O sergipano cordial

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O sergipano é uma nota de rodapé. É assim que consta na bibliografia nacional. Quando muito é o coadjuvante da história, aquele sujeito que aparece dando suporte ao ato principal desempenhado pelo outro. Silvio Romero foi alguém que ousou polemizar com o inatacável Machado de Assis; Lourival Fontes foi o auxiliar fascista que dirigiu o Departamento de Imprensa e Propaganda no governo Getúlio Vargas; e Joel Silveira, o correspondente de guerra a serviço dos heroicos pracinhas brasileiros. Será que o sergipano é só isso mesmo?

No ano 2000, véspera da festiva virada de milênio, a Editora Abril publicou uma edição especial do Almanaque Abril: Quem é Quem na História do Brasil, com as 500 personalidades que, teoricamente, teriam mais influenciado na formação do povo brasileiro. Sabe quantos registros há sobre o nosso pequeno grande Estado? Zero, nenhum, nada. Segundo a importante editora nacional, Sergipe não contribuiu com ninguém que merecesse constar dentre os 500 tops do Brasil nos seus cinco séculos de história.

O filólogo João Ribeiro? O antropólogo Manuel Bonfim? O germanista Tobias Barreto? O desesperado boxer Maguila que fosse? Nada! Muito menos o romancista Francisco Dantas, o contista Antônio Carlos Viana, o folclorista e ficcionista Nélson de Araújo, os artistas plásticos Horácio Hora ou Jenner Augusto da Silveira. Não há sergipano merecedor de registro na história do Brasil, segundo a publicação paulista. E assim Sergipe é o único estado do Nordeste sem representante na publicação, aonde constam jogadores de basquetebol e de voleibol, além de lutadores de judô, citados como merecedores de um suposto título de colaboradores da formação do povo brasileiro. Sem nenhum preconceito contra eles, mas é um evidente preconceito contra os sergipanos.

Numa rápida comparação — dolorosa comparação —, Alagoas aparece na mesma edição com 11 incontestáveis referências: o lexicógrafo Aurélio Buarque de Holanda; o cineasta Cacá Diegues; o militar e primeiro presidente Deodoro da Fonseca; o militar Góis Monteiro; o poeta e romancista Jorge de Lima; o político Vladimir Palmeira; o músico Hermeto Pascoal; o militar e segundo presidente Floriano Peixoto; o romancista e melhor de todos eles Graciliano Ramos; a psicoterapeuta Nise da Silveira; e o líder escravo Zumbi dos Palmares. A edição deu-se ao luxo de esquecer o cantor e músico Djavan e o menestrel Teotônio Vilela, além de corretamente citar o estabanado ex-presidente Fernando Collor de Mello como carioca.

Quando saiu a publicação, este colunista escreveu para a Editora Abril protestando que, pelo menos por uma questão proporcional, Sergipe deveria ter cinco representantes na lista, ou 1% de 500. Uma bobagem, evidentemente, apesar da carta cheia de desculpas da editora pelo “esquecimento”. Mas serão mesmo culpados os paulistas? Ou a culpa é da índole sergipana?

Males de origem

Plagiando Sérgio Buarque de Holanda, que até o fim da vida viu-se obrigado a explicar uma ideia que teve na juventude, lançada no canônico Raízes do Brasil, de 1936, o sergipano é o homem cordial. O sergipano quer se dar bem, mas talvez ainda sofra de ausência de caldo cultural, aquela sopa histórica que contribui para fazer do baiano um predestinado a se destacar nas artes e que o incentiva a bater lata quando criança. Mas isso não explica que de estados culturalmente semelhantes a Sergipe, como Alagoas e Paraíba, brotem personalidades de maior reconhecimento nacional.

Talvez ao sergipano tenha faltado autenticidade mesmo, inventividade. A carência de originalidade é evidente, por exemplo, na antes dita “música popular sergipana”, que alguns carregam no arranjo e quase não acrescentam nada. No entanto, no campo literário pelo menos o sergipano é reconhecidamente bom. Mas então por que daqui não sai um Jorge Amado (embora tenham saído os pais do escritor, o comerciante itaporanguense João Amado de Faria e Eulália Leal Amado, que se radicaram nas terras grapiúnas do sul do Bahia)?

Um dia o iconoclasta jornalista Joel Silveira declarou seu horror à literatura de Jorge: “É de uma precariedade terrível. Eu tenho a impressão que Jorge sabia por alto umas 47 palavras". É evidente que nem o Joel acreditava nisso. Algo parecido com o que fez o polemista Silvio Romero no século XIX. Poderoso na imprensa do Rio de Janeiro de então, admirador incondicional de Tobias Barreto, ele nunca deixou de colocá-lo acima de Castro Alves, além de ter mantido, durante algum tempo, certa má vontade para com a obra de Machado de Assis.

E a crítica não deu a Tobias reconhecimento maior do que o do poeta condoreiro. Como não diminuiu a importância do carioca Machado e nem do baiano Jorge, que em determinado momento beirou a unanimidade nacional. Um patamar ainda muito alto para qualquer sergipano ousar alcançar.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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