Orgulho do professor

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Eu tenho muito orgulho do professor. Não estou dizendo que tenho orgulho de ser, porque não sou. Estou afirmando, dentre outras coisas apropriadas, que há uma linhagem de mestres na minha família que dá um orgulho danado. Alguns deles grandes como os grandes mestres que tivemos ou conhecemos ao longo da vida.

Minha avó materna era a professora Normélia Melo de Araújo, a professora Normélia que ensinou no Jackson de Figueiredo e na Escola Normal. Aliás, ela era oriunda da Escola Normal. Professora de Geografia e Matemática. Ela utilizava um método de pontuação nas provas que era curioso. Cada uma das 10 notas correspondia a uma letra da palavra Pernambuco – que tem 10 letras e nenhuma se repete. O “P” era nota 10, o “O” era zero – nota que ela nunca precisou dar.

Professora Normélia era irmã da professora Zamor. Áurea Melo, mais conhecida como Zamor, um apelido de infância. Foi professora de Português e História no Jackson, na Escola Tobias Barreto e na Escola Técnica Federal de Sergipe, desde quando ainda se denominava Escola de Aprendizes Artífices e, depois, Escola Industrial Federal de Sergipe. Uma pessoa querida, caridosa, eternamente solteira, sempre dedicada ao trabalho e possuidora de um senso de gestão pública que a fez galgar cargos de direção no Ministério da Educação e na própria Escola Técnica.

E tinha outra qualidade: nunca bateu o carro, apesar de ser uma reconhecida barbeira quando estava na condução do seu Fusca. Mesmo quando se irritava com outro motorista, naturalmente reclamando das barbeiragens dela, e respondia ao mal-educado com o seu mais pesado impropério: “Pindoba seca!”.

Zamor, que morava na Rua Itabaianinha, ao lado do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, criou uma escolinha para lavadores de carros que possibilitou revelar profissionais reconhecidos em outras áreas.

Ela e Normélia integravam um grupo de nove irmãs, todas filhas dos mesmos pais de Aquidabã, sete delas professoras. Inclusive as quatro que serviram à vida como freiras da Congregação Sacramentina e a professora Eurídice Melo, carinhosamente chamada de Lola, que também ensinou no Jackson de Figueiredo. Zamor e Normélia obtiveram o reconhecimento da sociedade e seus nomes estampam fachadas de escolas públicas.

Menos reconhecido, pelo menos por aqui, é o professor Nélson de Araújo, cunhado de Normélia, portanto, um tio-avô. O capelense Nélson Correia de Araújo radicou-se em Salvador ainda jovem, foi jornalista, escritor, pesquisador da cultura popular e professor da reconhecida Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia. Dentre dezenas de livros como peças teatrais, novelas e um inventário sobre a cultura popular baiana, publicou “História do Teatro”, alentado volume que serve de consulta a quem pesquisa a manifestação artística.

Dos seis filhos de Normélia, três foram professores. Lúcia de Araújo Carvalho ensinou no Estado, Célia de Araújo Telles e José Augusto Melo de Araújo lecionaram, Português e História, na Escola Técnica. Maria Luiza Araújo Cardoso, minha mãe, não foi exatamente uma professora, embora tivesse formação como pedagoga na Escola Normal e na Universidade Federal. Mas foi durante toda a vida servidora do Ministério da Educação, onde trabalhou na inspeção escolar e chegou ao posto de delegada do MEC em Sergipe, quando ainda havia tal delegacia.

Foi casada com Francisco Batista Cardoso, meu pai, servidor aposentado da Escola Técnica. A mesma escola, vejam só, onde lecionou seu irmão, o meu tio professor José Américo Batista Cardoso, o professor Américo do curso de Edificações.
Com tanta influência em casa, eu mesmo experimentei a sala de aula ensinando por dois anos no curso de Jornalismo da Unit. Não fui um mau professor e acho que ex-alunos, hoje colegas de profissão, podem atestar isso. Mas foi um período muito difícil na minha vida, pois tinha que conciliar as aulas à noite com o trabalho na TV Sergipe e no Cinform, além das obrigações de pai de duas crianças pequenas, a mais nova vindo ao mundo naquele momento.

E como fugir ao destino? Sou casado com Nadia Maria da Silva Cardoso, dedicada professora do Estado há três longas décadas. Dentre outras, ensinou na Escola Zizinha Guimarães, em Laranjeiras, e também na Escola Normal. Foi diretora das Escolas Poeta Garcia Rosa e General Siqueira. Dirigiu a Diretoria de Educação de Aracaju por seis anos e hoje encara o desafio de ajudar a implantar a Assessoria Internacional na Secretaria de Estado da Educação.
É para ter orgulho do professor ou não?

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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