O GIGANTE ANTONIO ROBERTO

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Era uma cena estranha, incomum, inusitada. Vê-lo inerte, imóvel, sem vida…na maca do hospital que foi o seu local de trabalho, por quase 25 anos. E todos se entreolhavam atônitos, sem entender o que estava acontecendo, a circular prá lá e prá cá naquele corredor deserto de uma manhã de domingo. Se a lança traiçoeira da morte não tivesse ceifado a sua vida momentos antes, estaria naquela manhã de domingo debatendo, negociando e procurando resolver os problemas que ninguém mais ousava enfrentar sem a sua presença.

Formou-se médico em sua terra natal, o Rio de Janeiro, é verdade, mas construiu a sua vida profissional em Aracaju, conosco. Aqui travou o bom combate, na defesa intransigente de sua categoria e principalmente da especialidade que escolheu: a anestesia. E o marco definitivo para a implantação da consciência coletiva da defesa profissional foi a fundação da Cooperativa dos Anestesistas do Estado de Sergipe, a Coopanest, em 1988, que teve em Antonio Roberto de Figueiredo a sua principal liderança. Ser seu primeiro presidente foi a conseqüência natural. Sua firme e decidida administração resgatou a auto-estima da especialidade e tornou a entidade uma referência na luta por honorários justos, em Sergipe e no Brasil.

         O nosso primeiro contato foi em 1994, no meu primeiro mandato à frente da Somese. Lutávamos pela implantação da Tabela de Honorários Médicos da AMB, a conhecida THM 92. Os convênios resistiam e as assembléias dos médicos se repetiam freneticamente. Foi quando veio a Lei 8.880 do Governo Federal, dispondo sobre o programa de estabilização econômica, o sistema monetário nacional e instalando a unidade real de valor, a URV, obrigando a moeda vigente a promover a sua conversão. Defendíamos um CH de R$ 0,21, que representava a conversão com base no último dia do mês, enquanto os convênios somente aceitavam R$ 0,13.

A AMB, sob a presidência de Mário Cardoso, depois de uma conturbada negociação, sela um famigerado acordo com o Ciefas (hoje Unidas), balizando o CH em R$ 0,155, que representava a conversão com base no primeiro dia do mês. Sergipe reage, não aceita passivamente esta solução e os anestesistas, principalmente, são quem mais protestam. A AMB envia a Sergipe o presidente da Comissão Nacional de Honorários Médicos. Com o auditório da SOMESE lotado, a classe mobilizada queria o  CH de 0,21. O enviado da AMB argumenta bem, tem um bom poder de persuasão, mostra que houve um grande avanço, que o momento exige moderação. Uma voz se levanta na primeira fila. Defende o CH de 0,21 com argumentos sólidos, faz o se protesta, diz que a AMB se equivocou. No entanto, a assembléia aprova o acordo nacional, acatando as ponderações da entidade nacional. Antonio Roberto é derrotado, os médicos são derrotados, Sergipe é derrotado. Vence Celso Correia de Barros, o enviado da AMB, hoje presidente da Unimed do Brasil.

Mais tarde, a história mostrou que o passo falso dado pela AMB naquele momento foi irrecuperável na conquista de honorários decentes no presente. Antonio Roberto estava certo, os médicos de Sergipe estavam certos.

A Coopanest, destemida, mantém a sua firme posição, a de só trabalhar com a tabela 92 e passa a exigir dos convênios o CH de 0,21 sob pena de descredenciamento geral. E a decisão atinge a própria Unimed. Naquele instante, os anestesistas se afastam da Unimed e nunca mais voltam, através  de sua cooperativa. A partir daquele ano, a cooperativa de trabalho médico Unimed entra numa estrada nebulosa. Em 1995, convocado para um segundo mandato na SOMESE, convido Antonio Roberto para ser meu  2º vice-presidente. De imediato, indico seu nome como representante da AMB na Comissão Estadual de Honorários, ao lado de Adelson Chagas, Carlos Alberto Mendonça, Saulo Maia, Rodrigo Teixeira, e José Maria Rodrigues. Esta comissão tem um trabalho gigantesco e no ano seguinte lidera o maior movimento reinvidicatório da categoria médica em todos os tempos: por longos 9 meses, todos os convênios, com exceção da UNIMED, têm seus atendimentos suspensos por não acatarem a Lista de Procedimentos Médicos 96.  Os médicos somente atendem mediante pagamento direto, sem guias. Usando um jargão da moda, “nunca na história desse país se viu” um movimento igual, a repercussão é nacional. As seguradoras que operam no Estado fogem em debandada, o Ciefas entra em desespero, os médicos dão plantão na Somese, a imprensa dá ampla cobertura, os usuários de planos de saúde reclamam…

Neste mesmo ano, o grupo da Somese inscreve uma chapa de oposição para participar da eleição convocada pela Unimed, para renovação de sua diretoria e conselhos. Convocado  para liderar a chapa, não aceito, em função do meu cargo na Somese e atuar numa empresa de auto-gestão, a Camed, há mais de 8 anos. Cabe então a Antonio Roberto indicar o nome de Carlos Alberto Mendonça, logo aceito por todos. Precisávamos agora definir os coordenadores da campanha. Não é tarefa difícil. Pela experiência, capacidade de liderança e organização, nada melhor que dois anestesistas para comandar as ações: Antonio Roberto e Cleômenes Barretto.  Perdemos a eleição por dois votos, num polêmico e conturbado processo eleitoral, mas não a compostura. Pensando no futuro da Unimed, Carlos Alberto, num gesto magnânimo, admite a vitória de seu contendor e a partir daquele momento passa a ser reconhecido como o grande líder de oposição.

O mandato da diretoria situacionista eleita, porém, não dura dois anos. Uma assembléia geral convocada pelo Conselho Fiscal declara vagos os cargos de presidente e vice-presidente da Unimed e uma outra, em seguida, designa-me vice- presidente e Carlos Alberto como presidente. Desde então, paradoxalmente, não conseguimos equacionar a situação com os anestesistas. Não por falta de esforço nem de diálogo. Os argumentos sempre foram consistentes de ambos as partes. Se por um lado, a Unimed não poderia tratar iguais de forma desigual, a Coopanest não poderia renunciar a sua tradição coerente de luta. Nesse contexto, o radicalismo muito vez prosperou, de ambos os lados. Mas, nos últimos dias, as coisas se encaminhavam para uma solução definitiva, havia um entendimento em marcha e quase todos os pontos de divergência estavam sendo superados. O domingo poderia ter sido de júbilo, um café da manhã selaria o  acordo histórico, mas não, o domingo foi de dor, penoso, sofrido…

Inerte sobre o leito frio, no corredor vazio do hospital que transitava no dia-a-dia, numa manhã mormacenta de domingo, repousa enfim o guerreiro do bom combate, que preservava o ideal acima do interesse pessoal, gigante no corpo e no espírito, líder de uma geração cansada, mas pronta para mostrar que a sua luta não foi em vão. Sejamos, pois, merecedores do seu legado.

(Homenagem pessoal a Antonio Roberto de Figueiredo, falecido aos 55 anos, em 9 de dezembro de 2007)

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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