O massacre dos povos originários

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Essa semana morreu Aruká Juma, líder indígena, cuja família é última sobrevivente do povo Juma, etnia do tronco linguístico Tupi Kagwahiva. O povo Juma sofreu um massacre na década de 60, ao se defender da invasão de suas terras por seringueiros. Na década de 90, Aruká Juma conseguiu a demarcação do território, localizado no sul do Amazonas. Esse grande líder foi mais uma das vítimas da COVID-19, recebeu em janeiro o tratamento precoce, que continha o remédio Ivermectina. Aruká não resistiu à pandemia e nem a este Governo.

 

De acordo com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, até o momento, 969 óbitos de indígenas ocorreram e 162 povos foram afetados diretamente com o vírus. Além disso, o serviço dos missionários evangélicos, que pelo visto ocuparam o papel dos jesuítas, está aumentando o número de casos e complicações, uma vez que muitos desses missionários chegam aos grupos isolados, propagam doenças e tentam os convencer que não há necessidade em tomar a vacina. Esses grupos evangelizadores têm contribuído para a destruição cultural desses povos, já que eles alegam que os costumes e hábitos espirituais dos indígenas são equivocados ou malignos.

 

Não bastasse mais de 500 anos de devastações, guerras, genocídios, estupro, usurpar direitos, querem retirar ainda mais desses povos, com o intuito do apagamento completo de sua história, dizimando qualquer rastro de que eles são os verdadeiros donos dessa terra chamada Brasil. E apesar de escrever sobre a minha família de axé com mais facilidade, quando se trata em escrever sobre os povos indígenas, eu tenho travas muito fortes por conta do apagamento histórico que foi submetida também a minha família.

 

Além do apagamento, a sociedade, mesmo os grupos que se autoafirmam muito acolhedores e a favor das minorias, também tem membros que atuam de maneira a silenciar sutilmente, ou não, quem faz parte desses grupos. Não quero aqui diminuir a importância de dialogar sobre outros tipos de apagamentos e genocídios, mas percebo e sinto o quanto é difícil ter que lidar com o apagamento cruel e histórico de tantas árvores genealógicas, incluindo a minha. Em Sergipe, o apagamento foi e permanece sendo cruel, pois as histórias e crenças dos vários povos que aqui habitaram foram completamente dizimadas junto com seus corpos.

 

Talvez seja a primeira e última vez que eu escreva sobre isso, e talvez a população ainda tenha muito a avançar em relação à imensidão de etnias indígenas, insistam em acreditar em estereótipos ou cobrar provas quando se defende que a história oral é potente e que as narrativas têm força, independente de quem se ache no direito de julgá-las a partir de sua ótica de tribuna. Enquanto isso, as histórias, hábitos, costumes e famílias indígenas perdem o direito de ser, de conhecer suas raízes e de perpetuar um legado tão rico e que tanto contribui para o nosso país em inúmeros aspectos. O vírus dissemina a morte de um lado, mas o poder público e a sociedade seguem massacrando tudo que é produzido pelas populações indígenas ao longo dos séculos. É necessário respeitar e preservar os povos originários para construir um presente digno e reparar um passado injusto para tentar produzir uma sociedade melhor no futuro.

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