O Direito de Crer.

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Nestes tempos de Copa do Mundo tenho sido fiel espectador dos programas de transmissão e debates da ESPN, emissora da TV por assinatura. Prefiro os comentários dos comandados de Trajano por mais fiéis e menos exagerados que os demais.

 

A Globo, por exemplo, é formidável demais para o meu gosto. Ali parece haver uma perfeição absoluta, tangenciando a divina inspiração, que chega a desprezar a transpiração humana no esforço de perquirir e refletir, pensar diferente, pelo menos.

 

Já a ESPN se transparece mais real com a imperfeição da humanidade. Os locutores não se entendem como entidades perfeitíssimas, incapazes do erro, do engano. Quando erram e divergem não há um processamento de depuração pasteurizada para se exibir em suprema sapiência, como ocorre na emissora de maior aceitação em audiência; coisa de massa, de maiorias que sempre erram, comprando mais qualquer tolice.

 

Mas o que tomo como mote não é o esporte, mas uma resposta do jogador Kaká contra o repórter Juca Kfouri que lhe debochara da “fé em Jesus Cristo”. Um golpe sentido no fígado pelo periodista, afinal fora encaminhado ao vivo e em cores por intermédio de um seu filho, também repórter. E nada pior e ruim, até pro rei do micuim, um golpe desferido em seu delfim. Trata-se de um régio golpe antigo, do inimigo antanho, ao não estranho ao amigo, afinal se há quem não herde os afetos, os desafetos cedo e lestos são despertos.

 

Mas eu não desejo falar dos que fulminam a descendência para atingir a ascendência, mira comum e ruim do micuim e do cupim, atingindo direto no rim. Desejo falar do direito de crer, origem e fim da  suprema liberdade.Porque o poder de crer em algo ou no nada, foi talvez a suprema conquista do iluminismo.

 

Todos serem iguais em direitos e deveres perante a lei, não se compara com o direito de crer indistintamente no que assim o desejar, afinal os homens são desiguais em sonhos, angústias e medos. E individualmente os homens enfrentam seus questionamentos desafiando a dor, o riso e o medo. E a fé remedia o que o racional pouco desvenda. Crer em Deus, ou Nele não crer, eis a suprema reflexão de Hamlet, no ser ou não ser além do ser.

 

Somos apenas realidade e circunstância sempre apeável e degolável se esvaindo no viver e sobreviver? Alguns, à falta de provas mais decisivas, crêem que tudo finda quando os olhos se fecham em irreversibilidade “décédé”, como dizem os franceses; findando o homem e restando a fama.

 

Outros, porém, colocam-se em esperança e em certeza de continuidade. E isto é tão comum na humanidade que nada mais reverenciado como os mortos queridos que se põem como entidades referidas em proteção e santidade dos vivos.

 

Será isso motivo de riso, escárnio e desprezo? Por que zombar das coisas íntimas, das imperfeições sentidas e expressadas? Por que menosprezar um crente embasado em pouca ciência de causa e efeito, se nas ciências provadas e repetidas a descoberta antiga não invalida nem desmerece a que foi vencida?

 

Por acaso Ernst Mach zombou de Newton e Einstein de Galileu? “Se pude ver mais longe – dissera Albert Einstein repetindo Isaac Newton – é porque estava me apoiando em ombros de gigantes!”.

 

Mas esta humildade tão comum aos cientistas não se verifica quando um crente fustiga o outro.

 

Se Jesus Cristo é o Deus que se fez homem em promessas de salvação, é preciso dizer também que para outros sua palavra vale mais que sua promessa, afinal sua pregação promove uma ética de reconhecida validade para o relativismo do ser. Porque ela supera a regra de ouro do judaísmo tardio que recomendava “Não faças a outrem o que não deseja que se lhe façam”, um corolário judeu desnecessário se o heleno “conhece-te a ti mesmo”, fosse referido e refletido.

 

Mas há também a proposta de nova lei: “Ama a teu próximo como a ti mesmo”, que depois assumiu alvitre de santidade universal: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, repetido a exaustão, onde o amar requerido é ilimitado e incondicionado, o que torna todos os homens imperfeitos com suas exclusivas forças.

 

E o descrente só se vale das próprias forças, o que parece um gesto heróico, não fosse louco também, porque se somos o nada, isso deveria ser a suprema humildade perante o grão e o germe, o vão e o verme.

 

Mas não o faz assim quem se vangloria por ateu. Incomoda-lhe não ter respostas, daí menosprezar o que não preenche a sua dúvida, mas dessedenta a aflição de outrem.

 

Para os que se dizem ateus, são tolos os homem que crêem ou professem uma espiritualidade qualquer, afinal embora fora de moda, vale de Karl Marx repetir: “a religião é o ópio do povo”. Uma frase perdida e esquecida, porque nestes tempos irreligiosos, o povo nunca pensou tanto para repelir quanto o que pensara Marx em sua pregação filosófica de mudança do mundo.

 

E vale um parêntese deslocado. Onde estão hoje os marxistas? Eles eram tantos! Foram dizimados às fuziladas ou aderiram às sereias capitalistas de um mundo consumista em muitos gozos e fruições!? E mais! Quando assumem o poder entendem-se produzindo um governo popular, com cheiro de sovaco e pisada de tamanco, mas, em verdade, continuam rastejando a aristocracia patrimonialista e sendo voraz conviva do baronato empresarial, afinal o homem continua o mesmo.

 

Mudando para restar igual, só para repetir a referência dita em cascata por Tomasi de Lampedusa, em sua obra mais famosa “O Leopardo” (Il Gattopardo), referindo-se à Sicília assaltada pelas hordas libertárias de Benito Garibaldi: “Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude”. Algo que bem aplicado aos Garibaldinos, não poderia ser diferente aos nossos pigmeus ladinos.

 

Deixemos, porém, a imutável mentira dos homens, afinal todos somos diferentes e mais tolerantes no discurso, falando melhor quem engana pior, e encanta, e fascina.

 

Mas é bem mais fácil o discurso deslumbrante dos que se abrem à liberdade de crer e exigem dos crentes que restrinjam sua fé ao contexto íntimo do seu ser.

 

E aí todos são convocados, em nome da multivariada liberdade de crença, a não mais pregar nem converter, muito menos exibir sua fé em público como foi o caso do jogador Kaká, criticado pelo ilustrado jornalista que o deseja reprimido e encolhido neste campo, embora queira entrevistá-lo para saber o que lhe é desimportante.

 

Porque o importante num jogador de futebol, sobretudo o da seleção nacional, não é o seu discurso, sua opinião ou dissertação; é o que ele pode fazer com a bola domada no pé.

 

Mas, o público não pensa assim, daí o goleador vender iogurte ou cerveja, televisão, biscoito, remédio para cefaléia ou diarréia, ração de porco e galinha, ou agasalho de camisinha.

 

E a nossa crônica esportiva, que se nutre com tais vendas, cria, descria e procria os fatos e os boatos, inclusive comentando as crenças e descrenças dos atletas, sem falar das suas aventuras e travessuras pessoais e conjugais.

 

Difícil, muito difícil aceitarmos a crença dos outros, uma conquista que não poderia ser contestada desde os avanços dos enciclopedistas e iluministas. Mas, neste campo voltamos aos tempos medievais ressuscitando trevas, acendendo novas fogueiras em intolerâncias obscuras. Tempos ruins; é verdade!

 

Mas, sem pensar no jornalista ou de quem com ele jure; ruim, por ruim, foi o comentário chinfrim de um conhecido meu, “tirado a ateu”, se exibindo em postura mirim, pois mais chato que o caricato em risada de saruê ou de rato, em sendo um carrapato dos gostos e das crenças dos outros.

 

Quem professa seu credo, tem o direito, iluminista repito, de declará-lo e explicitá-lo como assim o desejar; no gozo ou no pranto. Igualmente quem nada crê, ou assim o transpareça em parasitismo, estrelismo ou bestiário.

 

Bem pior breviário exibe sempre um “tirado a ateu”, explicitamente debochando ou tentando ironizar um simples crente ou um teísta consciente.

 

Quem é verdadeiramente ateu, esquece Deus, ora bolas! Por que Dele se lembrar, se Ele, igual ao nada, existe menos que o Silício ou o Xenônio em aridez reativa?

 

Por que perquirir Sua natureza reflexiva, se Deus lhe é mais inútil que os germes, bacilos ou vermes, tomados por espelho e melhor conselho!?

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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