O Bode na Sala e a Cabra Expiatória.

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Aqueles que detestam Lula e sua criatura, a Presidente Dilma Rousseff, lutam com uma realidade sobremodo incomoda. As pesquisas eleitorais continuam a favorecê-los, à falta de outra liderança no cenário político atual.

Neste sentido, os anti-Lula “at all” estão órfãos já de longa data.

Não aparece nenhum nome que encarne uma liderança carismática, alguém cujo discurso galvanize um novo caminhar para o país e que seja consistente a tamanho desencanto.

Qual seria este novo caminhar que em carpição raivosa e capciosa tem tentado experimental variado tipo de droga, do lícito ao ilícito, algo que satisfaça suas angústias e frustrações?

E neste estuário frustrante e ilusório, tão conspícuo quão digno de uma própria crackolândia, entenda-se por toxidez lícita o vasto ideário político partidário no amplo espectro de siglas e programas, onde o mais legal pode ser entendido como a alternativa paulistana de PT e PSDB.

Enquanto o alucinógeno ilícito é acionado para desfrutes de experimentação, tão exóticas como idílicas, seja como a tentativa pernambucana de um PSB, que se diz socialista, mas não o bastante, seja pela rede de tucum da Marina Silva, que pretende recolher muitos baiacus, para conjugar a velha coceira de panças recheadas, em solfejo de hinário realejo, pela vanguarda do atraso, ou…  alguém, que por herbário mais ordinário, surja com aura de santo a curar quebranto.

'Ou seja: contra “o apedeuta Lula” e sua companhia tudo ajuda, até quebrar santo'.

Vale até mesmo semear uma dissidência em sua base ideológica, de consistência tão fugaz quanto dispersa, útil para satisfazer o latente contexto de insatisfação epidérmica.

Mas eis que uma explosão paquidérmica tomou conta das ruas em rugido pouco entendido contra tudo “que aí está”, e todos os partidos.

Multidão brandindo uma insatisfação hostil, não contra Lula, nem contra Dilma, a sua incubação e preferencial criatura, mas contra um vasto elenco de governantes, aí incluídos, sobremodo, os prefeitos recentemente eleitos das cidades, de quem se esperaria que estivessem a viver nos primeiros seis meses de mandato numa deliciosa lua de mel contenciosa.

Porém, mediante contenciosos voluntariosos ou capciosos, eis que ressurgiram as passeatas, com os insatisfeitos de sempre; velhas e velhos, coroas de todos os gêneros (não de dois exclusivos, mas de três, quatro ou mais, por modernidade), jovens imaturos e até lactentes cavalgando os velocípedes da história.

Os velhos, repetindo-se como aqueles rebeldes liberados por José Dirceu em 1968, responsáveis pela fechadura e canadura da ditadura que se seguiu para amadurecimento do Brasil.

Os bem maduros e imaturos ainda, saudosos daqueles outros que nas “Diretas Já”, não só entronizaram Tancredo e Sarney no tapetão eleitoral, como depois elegeram Collor em primeiro pleito majoritário.

Os de maduração mediana, saudosos dos “caras-pintadas” que impeacharam um presidente de não seu agrado, e tantas outras tentativas de rala maduração, que em todo ano e a cada seis meses bradam “Fora!” ao Presidente de plantão.

Gritos imaturos a confirmar que neste país, por maioria, as pessoas continuam a apodrecer sem conseguir amadurecer.

E ainda dizem que estão a “acordar o Gigante!”

Uma miséria que é transmitida não só por genética e hereditariedade, como por imitação e empulhação, afinal tal ilusão é uma repetida comédia bufa na nossa história, piada espraiada de pai para filho, e até avô, bisavô…, como glória de uma quimera libertária em desordem e improvisação.

Porque a desordem, fruto do grito senil e irresponsável, mesmeriza a multidão descabeçada, sobretudo aquela súcia que se crê fazendo história; “acordando o gigante”, desembestando-o como tolo mamute, um brutamonte pior que o rinoceronte, por destrutivo e bem mais míope.

E aí eu explicito minha divergência maior ao contemplar tanto quebra-quebra televisivo, e isso ser entendido como um real vigor da nossa democracia, a merecer o aplauso máximo e unânime e tantos parabéns de governantes quase apedrejados e escalpelados.

Porque com destruições e cegueiras em tais passeatas ditas “apolíticas”, eu não visualizo nem o progresso muito menos o aperfeiçoamento das instituições democráticas.

Por outro lado, sem piquete ou quebra-quebra, qualquer passeata vira procissão; séquito colorido de conversos, préstito invertido de reversos, ou cortejos mal conversos de poucos religiosos; procissão nunca perigosa, por asta e casta, a exibir um restrito prestígio por ausência de litígio, sem arrasto, sem malícia e sem vestígio. Nada do que era a razão e a intenção das passeatas. Nenhuma delas por origem.

Infelizmente, segundo a grande imprensa, houve a ação da polícia e aqueles conversos angelicais, em tantos reversos florais, saíram quebrando tudo a pau, ressuscitando o vandalismo barbárico das gentes incultas.

E quando o descalabro restou sem contornos e sem rumo, numa insatisfação geral e irrestrita, sobrou mais uma vez para o cidadão pagador geral de impostos, afinal o transporte público usado por alguns vai ser remunerado pelo bolso alheio.

Mas, num outro retorço desse aperreio, eis a besta já selada e a contenda desviada: jogaram no colo da Presidente Dilma a insatisfação geral agora apontada, caindo brusca e abruptamente os índices de satisfação de seu governo.

Em verdade, dá-se para ver que houve uma manipulação da turma destramelada, suscitando ampla desordem, com direito até a “lockout”, ou greve patronal, com os caminhões paralisando estradas para não pagar pedágio e reivindicando subsídios de combustíveis.

Ou seja; “a viúva” deve bancar tudo, porque já pagamos muitos impostos.

E pelo dealbar da passeata, Já dá para se ver que o descaminho retirou a saúde e a educação do plano de prioridade da nação.

Mas, se a pauta de pedidos é muito ampla, restou a velha discussão de mudança da legislação político-eleitoral, afinal sobre os políticos cabe bem maior a decepção.

E assim por divagação de fumaça botocuda, tenta-se conduzir uma pajelança com panaceias pataxós, em cacarejos carijós, tipo voto distrital misto, que ninguém sabe o que é; proibições de coligações que todo deputado ama e requer; financiamento público de campanha em mais sangria do erário, extinção do ervanário de todo Vice, viciado por não ter voto, mas que poucos ousam repelir; tudo que é tema de político abominado por detentores de mandato, sem que ninguém proponha cláusulas de inelegibilidade, proibição ampla de reeleição sucessiva, ou mecanismo “recall” de cassação de mandato via urna, temas que a passeata bem aprovaria.

Neste particular a Presidente Dilma tocou nos calos de muitos, ensejando uma velha discussão; a nossa Constituição é tão pétrea e imutável assim, só porque se detalhou demais e não previu o seu fim?

Eis o bode então na sala a espera da mitigação dos anseios.

Em outros anseios e meios, dizia Getúlio Vargas, o melhor aporte e maior estadista da nossa República, que “as constituições como as mulheres só se fertilizam quando violadas”. Getúlio que fora um conhecedor de constituições, não por ser jurista e analista, mas por ser um seu real suporte e avalista.

Desvalidando este meu externar, dirão que estou a dissertar besteiras, afinal Getúlio Vargas fora um ditador!  E vivemos um tempo onde não cabem mais ditaduras e todos os povos imitam a democracia nos moldes norte americanos.

Mas a Constituição americana é enxuta e precisa; não é eivada de cláusulas pétreas e impedimentos genéricos que paralisam a boa gestão e a rapidez da ação. Os Constituintes americanos não tiveram a ousadia de engendrar um Estado estatolatra, onipotente e onisciente demiurgo, capaz de poder solucionar toda dificuldade econômica ou social.

De modo que eis o bode inserido na sala, a espantar muitos, porque uma constituinte exclusiva é um desejo que poderá um dia, quem o sabe (?), provocar um vespeiro maior que as manifestações de agora.

Porque em verdade, este “desencanto com tudo” não se restringe a transporte público dispendiosos e de baixa qualidade, educação deficiente, saúde degradada e serviços públicos ineficientes.

O desencanto é bem maior.

É um desencantamento que se estende sobre o decantado “estado democrático de direito”, figura gongórica por retórica, que coonestou e referendou a patrimonialização crescente do Estado, privilegiando principescas classes da nomenclatura republicana, favelizando a grande maioria da sociedade obreira, que se vê desesperançada no estágio atual de império da lei, ordenamento jurídico que pererniza a exclusão social.

E se a mamutada resolver sair pela rua, desenfreada e fula da vida, contra este petrino constitucional, alguém em tantos parabéns generalizados à democracia ousará se opor a uma sua ampla reforma mediante consulta popular?

Eis aí uma preocupação, afinal sempre é possível piorar quando o Brasil resolve acordar.

Por enquanto o bode está na sala, cheirando mal, é verdade! Mesmo sabendo que as propostas de mudanças enviadas pela Presidente Dilma foram muito modestas, para tantas insatisfações generalizadas.

Tão modestas e pouco indigestas que as propostas de Dilma Rousseff não só matarão o bode catingoso, como à falta de ousadia no seu contencioso confesso, o conciliábulo político bem poderá repetir a famosa frase de Stanislaw Ponte Preta, afinal há “caras que cruzam cabra com periscópio pra ver se conseguem um bode expiatório”.

Seria a Presidente Dilma esta ideal cabra expiatória?

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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