Operação Cajueiro e o silêncio oficial

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Tive a felicidade de ler essa semana o artigo “Memória e Literatura na (re)construção da história da Ditadura Militar brasileira”, escrito pela jornalista sergipana Gabriela Amorim, publicado no livro “Anais do I Seminário Nacional Democracia, Direitos Humanos e Desenvolvimento”. A autora, que até pouco era também colunista do Portal Infonet, nos mostra como a história e a memória são seletivas e permeadas por silêncios e esquecimentos e como a ditadura militar brasileira continua sendo um desses espaços de silêncios e esquecimentos da nossa história. Nas palavras da autora: “A História dos homens e mulheres que foram desaparecidos pelo Estado brasileiro durante a ditadura militar (1964-1984) ainda hoje permanece envolta em silêncios e segredos. Mesmo na literatura de ficção, poucos livros aventuram-se a contar a história dessas vozes silenciadas e de suas famílias”.

Por concordar com a colega jornalista, acredito que nunca é demais falarmos sobre os fatos que marcaram o período da ditadura militar em nosso país. Por isso, para os que vivem em Sergipe, nesses dias que antecedem o Carnaval não faz mal algum lembrar que, há 39 anos, acontecia por essas terras a Operação Cajueiro, que teve início dias antes dos festejos de Momo e se prolongou durante semanas, prendendo e torturando, física e psicologicamente, estudantes e trabalhadores de Sergipe que resistiam ao governo militar.

A Operação Cajueiro, assim como todas as ações do período entre 1964 e 1984, se constituiu também a partir de um silêncio imposto pelos donos dos veículos de comunicação de Sergipe à época. Silêncio que, em verdade, foi uma tendência nacional, já que boa parte dos proprietários de emissoras de rádio e televisão e de jornais impressos se aliou com os militares e, ainda hoje, insiste em afirmar, como explicitou um editorial da Folha de São Paulo, que no Brasil houve uma “ditabranda”.

Mas se o silêncio dos meios de comunicação não é novidade, espanta o silêncio de outros personagens dessa história, em especial do Governador Jackson Barreto.

Jackson, que foi perseguido pelo regime militar, contribui decisivamente para o silêncio e o progressivo esquecimento das torturas, prisões e mortes do período militar em Sergipe ao, por exemplo, insistir em não instalar a Comissão Estadual da Verdade.

Quais foram os personagens e órgãos que colaboraram com a Operação Cajueiro e as demais ações da Ditadura em Sergipe? Que setores do empresariado apoiaram as ações de tortura? Quais políticos, realmente, apoiaram e quais, realmente, combateram o regime? Qual foi a postura do conjunto da imprensa? Houve resistência dentro dos jornais? E a mídia alternativa? Qual o papel desempenhado pela Igreja Católica nos anos de chumbo em Sergipe? Como os órgãos da Ditadura atuaram nas escolas públicas sergipanas e nos cursos universitários? E a nossa cultura, como foi tratada pelo regime? Artistas foram perseguidos? Quais? Essas são apenas algumas das tantas perguntas que a Comissão Estadual da Verdade poderia (deveria) investigar e dar respostas concretas e oficiais e, assim, junto às informações do relatório final da Comissão Nacional da Verdade, compor um quadro histórico e político da Ditadura Militar em Sergipe.

Para ficar apenas na região Nordeste, Alagoas, Bahia, Paraíba, Pernambuco, Maranhão e Piauí criaram Comissões Estaduais da Verdade, que têm revelado uma série de informações sobre as medidas do regime militar em cada local, contribuindo para a reconstrução da história e da memória das populações desses estados. Por aqui, apenas a omissão e o silêncio oficial.

Ainda assim, contrariando a canção que diz “todo carnaval tem seu fim”, o carnaval de torturas de 1976 em Sergipe resiste e permanece vivo, mesmo que sob cortinas de silêncios e esquecimentos. Resiste e permanece vivo porque ainda precisa ser desvendado, analisado, interpretado.

p.s.: A expressão “carnaval de torturas”, utilizada no último parágrafo do texto, foi tomada por empréstimo do documentário “Operação Cajueiro – um carnaval de torturas”, produzido pelos sergipanos Fábio Rogério, Vaneide Dias e Werden Tavares, que está disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=pAT_U-IEyZw

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