Olhar para o Ordinário e Enxergar o Extraordinário (*)

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Ferguson(1980)[1] no seu livro “A Conspiração Aquariana”, um “best seller” mundial, fez uma pesquisa com centenas de pessoas visionárias e formadoras de opinião e, como resultado, listou um conjunto de transformações pessoais e sociais que estariam acontecendo na década de 80. A autora já preconizava a “ressurreição” da espiritualidade em todo o Globo como uma maneira do homem voltar a perceber o seu papel no Universo. Quase simultaneamente, Naisbitt (1985) lançou outro “best-seller” mundial o “Megatrends 2000” que de certa forma confirmava as previsões de Ferguson e definia dez grandes mega-tendências[2].

 

Em 2005, Pink[3] apresenta as provas dessas teorias especialmente no que se refere ao desenvolvimento do homem. Segundo esse autor, a Humanidade passou por quatro grandes transformações: a Revolução Agrícola (Sec. XVIII), a Era Industrial (Sec. XIX), Era da Informação (Sec. XX) e Era Conceitual (Sec. XXI). O que o mesmo preconiza é que à medida que as tecnologias foram ficando mais poderosas e o mundo mais interligado a combinação da riqueza, progresso tecnológico e da globalização levam a humanidade a ingressar em uma nova era. Desta forma, deixamos de ser uma sociedade de agricultores e passamos para uma sociedade de operários de fábricas, em seguida evoluímos para uma sociedade de trabalhadores do conhecimento. Agora, na chamada Era Conceitual, estando dando mais um passo, transformando-nos em pessoas criativas, empáticas, leitoras de padrões e produtoras de sentido. Portanto, gradativamente deixamos de ser uma economia fundamentada na resistência física das pessoas, passamos para uma economia escorada no cérebro esquerdo e estamos emergindo para uma economia e sociedade que tende cada vez a utilizar conjuntamente as habilidades dos hemisférios direito e esquerdo.

 

Segundo Pink, para sobreviver na Era Conceitual, pessoas e organizações devem analisar o que estão fazendo para ganhar a vida e fazer para si mesmo as três perguntas seguintes:

1 – Alguém no exterior pode fazer mais barato?

2 – Um computador pode fazer mais rápido?

3 – Existe demanda para o que estou oferecendo nessa era abundância?

 

Se a resposta para as perguntas 1 e 2 for sim e para a pergunta 3 for não então estamos em apuros; portanto, a sobrevivência hoje está assegurada para aquelas pessoas cujas atividades os trabalhadores do conhecimento não são capazes de fazê-las.

Portanto, o que se percebe é que só o “high tech[4]” não é o bastante, é preciso complementar as muito bem as desenvolvidas habilidades “high tech” com as aptidões chamadas “high concept[5] e “high touch[6].

Para sedimentar esses argumentos, alguns dados apresentados a seguir devem ser considerados[7]:

 

1 – Faculdade de Medicina da Universidade de Columbia e outras instituições estão treinando os seus alunos em “medicina narrativa” porque as pesquisas estão mostrando que, apesar da eficiência do diagnóstico por computador, aspectos importantes para o diagnóstico podem ser coletados do próprio paciente recompondo a sua história de vida.

2 – Na Faculdade de Medicina de Yale, os alunos aumentam o seu poder de observação no Centro de Arte Britânica de Yale, porque os professores acreditam que por estudarem pinturas podem se tornar profissionais mais perceptivos.

3 – Ao mesmo tempo cerca de 50 Faculdades de Medicina dos USA incluíram espiritualidade em seus programas de ensino.

4 – Na UCLA Medical Schooll os alunos do segundo ano passam a noite no hospital tratando de doenças fictícias com o intuito de que os alunos desenvolvam empatia pelos seus futuros pacientes.

5 – Japão está formulando o seu decantado sistema de ensino no sentido de permitir que seja estimulada a criatividade, o senso artístico e o lúdico. Nesse momento a maior fonte de renda do Japão não está mais no setor automobilístico ou eletrônico, mas sim na cultura pop.

6 – A gigante multinacional General Motors contrata um executivo chamado Robert Lutz que afirma: ”Nosso ramo é o da arte. Arte, entretenimento e esculturas móveis, que, por acaso são um meio de transporte.”

7 – Enquanto o programa de MBA de Harvard admite cerca de 10% dos inscritos, o programa de Mestrado em Belas Artes admite apenas 3% dos inscritos. Por quê? O MFA como é chamado passou a ser um das credenciais de maior status num mundo onde até a General Motors se considera no mundo das artes.

 

Portanto o que estamos enxergando é um mercado cada vez mais cheio de profissionais, um mundo altamente competitivo e a busca cada vez mais acentuada por soluções diferenciais e ainda não pensadas.

Logo, não vale pensar apenas logicamente e acreditar que tudo estará resolvido com planejamentos, objetivos estratégicos e outras ferramentas é que entra a demanda pelo hemisfério direito do cérebro, pois é com a sua ajuda que conseguimos olhar para o ordinário e enxergar o extraordinário.

Portanto, para olharmos para o ordinário e sermos capazes de enxergar o extraordinário, o caminho não é difícil, todavia, passa, essencialmente, pela capacidade, habilidade e atitude de resgatar o pensamento criativo que foi sufocado por conta de muitos anos de pressão através do ensino convencional que nos prepara para pensarmos logicamente utilizando sempre como referência os modelos do passado. Coisas da vida! Mas, como afirmou em 1902 James Blake[8], grande psicólogo americano: “De todas as criaturas existentes na Terra, somente os seres humanos podem modificar os seus padrões. Só o homem é o arquiteto do seu próprio destino. A maior revolução da nossa geração é que os seres humanos, modificando as atitudes inferiores de suas mentes, podem modificar os aspectos externos das suas vidas.

 

 

(*) Fernando Viana

www.fbcriativo.org.br



[1] Marilyn Ferguson – “Conspiração Aquariana – Transformações pessoais e sociais nos anos 80”- Ed. Nova Era, `São Paulo, SP.

[2] 1- A explosão econômica global; 2 – O renascimento das artes; 3 – A emergência do socialismo de mercado; 4 – A globalização do estilo de vida; 5 – O declínio do “welfare state”; 6 – A era da biologia; 7 – A liderança nos anos 90; 8 – A Ascensão do Pacífico; 9 – O renascimento espiritual; e 10 – O triunfo do indivíduo.

[3] Daniel Pink – O cérebro do futuro. A revolução do lado direito do Cérebro. Ed. Campus, 2005.

[4] Alta tecnologia.

[5] Capacidade de criar beleza artística e emocional, de perceber padrões e oportunidades, de conceber narrativas interessantes e de combinar coisas aparentemente desconexas para criar algo novo.

[6] Capacidade de criar empatia, de compreender as interações humanas, de suscitar às pessoas a enxergarem além da superfície na busca de propósitos e sentido.

[7] Fonte: O cérebro do Futuro – Daniel Pink, Ed. Campus, 2008.

[8]  In: Marilyn Ferguson – “Conspiração Aquariana – Transformações pessoais e sociais nos anos 80”- Ed. Nova Era, `São Paulo, SP, pag. 46.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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