O que eu me lembro

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Sim, sim, seu moço, eu estava lá sim. E não estou lhe dizendo que esqueci o que se passou, que me apagou da memória os fatos acontecidos. Não é bem assim, seu moço. É que quando uma coisa assim tão grande, que mudou tão profundamente tudo na vida, acontece assim na nossa frente acho que a gente nem consegue entender tudo. Alguma coisa sempre escapa, se perde no entendimento mesmo do que está acontecendo, sabe?! E aí que já ali, já quando aconteceu, no dia mesmo, no momento exato, já naquela hora eu perdi de lembrar uma parte da história. O que eu guardei, de fato, de verdade, foram só os detalhes. É que eu sou o inverso dos outros, seu moço. A maioria das pessoas guarda a história, um enredo com começo, meio e fim pra contar. Mesmo que falte uma ou outra coisa dessa lembrança, assim é que faz a maioria das pessoas, vai remendando os buracos, cozendo, colando, dando uma forma pra essa história no momento mesmo de contar. Mas eu não, eu não faço assim, seu moço. Que eu tenho o mau hábito de não prestar atenção nas coisas grandes, nos acontecimentos, nas coisas assim, como foi aquele dia. Não, seu moço, eu sou só das miudezas. Infeliz de mim, que sou assim, míope de alma, só vejo o pequeno, o miúdo, o detalhe da barra do vestido da noiva, e me esqueço que era um casamento. Sim, sim, é só uma alegoria, o senhor me desculpe. Pois de tudo eu guardo só os pedaços, um quebra-cabeças que nunca encaixa, sem pé nem cabeça nem rabo. Outra alegoria infeliz, né?!, seu moço. O senhor me desculpe o mau jeito, é que sou de pouca conversa mesmo e vou assim tateando pra usar a palavra certa e me embolo todo, como se a frase fosse um novelo desfeito na minha mão. Pois como eu ia dizendo, eu guardei os pedaços, as partes mais sem graça, sem jeito e sem uso daquilo tudo. Ficou mesmo foi o que não fica e não tem lá é nenhumas utilidades. Ficou o que se joga fora, enfim. Guardei por mania de guardar tralha. A minha memória é só isso mesmo, as tralhas, o lixo. Pois eu lembro de uma luz desse dia, uma luz que eu acho que era luz do céu, luz de aurora, o senhor, sabe?!, seu moço. Luz assim que é pálida, que é pequena e vai crescendo, que vai amanhecendo a gente por dentro também, que vai esquentando o coração de pouquinho em pouquinho até que fica tudo quentinho e iluminado por dentro e por fora. Guardei a lembrança dessa luz, porque mesmo depois de tudo, do frio de toda noite de solidão, me sobrou a memória dessa quenturinha. Guardei também as folhas, moço. Não, não estão dentro de caderno ou caixa, estão só na minha cabeça. Guardei a memória que sobrou delas, porque naquele dia, eu juro, nunca tinha visto tanta folha seca pelo chão. Ou talvez nem era isso, minha cabeça que talvez esteja me aplicando uma peça, mas é assim que eu lembro. Folhas secas quase verdes e folhas secas bem secas, quebradiças, se esfarelando embaixo dos meus sapatos, aquele clec clec de uma morte musical estalando sob meus passos. Foi bonito isso que eu disse, né?! Acho que vou anotar aqui, sim, eu tenho um caderninho onde anoto as frases bonitas que eu penso ou falo assim sem querer. Voltando pras folhas, eu me lembro de todas elas, umas denteadas, outras com as bordas lisas, umas quase esverdeadas ainda e outras muito castanhas. Eu não sei porque eu me lembro dessas bobagens ao invés de lembrar as coisas importantes. Acho que é porque isso era mais bonito de lembrar, quem sabe. Porque lembrar de uma folha morta dói menos, dói quase nada. Dói só na medida em que eu lembro que essa folha estava lá, naquele dia. Não, das pessoas eu não lembro nada. Apaguei todas como se elas não tivessem existido, não sobrou nem um sussurro, nem um fio de voz, um esvoaçar de vestido, uma barra de calça de linho, nada, nada, lhe juro. Sei que estavam, porque, bom, todos dizem quem estava e quem não estava lá. Mas se lhe disser que eu lembro de um ou outro, estou mentindo. Mal me lembro de mim mesmo naquele dia. O meu lembrar é uma confusão de sentimentos e imagens difusas, moço. Aquele sentir de tudo no peito se misturando e fazendo uma bagunça que, até hoje, passados todos esses tantos anos, eu não consigo decifrar. Foi coisa de muito machucado. Não adianta me esforçar, não, moço, eu sei bem as coisas que eu lembro daquele dia, é como eu já lhe falei, uma luz, as folhas, uma lombada de livro, um lápis que eu achei, uma planta que eu vi murcha lá em casa e pensei depois de cuidar dela, e mais um monte de sentimentos confusos que nunca se resolveram, é só isso que sobrou. Não, não é choro, não, seu moço, é só que… Aliás, tem uma outra coisa que eu lembro sim desse dia, que é a mancha de sangue no chão, mas disso eu não quero falar, não, o senhor me desculpe.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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