O PRÉ-CAJU DE TODAS AS TRIBOS

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Aracaju acaba de confirmar o seu jeitinho especial de ser, pois, como nenhuma outra cidade que conheço, adora o calor de um bom debate, mantendo, sempre, o aconchego da amizade e a tolerância no que se refere à opinião alheia. As tribos que aqui habitam, mesmo sabendo que apenas algumas são escutadas pelos órgãos decisórios, não se cansam de dar pitaco sobre as coisas da cidade. E não são poucos os lugares em as tribos se reúnem para praticar o gosto pela falação, embora tenham preferência por alguns mais coletivos, como os calçadões da Rua João Pessoa e da Av. Beira Mar, os bares da praia da Atalaia, a chique passarela do quase-extinto caranguejo, as barracas dos mercados e a nova orlinha do Bairro Industrial. O Pré-Caju, por ser uma das maiores festas do calendário sergipano, sempre serviu como alimento para as mais acaloradas discussões, movimentando as mais diversas tribos nos debates, inclusive no que se refere a interferência do axé baiano na cultura local. E não se tem dúvida de que todas estas tribos tiveram material de sobra para amar, curtir, criticar ou odiar a mais polêmica de todas as prévias aracajuana, o chamado Pré-Caju da mudança. Aliás, foi exatamente o clima de mudança a maior vedete da festa sergipana, provocando as acaloradas e apaixonadas discussões. Afinal, perguntavam todos, a mudança do Pré-Caju para a região do Centro Histórico de Aracaju foi ou não acertada? Seria bom para a imagem de Aracaju retirar a folia da mais charmosa e elegante avenida de Aracaju, quando uma das suas propostas era exatamente divulgar as belezas da nossa terra? Não ficou muito apertado, sujo e escuro o espaço destinado aos foliões dos blocos e das pipocas? Confesso que a princípio achei estranha a razão da mudança, pois entedia que não passavam de desculpas as alegações dos organizadores da festa, especialmente quando diziam que os moradores do velho percurso estavam reclamando da barulhenta multidão que desfilava aos seus pés. Incomodar, aliás, faz parte de todas as festas públicas realizadas e elogiadas mundo afora, até porque somente os ingênuos ou os provincianos acham que o carnaval de Salvador e Olinda, as festas em Nova Iorque, Paris, Veneza ou milhares de outras cidades não são criticadas ou odiadas por outras centenas de incomodadas tribos. E se o critério inicial tivesse sido o da reclamação, a tribo que habita a região do Mercado também tinha chiado, bem assim a tribo que reúne a maioria dos moradores da chic avenida Beira Mar, mesmo porque participava da festa nos seus confortáveis apartamentos. No fundo, achei que a mudança teve um conteúdo mais comercial, pois os camarotes do corredor da folia estavam perdendo a concorrência para os camarotes particulares e edifícios localizados fora do espaço oficial. Mas, independentemente das razões reais da mudança, o certo é que o Pré-Caju terminou sem pacificar as tribos, que continuam ardorosamente defendendo os seus respectivos pontos de vista. As tribos contrárias ao novo lugar encontraram, durante a folia, razões de sobra para reclamar, inclusive a de que o glamour da Av. Beira Mar fora substituído por um espaço público relativamente fechado, quente, com alguns trechos com cheiro de peixe estragado e estreito para os blocos. Não deixam de ter razão, mas também não se pode negar que o novo local e a sua formatação estimularam a participação popular que, junto com a tranqüilidade sergipana, confirmaram que Pré-Caju é uma das maiores festas populares do Brasil. E no aspecto participação popular a modificação foi acertada, pois nunca vi a pipoca tão animada e próxima do trio elétrico, ou melhor escrevendo, escolhendo qual dos vários trios queria democraticamente acompanhar, integrando-se umbilicalmente aos blocos dos que podiam pagar o cobiçado abadá . Nos itens integração social, segurança, diversificação musical e organização social o Pré-Caju do Centro Histórico dificilmente será batido, mesmo porque Aracaju carece de uma área que possa abrigar as diversas tribos que adoram os prazeres da folia. Como não integro a tribo que nunca gostou do Pré-Caju, tampouco pertenço ao bloco dos que são sempre contrários a qualquer tipo de mudança, concluo que a festa carnavalesca aracajuana saiu fortalecida no seu novo teste. As tribos que ousaram conhecer o seu novo local, independentemente da área que venha abrigar o próximo Pré-Caju, não deixarão que a prévia carnavalesca aracajuana um dia acabe. Eu, que hoje pertenço à tribo do folião-pai-sogro, o que me faz transforma em “folião-vigilante-ciumento”, estarei sempre participando da maior prévia carnavalesca do Brasil. * Cezar Britto é advogado, conselheiro Federal da OAB e presidente da Sociedade Semear. cezarbritto@infonet.com.br

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