O CENTENÁRIO DE CARLOS FIRPO

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          A Academia Sergipana de Medicina vai celebrar em maio o centenário de nascimento do médico Carlos Firpo, nascido em Aracaju em 1912. Não

Carlos Firpo discursa em solenidade no Hospital Santa Isabel, em 1958.Sentados, à direita, Juliano Simões e Seixas Dória.

fosse a presença viva entre nós do Dicionário Biográfico de Médicos de Sergipe, essa data seguramente passaria despercebida, não só pela falta de iniciativa da família que, ao que parece, possui hoje um número reduzido de integrantes, como também pela ausência temporária, espero, do historiador Luiz Antonio Barreto,  pessoa que certamente faria, com propriedade, um panegírico mais gabaritado do saudoso esculápio.
          Por outro lado, a forma brutal do seu falecimento, ocorrido em 29 de abril de 1958, assassinado enquanto dormia em sua residência na Rua Campos, crime até hoje não devidamente elucidado que abalou a sociedade sergipana e que gerou tanta discussão e controvérsia, com várias hipóteses levantadas sobre as motivações do crime, fez com que, de certa forma, a história de vida do médico fosse colocada em segundo plano, minimizando a sua atuação como médico humanitário, político afirmativo e administrador eficiente.
          Filho do casal  João Firpo e Antonia Menezes Firpo, Carlos Alberto de Menezes Firpo nasceu em Aracaju em 14 de abril de 1912. Em 1933 formou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia, sendo colega de turma de Garcia Moreno, do qual foi amigo fraterno. O irmão mais velho, João Firpo, já possuía fama de grande médico ginecologista e obstetra, muito estimado por seus clientes pela forma humanitária como atendia a todos que o procurava. Morreu jovem, em 1945, com 47 anos, após presidir o Instituto Parreiras Horta, sucedendo ao seu criador, quando de sua volta para o Rio de Janeiro.
         Inspirado no irmão, Carlos seguiu a mesma linha de conduta, atendendo a população mais carente no Hospital Santa Isabel. Mas possuía também um gosto especial pela política. Durante a ditadura de Vargas e na segunda interventoria de Augusto Maynard, Carlos Firpo assumiu o comando da cidade como prefeito nomeado de Aracaju, permanecendo no cargo por menos de dois anos (1941-1942). Prócer udenista, atingiu no final da década de 40 e durante a de 50, o seu apogeu como administrador, presidindo a Sociedade Médica de Sergipe de 1952 a 1954, assumindo o cargo em função da renúncia inesperada do fraterno amigo Garcia Moreno. Já como diretor do Hospital Santa Isabel, função que desempenhou a partir de 1949, empreendeu uma total transformação na estrutura da secular instituição, preparando-a para os novos tempos.
         Com a assinatura de vários convênios, entre eles o do IAPI, que aumentou consideravelmente a subvenção do Hospital Santa Isabel, Carlos construiu a maternidade, implantou os serviços de RX e laboratório, uma lavanderia mecânica, edificou a clausura das Irmãs, o centro cirúrgico, estendendo todos os benefícios aos mais carentes, aos pobres indigentes. Permaneceu no cargo por nove anos, até a sua morte. Militante político, udenista atuante e influente, com a chegada das eleições que escolheriam o sucessor de Leandro Maciel, começou a lutar com afinco para ter o seu nome acolhido como vice-governador na chapa de Heribaldo Vieira. Entretanto, ambos não eram os preferidos da cúpula udenista. Mas Carlos lutava pela indicação, acreditando ser o nome certo para suceder ao seu estimado amigo Dr. José Machado de Souza, vice-governador de então. Era muito querido pela população, médico humanista de muito labor e coragem.
            No tempo da 2ª Grande Guerra, mais precisamente em 1942, Carlos havia se casado com Milena Napolioni Mandarino, moça muito bonita, de pele bem alva e modos requintados, filha do imigrante italiano Nicola Mandarino, que se radicou e progrediu em Aracaju na área do comércio. Na madrugada de 29 de abril de 1959, enquanto dormia em sua residência da Rua Campos, com toda a família na casa, a vida de Carlos Firpo foi barbaramente subtraída por criminosos, encerrando uma trajetória ascendente e promissora.
           Como tão bem escreveu Garcia Moreno, na crônica Romaria de Saudade,  proferida na solenidade que assinalou o trigésimo dia da morte do ilustre sergipano, o nome de Carlos Firpo adquiriu, pela morte estúpida, um sentido de tragédia. E sentenciou: “A ele estará sempre associado um estremecimento emotivo da alma sergipana. Seria, pois, uma permanência triste, uma imortalidade melancólica, guardá-lo, exclusivamente, tinto de sangue e mergulhado na traição. Os seus verdadeiros amigos e o povo a que ele serviu possuem outro caminho para marmorizar-lhe a memória. É engrandecer-lhe a obra. É seguir e aviventar o seu exemplo. Fazer do seu hospital e de sua maternidade instituições dignas dos sonhos que tivera, a continuidade de seus esforços, os monumentos que o resguardam do esquecimento. Assim, só assim, o seu nome ganhará o sentido pelo qual viveu e lutou”.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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