Não esqueça de Exu no Carnaval

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Anos pandêmicos são mesmo atípicos. Festas coletivas canceladas, rituais religiosos reduzidos, eventos de trabalho de maneira virtual. No país da folia, até o Carnaval entrou em recesso. Mas como o Brasil é um país que não se leva a sério, podemos aguardar as próximas notícias sobre festas clandestinas e bloquinhos organizados para não deixar passar uma data tão simbólica e importante para o país. Afinal, o que são mais de 200 mil mortos por um vírus, uma crise econômica severa, escândalos judiciais com alcance global, perto de uma festa tradicional para desopilar a mente e cuidar da saúde mental, já que 2020 não foi fácil para todo mundo?

 

Porém, com toda essa discussão para buscar culpados e sobre a moral para ver quem tira o seu da reta primeiro, esquecemos de olhar para quem mais tem responsabilidade nisso tudo: nós. E é aí que eu penso em um dos mitos de Exu no Carnaval, nesse caso, estou usando a palavra mito como narrativa, relato da tradição oral sobre seres da natureza. Exu, Orixá ou divindade da comunicação, mensageiro dos mundos, dos caminhos, que transita em todos os espaços, e que por vezes é confundido com o Diabo por sua irreverência e associações com características da humanidade, saiu certa vez para brincar na rua, dançar, beber, fumar, com o intuito de verificar quem tinha pedido permissão para estar na festa bebendo, fumando e curtindo.

 

Para Exu, a comida deve ser ofertada para que ele possa trazer proteção nos momentos festivos, de exposição na rua, mas no Carnaval, muitos acabam esquecendo de Exu e das entidades que o acompanham, como as pombagiras, por exemplo. E aí, ficam desprotegidos em suas ações e escolhas, trazendo consequências nem sempre agradáveis. Mas é aí que está, Exu não castiga, aliás, Orixás, divindades, santos, entidades, do que quer que sejam chamados, não lançam castigos sobre os seres humanos. Temos o livre-arbítrio para escolher os caminhos a seguir, e se garantir no divino mesmo fazendo escolhas arriscadas e perigosas não é um problema do sagrado, mas nosso, que vivemos buscando justificativas para não enxergar nossa própria responsabilidade.

 

Exu é confundido como ruim porque lança sem dó as lições que precisamos, pois ele reflete as ações e anseios mais profundos e que desejamos alcançar, por isso a lascívia, a luxúria, os desejos são tão latentes em períodos festivos, de contato com os corpos e com substâncias que liberam as vontades que sempre estiveram ali. Se pensarmos no contexto pandêmico, o mesmo acontece com o vírus por aí. Sabemos o que temos que fazer, o que temos que recusar, do que temos que nos privar para nos proteger. Sabemos também da responsabilidade de nossas ações nos variados atos de roleta-russa que cometemos diariamente com ou sem vírus circulando.

 

Eu acho que de tanto Exu circular entre nós, os seres humanos passaram a se confundir com as entidades, que não adoecem, que não se agravam, que terão sempre mais um dia, uma semana, um mês, um ano para postergar, resolver, porque afinal, as entidades não morrem. Segundo um dito em iorubá, utilizado pelo cantor Emicida em seu documentário Amarelo, “Exu matou um pássaro hoje com a pedra que lançou ontem”, ou seja, quando ele lança a pedra de costas para matar o pássaro do dia anterior, ele recria o passado e aponta que as coisas podem ser ressignificadas a qualquer momento. Assim podemos pensar o atual contexto, pois não estamos captando a mensagem que Exu deixou. Exu reinventa o tempo, por isso nunca é tarde, mas tudo é para ontem.

 

Por isso, não esqueça de Exu no Carnaval.

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