Os Garcia Moreno de Sergipe – Uma saga a perquirir I.

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O ano da Graça de 2010 é sobremodo importante para família Garcia Moreno em Sergipe. Comemoramos os cem anos da morte do Monsenhor João Batista de Carvalho Daltro (1828-1910), os cento e trinta anos do nascimento de seu filho, o Farmacêutico Pedro Garcia Moreno (1880-1956), e há cem anos nascia o filho deste e o neto daquele, o Médico, Professor e Psiquiatra João Batista Peres Garcia Moreno, três gerações de uma família de real destaque na sociedade sergipana.

 

Numa tentativa de resgatar parte desta história familiar, inicio uma série de artigos de maneira a suscitar complementos, correções e aprofundamentos.

 

Preliminarmente devo dizer que tudo começou quando li alguns cadernos dos diários de Pedro Garcia Moreno, antes manuseados por seu filho o Médico Garcia Moreno.

Foi deste olhar sobre Pedro que nasceu o meu interesse e vontade de escrever sobre o tema agora iniciado.

 

I – Um olhar sobre Pedro.

 

“Entre as lembranças mais remotas de minha infância, está a cena de meu Pai a escrever, todas as noites, seu Diário. Era hábito que vinha de sua mocidade, do período em que, mal saído dos bancos acadêmicos, se fez professor em Laranjeiras. Na longa mesa de sala-de-jantar, transladava para as páginas de um grosso caderno, com letra inconfundível e pureza vernacular, o mais importante que o tempo lhe ia escrevendo na vida. Feto o registro de mais um dia que findara, entregava à segurança de um pequeno baú de folha, ao lado de outros já cheios, o caderno de seus assentamentos íntimos. Aos olhos de minha curiosidade, o baú amarelo era um cofre de mistérios, afastado de minhas mãos pela distância invencível de um tabu. Por muitos anos, pensei que meu Pai escrevia segredos, como a última tarefa de uma jornada de trabalho.

Após sua morte, coube-me a comovedora missão de depositário do acervo de seus escritos. Posso, agora, dentro da noite, quando os rádios estão calados e Aracaju é um grande corpo que ressona, abrir os cadernos de meu Pai. As páginas de vida em São Paulo parecem as de um romance em que se conta a história de pau-de-arara de antes da primeira grande guerra, que se foi, no Itaipava, carregado de filhos miúdos, para uma aventura malograda. Depois a volta. A procura vã de emprego no Aracaju. A ida apara Maroim, onde haveria de fixar-se. Nas páginas amarelecidas dos cadernos, repassam figuras de todos os tipos e retrata-se a comédia humana da pequena cidade. A alegria e o triunfo são minúsculas ilhas singulares, perdidas numa enorme massa compacta de luta e sofrimento, em que está nadando um herói obscuro.”

 

Quando João Batista Perez Garcia Moreno escreveu o texto acima como abertura de seu livro de crônicas, ”CAJUEIRO dos PAPAGAIOS”, publicado em 1959, jamais esperaria que após sua morte em ­­22/10/1976, alguns destes cadernos dos diários de seu pai, Pedro Garcia Moreno, chegassem, às mãos de minha esposa, Tereza Cristina, uma das suas sobrinhas, filha de Julia Nascimento Garcia Moreno e Aldejebran Garcia Moreno, seu irmão, o filho caçula dos primeiros Garcia Moreno.

 

A leitura dos cadernos do avô Pedro empolgou sobremodo a neta que o tinha em memória fugaz, afinal possuía quatro anos apenas quando seu avô falecera.

É Tereza Cristina quem revela:

 

“Ler os diários de vovô foi para mim uma experiência fantástica. Como convivi muito pouco com ele, os diários me fizeram ver a pessoa maravilhosa que era com a família e com o próximo, sempre preocupado com os filhos, para que fossem pessoas do bem na sociedade.

Tenho orgulho de ser sua neta e afilhada. Falando sobre a família, ele achava que era preciso bater e rebater até gravar no subconsciente esta verdade:”

 

‘O indivíduo passa rápido como o fumo; só a espécie é que goza do privilégio de relativa eternidade’

 

Por circunstância do acaso, três destes cadernos dos diários de Pedro Garcia Moreno ficaram conosco durante algum tempo. Alguém nos emprestara, tendo Tereza logo se apaixonado pela temática ali contida.

 

Pedro Garcia Moreno podia ser o Farmacêutico zeloso da sua ciência, retilíneo no agir e proceder, mas alguém incomum na realidade que estimula a improvisação, o gingado e os jogos de cintura.

 

Rejeitando o célebre jeitinho mestiço que tanta graça enseja xistosidade aos filhos da pátria, Pedro era diferente de tudo quanto se convencionou do “savoir-faire” do brasileiro, aquilo que não o eleva e só o denigre, mas que o folclore lhe enaltece como rapidez de gesto e esperteza de sestro.

 

Pedro era totalmente diverso desta visão macunaímica do brasileiro. Ele era avesso a esta cômica e histriônica visão da raça brasílica, como um caldeamento de pouca graça e em pior jaça, mistura dita horrorosa, amorosa ou charmosa de tristes raças.

 

Não lhe tocava nem a visão asquerosa por abjeta de Gobineau, o racista, segundo a qual seríamos macacos, meia-casta, ou quase isso, nem a ufania musical de Bilac, um tema de volúpia ao acaso ou ao descaso, nem também o descomprometimento desgracioso em catarse orgíaca e carnavalesca.

 

Para Pedro a humanidade era uma meta a perseguir; o homem, todo homem, o brasileiro sobremodo, uma alma a animar e construir.

 

E como tal, Pedro fora um cidadão modelar, na visão varonil de Plutarco. Algo pouco ilustrado no final do século dezenove e na efervescência de uma nova era em perspectiva de “belle epoque”. Um homem que viveu na metade do século vinte,

 

Vigésima centúria que se lhe apresentava, como esperada, em maioria, em oriente de sorrisos e de fastígios. E viu-se logo desde as primeiras décadas que nada seria o mesmo com o século promovendo, no multe e variado cadinho do relativismo e do cientificismo dialético, o amplo fenecer das envelhecidas negações dogmáticas.

 

Mas o século que repelira a bizantina ciência e a pascaliana transcendência, e que deveria com isso ser o império do cérebro, do cartesianismo, do pensamento e da racionalidade, rapidamente se degradou, perdeu o brilho e a cor, a esperança e o seu fulgor.

 

Restou uma irretocável derrocada de mitos e de deuses, com o deflagrar de indispensáveis rebeliões sociais, com as inexoráveis incompreensões e as lamentáveis perseguições raciais. Tempo de muitas revoluções traumáticas, em fartas experimentações adiabáticas, com a ciência fustigando a transcendência e a intolerância semeando angústias, sofrimentos, em ápice histórico de dor, e em superior, e jamais visto sangramento varonil.

 

E Pedro viu tudo isso, sem se afastar de seu rumo, com o leme evitando tais descaminhos, pregando sua razão de vida enquanto cidadão, profissional zeloso, servidor de sua comunidade, chefe de família exemplar, verdadeiro patriota e civilista; valores permanentes em aparência ausência por démodé.

 

Para ele a nação e o mundo eram um prolongamento de sua família, uma linhagem exaltada ao lado da bandeira, áureo símbolo altaneiro da raça, que de maneira igual e paralela, teria de ser admirada, exaltada e reverenciada na sua ação construtora da humanidade.

 

Para Pedro, a construção da nação e dos povos sequenciava a formação do homem, em sua educação, seguindo o primado da ética, a aceitação do outro e a necessária capacitação para a vida.

 

Mas, se nos seus diários os pensamentos e as confissões íntimas não se afastam deste norte de seriedade ausente de tergiversações ou dúvidas, o homem ali se apresenta, também, e sobremodo, em ternura, carinho, afabilidade. Alguém que vê na família sua maior razão de existir, vibrar, e se emocionar com a vida.

 

Ei-lo, portanto, como o pai que se deleita com coisas simples como cuidar da higiene dos filhos, e dos netos, por exemplo, como se fora uma mãe zelosa, um pediatra sensível ou um amorável puericultor.

 

Um provedor que também não se esquece de acompanhar sua grei nos estudos, no relacionamento com a circundância, perscrutando as amizades adquiridas, norteando-as para o bom comportamento e, sobretudo, pela coragem e hombridade a externar nos percalços da vida.

 

E os diários revelam ainda o pranto dorido no sofrimento aceito e jamais repelido, e a alegria farta, incontida, ilimitada, internamente explosiva, extravasante e extremada, diante do sucesso dos filhos nos caminhos da vida.

 

Ouve-se o pranto incontido de um gigante ferido uivando em íntimo relato do acidente do filho, quase criança, com a perna amputada num acidente ferroviário. A luta para fazer o jovem superar o trauma, as dores e limitações físicas, tudo dissertado para si próprio, como a busca sequiosa de uma tecnologia melhor e mais avançada para a prótese, com o custo lavrado, e a remessa difícil em importação de complicada burocracia.

 

E também a alegria de contemplar sua prole em vôos altos, atingindo como águias os inacessíveis píncaros dos rochedos da glória. E as coisas comuns, do dia a dia de Maroim, cidade dormitante nas rasuras do Ganhamoroba, quando já os saveiros ali rareavam e a história era menos criada, soletrava-se pouco, e era mais que hoje, recapitulada.

 

História de sua presença motriz a preluzir o velho Gabinete de Leitura, sendo seu dirigente, secretário, presidente, orador oficial eloquente, pregando para todas as gentes a necessidade da leitura, do estudo, da reflexão, do culto ao saber e às tradições.

 

Enfim, uma “vida em cadernos” como assim escreveu Garcia Moreno, o seu filho mais destacado, nas letras e na ciência, entre outras gemas tão suas quão belas, e de igual brilho; estrelas da sua constelação, Garcia Moreno, nomeada.

 

Pretendo nesta publicação, agora iniciada, traçar um pouco do que me foi possível reunir sobre Pedro e sua família Garcia Moreno. Tentar voltar ao passado, desencavar o que se encontra escondido e esquecido, sobreposto pela poeira do tempo que tudo apaga, em mútuo perdão de indiferença culposa e indolente aceitação.

 

E nesta volta ao passado, talvez muitos erros sejam cometidos, por inexatidão, desatenção, desapreço à ciência e até ignominiosa estupidez histórica; faltas e crimes que aceito o padecer, por qualquer ominosa acusação em meu imerecido julgamento.

 

Peço perdão, porém, se houver um desagrado por excesso de indecorosa mineração, ao enveredar pelo execrável e censurável, rejeitando do passado, os preconceitos e a sua tradição.

 

Que não me vejam como escarafunchador de inconveniências, ousando colocar na tradição escrita o que deveria permanecer como legenda nebulosa, só merecedora do olvido e afastamento.

 

Quanto à ausência de maiores informações, o presente texto é algo em construção. Sua dinâmica necessita de complementos e análises. Que os membros da família Garcia Moreno de diversos ramos, seus aderentes e aparentados povoando mundo e pelo Brasil afora, se sintam convidados a preencher as lacunas, acrescentando-lhes novas linhas e colunas.

 

Por fim, dedico esta intenção de trabalho a Tereza Cristina, minha esposa mui querida, e a nossa descendência com o Garcia Moreno, nominado ou não, mas jamais separado do sangue e do coração.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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