O Processo: Dilma e seu impeachment em questão

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O filme de Maria Augusta Ramos se coloca como um ponto diante de um mar de debates sobre o chamado Golpe de 2016. Assim mesmo, um ponto extremamente relevante. Trata-se de colocar à frente as discussões de gabinete, as conversas que se tornam forças políticas, o processo de defesa do PT (Cardozo, Lindbergh, Gleisi) diante da escassa e sinistra acusação de “pedaladas fiscais” que teriam sido praticadas pela presidenta Dilma Rousseff em seu segundo ano de mandato.

O Processo reporta com atenção ao momento do impeachment

Enfim, não estamos aqui na dicotomia petismo versus anti-petismo. Dicotomia que, a meu ver, aparece em discussões ridículas nas redes sociais, incitando a violência e agressividade. Não é a mesma distância que existia há um tempo entre o Comunismo e o Capitalismo. Não é um debate ideológico. Acusam o PT, dos magistrados aos mais ressentidos, de corrupção generalizada. No entanto, o filme nos mostra uma outra versão dessas acusações.

Para início de conversa, mesmo dentro do Partido dos Trabalhadores existem aqueles que “relativizam” o chamado Golpe Parlamentar. São os que ainda pensam, como alguns pemedebistas, que é necessário a política de coalizão – a porta de entrada para o fisiologismo. E, neste ano de eleições, estarão ali junto aos chamados golpistas, para permanecerem no poder. Não se trata de ideologia, portanto.

O documentário nos mostra, claro, um tipo de campanha de Gleisi e Lindbergh para defender institucionalmente as práticas da presidenta. Tudo se passa dentro de salas fechadas. Afinal, haveria como vermos outras versões fora de Brasília, ou mesmo fora dos gabinetes das Câmaras e Planalto. Mas, mesmo estando dentro do ponto de vista, da perspectiva de atuação do PT, vemos o outro lado e sua exposição política nas reuniões públicas.
Este é o terror do filme. Aquilo que se tornou público, também foi algo abominável. Pois temos contato direto nas discussões pré-impeachment com os discursos e os argumentos da direita no Brasil. Parece generalização dizer: “a direita”, mas vemos que não… Uma das evidências do filme é que havia interesses do PSDB (na figura de Aécio Neves), claros, de afastar a presidente desde que ela teria chegado ao poder. O afastamento, sobretudo, segundo nos mostra o documentário, não foi jurídico. Foi político. Claramente político, pois a ficção tomou a frente da hermenêutica. O espetáculo, por exemplo, da advogada Janaína, fica para a história – muito maior e mais deprimente que o de Carlos Lacerda durante a derrocada de Getúlio.

Diz-se que um filme como O Processo não teria muito o que falar, por usar somente imagens e discursos que todos já conhecem. Porém, o filme ganha peso por isso. É uma reiteração sólida do que falava a esquerda, e do que ainda se fala: há um golpe de estado em andamento na cidade de Brasília. É uma minúcia a respeito do chamado impeachment – e aí nos vem Dreyer em sua minúcia clássica e afetiva de um processo de criminalização de Joana D’arc, mulher injustiçada que ecoa no documentário também feminista de Maria Augusta. Não conseguimos entrar no universo dos chamados “golpistas” (aqueles que falam ao telefone e articulam tudo, são gravados, expostos no Jornal Nacional… mas nada acontece). Não vemos Temer, nem sua carta dirigida à Dilma, no filme. Estamos diante de algo que não se mostra totalmente, a não ser por lampejos midiáticos no discurso que a Rede Globo ainda não aceitou.

A Globo não chama o que ocorreu de “Golpe”. Chamar de Golpe o que aconteceu não é algo político. O PT tenta, e tentou levar os debates para este lado, deixando todos muito mais raivosos diante dessa prática mesquinha. Não é só isso. Digamos que seria função do partido golpeado reagir como reage e reagiu, tudo bem. O documentário parte da política, deste campo de lutas, e exibe o que está claro nos registros gravados.

O Golpe que houve foi uma tentativa de manutenção do status quo, manutenção da força e das articulações mafiosas e lobistas de Brasilia, continuação do poder corrompido nas instituições. O Golpe de Estado foi, e ainda se mostra dessa maneira, um ato incisivo de pessoas envolvidas até o pescoço em acusações e evidencias de roubalheiras (Eduardo Cunha, Michel Temer, Romero Jucá, André Moura, etc.). Um grupo político que se safou no mensalão unicamente porque eram os que recebiam as grande quantias – não os que pagavam. Estão soltos, muitos, por conta não só do chamado foro privilegiado. Estão soltos porque atuam nos universos sombrios – chegando a dar indícios de assassinatos (como no caso da fala tão infeliz de Aécio Neves sobre seu primo Fred, mas também nas acusações que sofre André Moura aqui no estado).

Ao longe, aquilo que se atribui ao PT, ou seja, uma máfia que roubou no poder, na verdade nós conhecemos como algo estruturado por mafiosos do PMDB e do PSDB. Estes que, por participarem do golpe institucionalizado, conseguem se safar, hoje, de qualquer acusação com suas estratégias de toma lá dá cá. Fica aí, para quem tem um mínimo de bom senso, a extrema distância entre a acusação medieval de Janaína Paschoal e a defesa de José Eduardo Cardozo. Está tudo gravado, e agora, transformado em uma espécie de tese comprovada: não foi um impeachment, mas sim, um golpe político institucional. Difícil é não ver isso.

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