O exótico e o caótico

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Eis que entro no site do jornal francês, Le Monde, e leio destacado como grande notícia.

Estava sendo aguardado, com grande surpresa, a presença do Cacique Raoni, num encontro do partido “Em Marche”, pertencente ao Presidente Emmanuel Macron.

Macron, aquele que dissera antes ter o nosso Presidente Bolsonaro mentido sobre a questão amazônica, e que levou a outras ofensas, de parte a outra, sobrando para Brigitte, a primeira dama francesa, uma imerecida apreciação, por fora do contexto ecológico, e em pior disparo fisiológico.

Sabemos que Bolsonaro, por idiossincrasias bem apreciadas de seu eleitorado, galhofou da carinha da Brigitte, colocada no centro da briga, aquecendo o tema da floresta, pondo mais chamas sem lhe acrescer qualquer luz.

 

Raoni e Macron no Jornal LeMonde e no portal G1

Não é, todavia, da beleza ou da torpeza contra Brigitte, que bem devo ressaltar na reportagem.

Ali se fala do Cacique Raoni, aquele que sobressai pelos adereços labiais e pela lábia em conseguir seguidores mundo afora.

Houve tempo, já vai distante, em que no Congresso Nacional sobressaia um outro Cacique, o Juruna, sempre acompanhado de um gravador portátil de voz.

Era uma das figuras exóticas surgidas com a pregação de Leonel Brizola, que louvava um Brasil moreno, amparado em sua consciência crítica pelo sociólogo Darcy Ribeiro.

Brizola, enquanto “razão indignada”, segundo seus estudiosos e comentadores, arrastou na sua rede de adeptos figuras que nele mais viam oportunidade de relevo político, que mesmo seguidores.

Assim, vultos exóticos como Juruna tiveram seu quatriênio de inutilidade e gracejo exaltados, chama que se extinguiu rápido, sem deixar memória.

Em outra história e em ruim memória, poder-se-á dizer que restou pior o Rio de Janeiro no vácuo de Brizola.

Diferente de Juruna, Raoni nunca quis ser Deputado, preferindo exibir o seu charme internacionalmente.

Na França, por exemplo, Raoni é o Brasil que foi, e deveria continuar, desde que o visitando Caramuru, o Diogo Álvares Correia, foi recebido pelo rei Henrique II e sua esposa Catarina de Médicis, que batizou Paraguaçu e muitos índios Tupinambás.

Que a França pense assim, Carijó ou Caiapó, isso não me desagrada, mas a civilização francesa deixou um legado vacuoso quando se fala da sua presença colonial, sobretudo naquilo que plantou na África e nas Antilhas, e em particular no Haiti e na Guiana Francesa.

E não me falem, a título de contraexemplo o Canada, porque ali sobrou melhor a partir de mão bretã.

Neste contexto colonial, é bom frisar que a despeito de todos os colonizadores europeus, os espanhóis e, sobretudo, os portugueses, construíram mais que franceses e ingleses nos amenos trópicos.

Há, no entanto, uma simpatia com o que se fala e se faz às margens do Loire e do Sena.

E nesse “mijoter*”, mesmo por cena ou contracena, procura-se extrair o molho, com o aroma ali desejado.

Daí a louvação dessa aura romântica idealizada em Raoni, com o seu lábio desmedidamente espichado, para melhor cultura a invejar.

Para os adeptos deste novo Macron, enquanto “defensor do planeta”, o bom selvagem é o melhor exemplar para tais tempos renovados, em que o mundo se finge ameaçado por povos que teimam em conquistar o seu desenvolvimento econômico.

Nesse argumento, o Brasil não pode ser o que se propõe; crescer, se desenvolver, gerar empregos, conquistar mercados e ousar até mesmo alimentar o mundo.

Tem que permanecer atrasado; exótico e caótico, com arco e flecha e cocar, nem que seja de plástico, bem colorido, por fantasia!

Cabe-nos a pergunta: O Brasil tem que ser este sonho francês que não nos agrada?

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* “mijoter” não é o que parece,… mas foi colocado para assim parecer.

 

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