Não é uma revolução

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Revolução é a tentativa, acompanhada do uso da violência, de derrubar as autoridades políticas existentes e de as substituir, a fim de efetuar profundas mudanças nas relações políticas, no ordenamento jurídico-constitucional e na esfera sócio-econômica. A definição é do Dicionário de Política, de Norberto Bobbio et alii.

Não parecem ser estes os objetivos das manifestações que se veem há uma semana no Brasil, melhor definidas como uma rebelião ou revolta, pois isentas de motivações ideológicas, sem propugnar a subversão total da ordem constituída, mas o retorno aos princípios que deveriam regular as relações entre as autoridades políticas e os cidadãos, visando à satisfação imediata de reivindicações políticas e econômicas. Movimento popular, a rebelião ou revolta pode, portanto, ser acalmada por meio de concessões econômicas, diz a referida obra.

O que não se pode é ignorar ou subestimar o barulho que vem das ruas. Tem muita gente, da esquerda principalmente, desmerecendo essa juventude apolítica (entre aspas), com as caras alegremente pintadas e cartazes estudantis nas mãos, porque os jovens de hoje não saberiam, não teriam motivos e nem focos específicos para protestar.

Alguém precisava dizer para os nossos governantes: o futuro do Brasil está nas ruas! A presidenta Dilma Rousseff parece ter compreendido isso e na noite de sexta-feira anunciou que vai destinar os royalties do petróleo para a educação, vai mesmo reforçar a atenção à saúde com médicos estrangeiros e está aberta ao diálogo com os representantes dos movimentos populares.

"Não é por centavos, é por direitos"; “Ou para a roubalheira ou paramos o Brasil”; “Fora corrupção, não aguento mais” foram algumas das frases lidas nos cartazes dos manifestantes, que não gritam propriamente uma palavra de ordem, como já gritamos “Diretas já” e “Fora Collor”, mas descarregam um sentimento contido de que não dá mais para suportar esse estado de coisas que institucionalizou a corrupção, a impunidade e a violência em detrimento da prestação de serviços minimamente adequados às necessidades dos cidadãos.

Aliás, registre-se, no primeiro momento, essa raiva explodiu na violência contra tudo o que represente o poder estabelecido, público ou privado. Daí os ataques aos palácios, à polícia, aos ônibus e aos bancos. E aos partidos políticos. Depois, aproveitando-se da onda humana, como é previsível, vieram os aproveitadores e saqueadores. Diga-se que a larga maioria dos manifestantes é apartidária, tem formação universitária e nada a ver com bandidagem. Muitos são provavelmente filhos da nova classe média que ascendeu neste século 21.

A gente não quer só comida, poderiam dizer, parafraseando os Titãs e lembrando que, se o Brasil avançou, constituindo-se uma economia forte, reduzindo a pobreza e tornando-se protagonista da geopolítica mundial, ainda não atende com dignidade e suficiência as necessidades dos brasileiros.

Numa situação como esta, às vezes quem olha de fora vê melhor. Juan Arias, correspondente do jornal espanhol El País, viu que os jovens brasileiros querem "serviços públicos de primeiro mundo; querem uma escola que, além de acolhê-los, lhes ensine com qualidade, o que não existe; querem uma universidade que não seja politizada, ideologizada ou burocrática. Querem que ela seja moderna, viva, que os prepare para o trabalho futuro".

Mais: "Querem hospitais com dignidade, sem meses de espera, onde sejam tratados como seres humanos, e querem, sobretudo, o que ainda lhes falta politicamente: uma democracia mais madura, em que a polícia não atue como na ditadura". Enfim: "Querem um Brasil melhor. Nada mais."

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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