O talento, o discurso e a prática

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O Talento tem o especial talento de se fazer nascer das mais diversificadas formas, transmutando-se rapidamente em outras quando cansado do corpo originalmente escolhido. Em alguns momentos se faz ouvir rompendo o silêncio, sussurrando uma inusitada melodia. Em outros, fazendo quebrar a branca monotonia de uma tela virgem, ainda não tocada pelo pincel colorido do artista. Noutros, fazendo da necessidade uma grande oportunidade de ascensão individual ou coletiva. Enfim, o Talento não tem desenho definido ou lugar para se fazer germinar, mesmo porque simultaneamente pode estar presente em infinitos espaços, motivos ou corpos.

O Talento de Jesus Cristo, Buda, Confúcio, Francisco de Assis, Maomé, Alan Kardec, Dalai Lama, dentre outros, é fonte de inspiração espiritual para todos os habitantes do planeta, mesmo quando não se assuma a verdade por um deles adotada.  O Talento de Gandhi, Martin Luther King, Mandela. Dom Helder Câmara e Betinho,  lembra-nos que a paz pode triunfar sobre a beligerância, a desigualdade e insensibilidade de outros, revogando a absurda idéia de que a paz somente pode ser obtida quando todos se preparam para guerra. O Talento de Goya, Jenner, Picasso, Dali, Di Cavalcanti, Portinari, Ravel, Mozart, Chico, Gonzaga, Mariza Monte, Machado de Assis, Cora Coralina, Jorge Amado e Tobias Barreto, incorporado em centenas de milhares de outros, é a prova mais viva da sua pluralidade sábia.

Mas nem sempre o Talento é sinônimo de coisas ou contornos destinados ao nascer da beleza, ao crescimento do indivíduo ou ao florescimento da humanidade. O Talento também se faz incorporar em pessoas que se dedicam a construir a destruição alheia, erguer castelos de ódios, cimentar caminhos sabidamente tortos ou simplesmente derrubar aqueles que apenas tiveram a má-sorte cruzar uma dessas passagens. E não são poucos os modelos conhecidos destas espécies de pessoas tidas como “talentos do mal”, algumas até figurando como sinônimos da encarnação da própria maldade, a exemplo de Hitler, Mussolini, Idi Amim, Médice, Pinochet, Pol Pot, Colllor, Maluf, Bin Laden, Fernandinho Beira-Mar e milhares de outros que pisaram e ainda pisam no solo do genocídio, da hipocrisia, da traição, da corrupção, do assassinato ou do desprezo pela vida humana.

 Também este tipo de Talento não tem uma forma definida ou previamente conhecida, até porque, não raro, espertamente consegue se disfarçar ou figurar no time do Talento mais respeitado e admirado. Registre-se que não são disfarces quaisquer, pois conseguem ser aclamados como defensores da moralidade, da fé, da democracia e da própria vida. Foi a defesa da moralidade quem motivou o assassinato de milhares de mulheres ao longo da História. Foi a pregação da fé quem justificou o Papa Inocêncio III a ordenar o massacre de mulçumanos, judeus, cristãos-cátaros, mulheres e crianças nas cruzadas tidas como “santas”, hoje copiadas por Sua Santidade Fundamentalista G. Bush. Foi a da proteção à democracia quem fundamentou o golpe militar brasileiro e sedimentou a ditadura, a tortura, o exílio e o assassinato de presos políticos.

É preciso, assim, ficarmos constantemente alertas no que se refere ao mundo dos talentosos, buscando-se aperfeiçoar mecanismos de antecipação de uma futura decepção. Ainda mais quando se sabe que a competência para o engano do especialista é tão grande que facilmente incorporada ao seu próprio estilo de vida, pouco corando quando pego no flagra ou desnudo o seu verdadeiro caráter. E, ainda para complicar a tarefa de separar o joio do trigo, não raro cometemos falhas e praticamos injustiças, provocando-nos arrependimentos tardios e frustrações eternas. 

Eis porque adotei alguns métodos para fins de orientação, ainda mais quando a vida me fez vítima de alguns falsos amigos e uma porrada de mercadores que venderam a minha esperança de um mundo sem medo. Um deles é observar se o discurso do orador corresponde à sua prática, pois hoje é bastante comum corrupto falando em combater a corrupção ou em propagando a solidariedade quando é incapaz de demonstrar compaixão por quem está próximo. Não sem razão desacredito na sinceridade daqueles que, como vários radialistas matinais, fazem da destruição alheia o seu próprio ganha-pão. Olho-os com indiferença e ceticismo, até porque creio piamente que quem só enxerga maldade nas pessoas é porque somente tem maldade no coração.  A dica mais atual é saber que o bom discurso não pode nos impressionar, salvo quando anexado a uma prática coerente e exemplar.

Cezar Britto, é advogado e secretário-Geral da OAB
cezarbritto@infonet.com.br

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