O Moralista

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—- Isso é uma imoralidade! – dizia, vermelho de indignação, quando passava por uma banca de revista e via aquele monte de revistas eróticas.

Os amigos tentavam convencê-lo de que aquilo é tão normal quanto à existência de mensaleiros e sanguessugas na Câmara dos Deputados.

—- Você tem que mudar, encarar o mundo como ele é – dizia um amigo.

—- Eu concordar com imoralidades? Nunca! – respondia, mais indignado ainda.

Assim  é o Eucádio. Homem sério e moralista, pra ninguém contestar. Nunca, nos seus 45 anos de idade, alguém conseguiu encontrar alguma coisa que manchasse a sua ficha de ferrenho defensor da ordem, da moral e dos bons costumes.

Embora tenha começado a namorar muito cedo – segundo o próprio – ( por volta dos 30 anos), Eucádio nunca tomou liberdades com a namorada( só teve uma). Quando o vale-tudo já era praticado normalmente nos namoros, ele pegava apenas nos dedos da mão da namorada. Aliás, nos dedos, não; pegava somente no dedinho. Achava um total desrespeito, com apenas três anos de namoro, pegar nos cinco dedos.

Quando ia ao cinema com a namorada( que depois se tornou sua esposa), não parava de censurar a escuridão e chegava a ficar injuriado com os gemidos, suspiros e, muitas vezes, ganidos de outros casais.

—- Imorais e indecentes – resmungava.

—- Oh, Cadinho, isso é tão normal – retrucava Lilinha, a namorada, encostando-se nele, toda dengosa e oferecida.

—- Normal ? – absurdava-se ( não estranhem, é do verbo absurdar).—- depravados, são uns depravados!

Muitas vezes retirava-se do cinema, não sem antes registrar veementes queixas à gerência.

Não, não pensem que o Eucádio não gosta de mulheres. Acontece que seu ascetismo supera qualquer coisa. Pra se ter uma idéia, logo depois que casou, ele proibiu a mulher de usar blusa de manga curta, batom ou qualquer outra maquiagem, sapatos de saltos altos( achava que faziam a bunda balançar mais) e sair sozinha – numa distancia de mais de 100 metros de onde moravam. Biquíni, só de pensar, ele tinha um ataque de raiva. Mas isso tudo foi depois do casamento. Antes, ele era mais liberal; permitia que ela se afastasse, sozinha, até 120 metros da casa dos pais.

Pois bem, Eucádio e Lilinha( cujo nome é Lília) tinham acabado de completar um ano de casados quando aconteceu a tragédia. Uma bela noite foram acordados por um assaltante, um indivíduo gigantesco e brutal. Sob a mira de uma arma, o casal foi obrigado a entregar dinheiro e jóias.E não satisfeito, o marginal, após amarrar solidamente Eucádio, mandou que Lilinha tirasse a roupa e deitasse no tapete da sala.Ela tentou reagir, mas era impossível vencer a força infinitamente superior do assaltante, que ainda a ameaçou de morte.. E o ato foi consumado, assistido por Eucádio.

Dias depois da catástrofe, Eucádio entrou na Justiça com o pedido de separação. Não tinha mais condição de viver com aquela mulher, que o traíra tão escandalosamente, tão debochadamente, bem na sua frente.

Apesar do choro e dos protestos de Lilinha, o processo correu normalmente, até o dia em que o casal foi convocado à presença de um velho juiz, que começou a dar conselhos, tentando uma reconciliação.

—- Meu filho – falou para Eucádio -,ainda é tempo de voltar atrás da decisão de acabar com o sagrado matrimônio.

—- Não dá, meritíssimo.

—- Não dá ? Por que, meu filho ?

—- Ela me traiu – falou um amargurado Eucádio.

O juiz, virando-se para Lilinha.

—- Filha, você traiu o seu juramento e o seu marido?

—- Não, meritíssimo.

Lilinha contou tudo, sem tirar nem botar. O juiz ouviu, pacientemente. Ao final, com um brilho de esperança nos olhos, voltou-se para Eucádio.

—- Filho, você está sendo injusto com a sua mulher. Ela não o traiu, Apenas cedeu, por amor à vida, aos instintos bestiais de um anormal.

—- Não, meritíssimo, ela – e apontou um dedo acusador para Lilinha – aproveitou a situação para desonrar nossa união, nossos sagrados votos de pureza!

—- Mas filho, sua mulher não teve culpa. O assaltante obrigou-a a manter relações sexuais com ele.

—- Tudo bem, meritíssimo. Se fosse só pela relação, eu até poderia perdoá-la. Mas o resto eu não perdôo!

—- Resto ? Qual resto, meu filho?

—- O mexido, meritíssimo. Ele não mandou, nem uma vez, e essa sem-vergonha mexeu o tempo todo!

 

 

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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