O diário de Agnès Humbert: um relato de resistência

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Raquel Anne Lima de Assis
Mestranda em História Comparada pela UFRJ (PPGHC)
Bolsista Capes
Integrante do Grupo de Estudo do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)
Email: raquel@getempo.org 
Orientador: Dr. Dilton Cândido S. Maynard (PPGHC/UFRJ-UFS/DHI)

Trabalho apoiado pelo projeto "Quando a Guerra chegou ao Brasil: Ataques submarinos e memórias nos mares de Sergipe e Bahia (1942-1945)", Edital Universal CNPq 2014.

Em 1940, a França foi invadida pelas forças alemãs em pleno contexto da II Guerra Mundial. Diante deste cenário, diferentes grupos organizaram movimentos de resistência contra o invasor. Exemplo deste tipo de ação pode ser verificado no diário de Agnès Humbert. Publicado em 1946, trata-se do seu relato em sua experiência na resistência contra essa ocupação nazista e do governo colaborador de Vichy e, consequente prisão e trabalhos forçados como pena por estes atos. Enquanto estava livre ela escrevia quase diariamente em seu diário, mas durante a prisão não tinha esse privilégio. Contudo, com ajuda de sua memória conseguiu registrar, quatro anos depois, sua experiência enquanto prisioneira como se estivesse escrevendo no calor do momento. Desta forma, mesmo o registro sendo posterior, Agnès Humbert escrevia no estilo de um diário como se os fatos ocorressem no presente.
Porém, mesmo com a riqueza de detalhes, é preciso ter cuidado com as armadilhas da memória e do esquecimento. Além da possibilidade de ocultar algumas informações para evitar tensões ou problemas com partes envolvidas ou ainda pela falta de conhecimento. Provavelmente ela não tinha acesso a todas as conexões, contatos e ações do que envolviam o grupo a qual fazia parte. Trata-se de um relato a partir do seu ponto de vista, tendo, portanto, algumas lacunas. 
Agnès Humbert era uma intelectual, historiadora da arte e trabalhava em um cargo importante no Museu Nacional de Artes e Tradições Populares em Paris. Ela, assim como seus amigos do Museu do Homem, ficou desolada quando a França foi ocupada pelos alemães em 1940. Mas, motivados por um discurso do General Gaulle, eles resolveram reagir e criar um movimento de resistência. Sendo assim, juntamente com seus amigos, durante quase um ano redigiram, imprimiram e distribuíram o jornal Résistance, além de panfletos e cartazes. Talvez esse grupo até mantivessem algum contato com a inteligência norte-americana, pois, em ela afirma que um dos seus amigos, Boris, “por intermédio da embaixada dos EUA, espera adquirir a confiança do Serviço Secreto”. Em outra ocasião ela relata que estavam “realmente filiados a uma organização, uma organização de verdade!”. Trata-se do consulado da Inglaterra em Barcelona no qual eles mantiveram contato. Isso sugere a possibilidade de terem recebido auxílio de outros governos na organização de seu movimento de resistência. 
Inclusive ela afirma que conheceu um homem chamado Roger Pons, que prometeu repassar ao seu grupo uma planta de garagem de aviões em Dreux. O objetivo era, com ajuda de alguns milicianos espanhóis, explodir um tanque com uma granada. Ela cita que o agente Antoine Schlicklin, codinome “sr. Saint-Maur”, era responsável por treinar jovens da periferia neste tipo de ação e que graças a ela pode apresentá-lo aos seus amigos. Este exemplo também evidencia que talvez esse fosse um movimento de resistência que manteve contato com agências de espionagem. 
Este jornal chegou a milhares de cópias e seu objetivo era repassar informações e fazer propaganda contra o governo de Vichy e a ocupação alemã. Para isto, o grupo agiu tanto na zona ocupada, como na zona livre, pois, acreditavam que nesta última as pessoas eram enganadas com propagandas falsas. Chegaram até mesmo a coletar informações militares. Humbert tinha a função de datilografar o periódico e distribuí-los, assim como os panfletos, e colar cartazes. Ela também serviu como elo entre vários integrantes, mantendo contato com o novo pessoal capaz de ajudá-los.      
Contudo, foram traídos por um espião alemão e acabaram sendo presos. Alguns de seus amigos foram condenados à morte e fuzilados, outros, assim como ela, foram encaminhados para trabalhos forçados na Alemanha. Sua pena era de cinco anos. Mas, antes de seu julgamento ela passou um tempo na prisão e sofreu várias privações, como a fome, o tédio e o frio. Ela afirmou que conseguiu resistir e não entregou nenhum dos seus companheiros.  Embora o pior estivesse por vim nos trabalhos forçados. Sofreu com a fome, sede, maus tratos, agressões físicas e morais, péssimas condições de trabalho, doenças, ferimentos, falta de higiene, saudade e falta de notícias sobre sua família. A sua pior experiência foi na fábrica de tecelagem onde a todo o momento estava em contato com ácidos que queimavam a pele e machucavam os olhos, além do contato com a poeira e a impossibilidade de beber água durante horas de trabalho. Se alimentava tão mal que ficou extremamente magra, sendo apelidada de “Gandhi”. 
Finalmente, depois de passar por diversas prisões e campos de trabalho, foi libertada, em 1945, pelo exército americano. Como sabia alemão, ficou encarregada de ajudar esses soldados a administrar a cidade (Wanfried) e a cuidar dos prisioneiros e refugiados. Também trabalhou coletando informações para caçar nazistas foragidos e os entregando aos Aliados. Ainda em 1945 voltou para Paris.
Suas ações de resistência não foram somente no período que esteve livre com a produção de jornais e panfletos de propaganda contra os nazistas e o governo de Vichy. Agnès Humbert agiu também durante o período em que esteve presa. Trabalhando na fábrica de tecido ela sabotava a produção. Sabendo “bobinar” a seda, ela procurava dar nós errados, mas que aparentemente ninguém percebia, prejudicando as máquinas. Como ela afirma, “ninguém sabe, ninguém, viu… Estou bem mais animada agora que sei que nenhum dos meus carretéis presta… Nenhum gerará lucros para o Grande Reich!”. 
Portanto, este é um exemplo de ações do cotidiano praticadas pelos fracos que aproveitam as oportunidades para atingir de alguma forma, mesmo que sejam com o mínimo de efeito militar possível, os fortes. São táticas contra as estratégias que se caracterizam como astúcias em uma relação de poder. O mesmo se aplica quando procurava ser desajeitada no trabalho para atrasá-lo. Seu consolo era sabotar o melhor que pudesse, “quando consigo sucesso numa sabotagem, sinto o coração mais leve. É uma espécie de cerimônia expiatória… perante a minha consciência”. Isso demonstra o quanto ela entende essas ações como uma forma de resistência contra o inimigo, mesmo estando entre os muros de uma prisão. A sabotagem era a forma que ela encontrava para atrapalhar o cotidiano e o esforço de guerra dos alemães.

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