O dominó dos tiranos

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Mais do que uma metonímia, é correto dizer que os levantes populares no Oriente Médio e norte da África constituem uma crise das arábias. O mundo árabe é constituído por 22 países e territórios que tem como traço mais comum a língua. Estão distribuídos desde o Iraque, passando pela Síria, Líbano, Jordânia e a península arábica, até o Marrocos, no noroeste africano, e toda aquela faixa do continente banhada pelo Mediterrâneo. É nessa região étnica do planeta, onde vivem 360 milhões de pessoas, a maioria islâmica, muito pobre e oprimida por governos tiranos, que se sucedem os levantes populares que podem ajudar a dar um salto na condição de vida daqueles e até mudar a geopolítica mundial.

A gota d’água, ou o fósforo que incendiou o mundo árabe, deu-se em Túnis, capital da Tunísia, balneário dos europeus, quando um jovem imolou-se publicamente ateando fogo ao próprio corpo depois que a polícia confiscou a banca de frutas que garantia a sua subsistência. A panela de pressão explodiu. Em poucos dias, o poder das ruas derrubou o presidente Ben Ali, aboletado no poder por 23 anos à custa da repressão e corrupção – um traço em comum na maioria dos regimes árabes. Hoje, enquanto o ex-ditador esconde-se bem ali, na Arábia Saudita, os tunisianos, que rebatizaram a praça onde o jovem morreu com o nome dele, Mohammad Bouazizi, preparam as eleições livres, que deverão acontecer em julho.

Em suma, o que provocou a onda de protestos? “Podemos listar um conjunto de fatores como, por exemplo, a degradação da qualidade de vida, miséria, falta de emprego, falta de perspectivas por um futuro melhor, sofrer nas mãos de um regime repressor, falta de democracia e de direitos políticos e, ainda, comparar com o relativo conforto na vida de países ocidentais, usufruindo dos seus direitos políticos, como o caso do Brasil”, explica o egípcio radicado no Brasil Mohamed Habib, vice-presidente do Instituto de Cultura Árabe e autor de diversos artigos sobre geografia política do Oriente Médio e do mundo árabe.

Ben Ali foi só a primeira peça a cair no dominó dos tiranos. O exemplo tunisiano contaminou os vizinhos Líbia, Argélia e Egito: a revolução também era possível dentro da própria casa. A próxima peça do jogo de derrubar ditadores seria Hosni Mubarak. Uma peça vital por se tratar do Egito, um dos países mais importantes da África e do mundo árabe, pela relevância histórica, turística e econômica e por ser parceiro fundamental do mundo ocidental, de Israel e dos Estados Unidos.

Aliás, a Casa Branca deu uma contribuição fundamental aos 30 anos da ditadura Mubarak, apoio político e econômico de peso. Até no desfecho da crise, Barak Obama teve uma posição vacilante, ora apoiando os manifestantes, ora apoiando o ditador. Nem quando ele caiu os EUA mandaram bloquear as contas bancárias do ex-presidente, de seus familiares e seguidores, como fez agora com o ditador líbio, Muamar Kadafi. Coube à Suíça congelar os dezenas de milhões de francos do ex-presidente.

Agora, o Egito é um império de incertezas. O governo provisório foi entregue às Forças Armadas, que são o pilar do poder no país desde 1952, quando o movimento liderado pelo militar Gamal Abdel Nasser derrubou o rei Faruk I. Nasser, que sonhou com o pan-arabismo, morreu no poder em 1970 e foi sucedido pelo vice e também militar Anwar Sadat, assassinado em 1981, quando o poder também caiu no colo do vice-presidente, Mubarak.

O poder agora está com o ministro da Defesa, Hussein Tantawi. As Forças Armadas manterão o poder ou permitirão o processo de democratização do país? Como os manifestantes, que se mostraram irredutíveis em relação ao fim imediato do regime, vão reagir à nova estrutura de poder?

O poder político ficou tão concentrado que no Egito não há um nome forte na oposição. Do lado civil, o prêmio Nobel Mohamed ElBaradei, não estava no início do movimento. A Irmandade Muçulmana, grupo que é religioso e assusta a opinião internacional, embora não tenha pregado um regime teocrático, também nunca esteve à frente do movimento. Por enquanto, tudo é incerteza.

Dada como certa mesmo é a queda do ditador da Líbia e ex-financiador do terrorismo internacional, Muamar Kadafi, a próxima peça do dominó. O país está dividido, o mundo árabe deu-lhe as costas, a pressão política internacional é unanimemente a favor da queda de uma ditadura que já dura mais de 40 anos. A onda de protestos nas ruas líbias já é bem mais violenta do que as que derrubaram o tunisiano Ben Ali e o egípcio Mubarak. A população tem enfrentado uma dura repressão das forças armadas comandas por Kadafi, que foi um seguidor de Nasser e criador do socialismo islâmico. Até a Força Aérea líbia teria bombardeado grupos de manifestantes em Trípoli. Estima-se que centenas de pessoas, entre manifestantes e policiais, tenham morrido.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas fez reuniões emergenciais, nas quais responsabilizou Kadafi pelas mortes e indicou que a chacina na Líbia pode configurar um crime contra a humanidade. Em resposta a tudo isso, Kadafi, que há muito tempo já está mais para um personagem de uma tosca tragicomédia, vai à TV ameaçar de morte os que ousam tentar derrubá-lo. É a última cena de um fanfarrão.

Sabendo que as monarquias árabes por enquanto estão preservadas, quais os próximos a cair no jogo de dominó dos tiranos: da Argélia, do Iêmen? Façam suas apostas.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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