populações, para cada indivíduo não negro que sofreu homicídio em 2017, aproximadamente, três negros foram mortos. No período de uma década (2007 a 2017), a taxa de negros mortos cresceu 33,1%, já a de não negros apresentou um pequeno crescimento de 3,3%.

Os cinco estados com maiores taxas de homicídios de negros estão localizados na região Nordeste. Em 2017, o Rio Grande do Norte apresentou a taxa mais alta, com 87 mortos a cada 100 mil habitantes negros, mais do que o dobro da taxa nacional, seguido por Ceará (75,6), Pernambuco (73,2), Sergipe (68,8) e Alagoas (67,9).

Novamente o Rio Grande do Norte aparece nessa lista como detentora do maior índice de crescimento da taxa de homicídio de negros: 333,3%. Seguindo a lista, outros estados com crescimento acentuado desse índice foram o Acre (+276,8%), o Ceará (+207,6%) e, novamente, Sergipe (155,9%).

Proporcionalmente, Sergipe é o quarto estado mais violento para a população negra e o quarto onde a violência contra o negro mais cresceu em dez anos. Em números absolutos, o menor estado da Federação e que possui uma das menores populações é o décimo mais violento para os negros, com 1.232 mortes de indivíduos dessa etnia registradas em 2017. Aqui se mata quatro vezes mais negros do que não negros.

O Atlas da Violência 2019, além de reafirmar que o Brasil é extremamente violento e que as mortes violentas se multiplicaram com o domínio das organizações criminosas sobre as regiões Norte e Nordeste, confirma a brutal desigualdade social e o incurável preconceito racial, ambos alimentados por nossos dirigentes e nossa elite, que contaminam o povo brasileiro.

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