O TESOURO DOS JESUÍTAS EM SERGIPE (I)

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Os padres da Companhia de Jesus, antes mesmo da conquista de Sergipe pelas tropas de Cristovão de Barros, andaram pelas terras sergipanas, atravessando a fronteira natural do rio Real e percorrendo as margens dos rios, atingindo o sertão sanfranciscano, por volta de 1567. Em 1575 o padre Gaspar Lourenço, em companhia do clérigo João Salonio, tomou para si a responsabilidade pela catequese das nações indígenas que ocupavam as terras, entre os rios Real e São Francisco. A relativamente bem sucedida entrada, registrada pelo Provincial Inácio de Tolosa, em carta datada de 7 de setembro de 1575, facilitou as comunicações entre Bahia e Sergipe, e de algum modo preparou a conquista definitiva, de 1590. Não ficaram por aí as ligações dos jesuítas com Sergipe. Ocupando terras para lavoura de cana de açúcar e fazendas de gado, catequisando e aldeando índios, ou administrando o Colégio do Tejupeba, entre São Cristovão e Itaporanga, nas proximidades do rio Vaza-Barrís, (atual Fazenda Iolanda, ou Povoado Colégio, dos herdeiros de Nicola Mandarino, onde resistem a velha Igreja e o pequeno sobrado da escola), os jesuítas permaneceram, em vários pontos do território, até a expulsão, em 1759, pelo Marquês de Pombal, seguida de demandas legais, confiscos de terras e outros bens. Vem daquele tempo e ainda hoje circula no imaginário sergipano as estórias de riquezas, em ouro, prata, moedas, alfaias, escondidas e deixadas quando em fuga os jesuítas tiveram que abandonar suas posses. Tais estórias correram em Laranjeiras, dando conta que havia túneis de comunicação entre algumas capelas e igrejas, como a do engenho Reitor, a da Comandaroba, a do Bonfim, grutas calcáreas como a Pedra Furada e a da Matriana. Afirmava-se, em Laranjeiras, que algumas pessoas conseguiram entrar na gruta da Pedra Furada, percorrendo seus corredores e salões, encontrando peças valiosas. Entre os relatos populares há um que trata de uma pessoa que ficou louca, depois de entrar e de achar parte da riqueza dos jesuítas em Laranjeiras. Também está no imaginário do baixo São Francisco estórias de tesouros deixados pelos jesuítas em ilhas do velho Chico, que também possuíam túneis que permitiram que os padres fugissem, mas deixassem em segurança tudo o que não puderam levar. Uma dessas lendas é a que ficou conhecida como o Tesouro de Jaboatão, inspiradora de dois romances e de uma crônica, além de série de reportagens, publicadas seguidamente. O juiz de direito José Bezerra dos Santos escreveu, em 1955, o seu romance O Tesouro de Jaboatão, ilustrado por Álvaro Santos, publicando-o pela Livraria Regina, com o patrocínio do Movimento Cultural de Sergipe, dirigido por José Augusto Garcez. O outro romance tem o título de Os Tesouros das Catacumbas, e é de autoria do escritor sergipano Armindo Pereira (Rio de Janeiro: Livraria Editora Cátedra/INL, 1983.) A crônica que completa o aproveitamento literário do tema da riqueza dos jesuítas está no livro de memórias Baú do Turco, de autoria do engenheiro e intelectual Lauro Fontes, sergipano radicado na Bahia. O livro, publicado pelo autor, em Salvador em 2003, dá seqüência aos trabalhos evocativos de Lauro Fontes, como O Vendedor de Arco-Iris, Era uma vez…, que abordam as suas lembranças sergipanas. Os três autores se valeram das fontes populares, mas contaram, também, com a caça ao tesouro, decorrente do episódio amplamente divulgado, em 1931, dando conta que um lavrador – José Pedro de Alcântara, de 33 anos, nascido em Pajeú das Flores, no Estado de Pernambuco, mas tido como natural de Jaboatão – sonhara com o tesouro dos jesuítas. O jornal A Tribuna, dirigido por Humberto Dantas, noticia assim o fato: “Pedro de Alcântara, lavrador humilde, nascido naquela povoação, há trinta e poucos anos fora o escolhido pelo destino, para ser o personagem de um fato que se vem desenrolando naquele pedaço de Sergipe, envolto num mistério profundo.” Desde o dia 6 de maio que o jornal preparava os seus leitores para a série de matérias, que ocupariam a primeira página, de 7 a 25 de maio, com destaque sensacionalista, ofuscando os temas políticos dominantes, apaixonados, produzidos pelo Governo revolucionário. No dia 6 A Tribuna promete: “A Tribuna dará amanhã notícia detalhada do descobrimento de um colossal tesouro enterrado pelos jesuítas, em Jaboatão.” E no dia seguinte estampa, como manchete: “A Sensacional descoberta de um tesouro nas terras de Jaboatão, enterrado pelos padres jesuítas. Um sonho que traduz a realidade.” O noticiário provocou uma agitação sem precedentes. O padre de Jaboatão – Evêncio Guimarães – trouxe a questão para o Bispo diocesano, Dom José Tomás Gomes da Silva, e para o Interventor Federal, Augusto Maynard Gomes, protegendo os direitos da igreja sobre as supostas riquezas. Em entrevista concedida em Aracaju, padre Evêncio Guimarães conta assim, os fatos: “Pedro de Alcântara procurou-me, há dias, para declarar-me que havia lhe aparecido com uma nitidez extraordinária, num sonho, um frade dizendo-lhe que fosse à fonte denominada Bica e lá encontraria uma chave com os dizeres “Chave do Mistério” e duas placas de prata, com inscrições em alto relevo…. “Dom José foi rápido e seguro, assumindo a proteção do “tesouro”: “A Igreja absolutamente não quer um real do direito alheio, mas não cede uma linha dos seus direitos sagrados” e orientou padre Evêncio Guimarães, depois de ver a chave a as placas, que a metade do tesouro caberia a Igreja como proprietária, e a outra metade ao “inventor,” ou seja, ao “escolhido” para encontrar a fortuna dos jesuítas, aquele homem simples guiado em sonho por um religioso, para descobrir a riqueza deixada em Jaboatão. O Interventor afirmou que da sua parte protegeria os direitos de cada um. Em Jaboatão havia uma verdadeira corrida ao “tesouro”, com ofertas em dinheiro para a compra da chave e das placas encontradas na Bica por Pedro de Alcântara, e com escavações feitas pelo tabelião e pelo próprio padre. O Intendente Municipal, Francisco Guimarães, fazia planos para a cidade, tomada pelo fervor da riqueza fácil. (continua) Permitida a reprodução desde que citada a fonte “Pesquise – Pesquisa de Sergipe / InfoNet”

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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