OS PROPÓSITOS DA VIDA

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A tática inicial era desviar a atenção do meu filho Ruan, agora com oito anos de idade, que me cobrava jogar futebol na quadra do condomínio em que residimos. Não porque não goste de brincar com ele ou com qualquer outro dos meus filhos, até porque não há nada mais rejuvenescedor do que curtir o prazer do compartilhamento familiar. O problema é que eu tinha acabado de chegar em casa, visivelmente cansado e esfomeado,  louco para curtir o merecido descanso noturno.

 

Armei como plano para derrotar a sua vontade, evitando que se frustrasse em razão da recusa, o mesmo artifício que ele adora utilizar, principalmente quando quer chatear o pessoal lá de casa. Passei a brincar o Jogo dos “Por quês”, aquele praticado por milhões de crianças espalhadas pelo mundo, em que metralham o seu alvo com várias perguntas sobre assuntos infinitos. Só que, desta vez, eu seria aquele que faria as intermináveis perguntas, até encontrar alguma que deixaria ele sem resposta, como comumente fazem conosco.

 

Aproveitei que a sua bola predileta tinha ficado em nossa casa de praia, para começar o jogo. Perguntei por que a bola tinha ficado lá, se ela era a melhor para jogar na quadra. Respondeu ele que não tinha culpa pelo esquecimento, pois dormira na casa de um dos seus primos, tendo sido minha a tarefa de trazer as coisas da praia. Então perguntei por que ele foi para casa dos primos, tendo ele respondido que foi em razão de eu ter deixado.

 

 Provoquei mais uma vez, agora lhe indagando o por quê da minha permissão para que dormisse fora, recebendo como resposta a constatação de que a autorização decorrera do fato de eu existir. É claro que a sua réplica não tinha qualquer relação com a doutrina filosófica defendida por Heidegger, Kierkegaard e o grande Sartre, mas o conteúdo existencialista da resposta me animou a continuar o jogo. Perguntei-lhe, então, curioso e  solenemente, a razão da minha existência, ao que me rebateu com um misto de zombaria e irritação: – E eu sei lá dos propósitos da vida!

 

Mais do que a complexa questão da existência metafísica do homem como princípio e fundamento para solução de todos os problemas, contida da resposta imediatamente anterior, esta última me surpreendeu ainda mais. Fiquei encurralado, pois não sabia como traduzir em pergunta a polêmica questão sobre o propósito da vida, até porque sabia que os mais competentes filósofos, cientistas e religiosos falharam quando tentaram pacificar o tema. Dei-me por vencido, pois sua resposta impedira a continuidade do jogo, talvez não sendo até esta a sua verdadeira intenção.

 

Mas como de cientista, médico, louco e filósofo todos têm um pouco, confesso ter ficado encafifado com o enigma exposto, tentando resolvê-lo durante as viradas reflexivas no colchão. Eu me transformei, repentinamente, em um insone Édipo diante da misteriosa Esfinge, convidando-me compulsoriamente a decifrar o seu inviolável segredo. Afinal, quais são mesmos os propósitos da vida, se é que a vida tem mesmo algum propósito?

 

Será que é o de viver cada momento em que a vida exige ser vivida, assim como faz uma criança quando se recusa a ser transformada em um adulto chato e almofadinha como querem alguns pais? Será o de curtir intensamente o encanto de ser adolescente na mocidade, namorando nos intervalos das aulas, telefonando para os amigos e experimentando os primeiros prazeres conscientes que aparecem? Será o de ser adulto, fazendo do trabalho uma grande fonte de prazer, curtindo a delícia de ser pai, desfrutando o sabor de uma grande amizade e sugando o néctar da paixão?

 

Antecipo que também falhei ao tentar conceituar a questão, pois não consegui decifrar integralmente a charada imposta pela vida. Entretanto, acordei satisfeito com a resposta que tentarei no futuro dar, se indagado for sobre qual teria sido o propósito da minha vida. Caso me permitam velhinho ficar, neste momento responderei que fui apenas um homem que brincou, namorou, chorou, sorriu, perdeu, ganhou, ousou, amou,  plantou árvores e se atreveu a fazer da sua vida um livre,  gostoso e divertido livro, assim como fizeram e fazem milhões de pessoas neste vasto mundo.

* Cezar Britto, é advogado e secretário-Geral da OAB
cezarbritto@infonet.com.br

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