Ovos, “pedras”, silêncio e outras coisas…

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Alguns setores da imprensa sergipana e vereadores da base de sustentação do prefeito João Alves Filho impulsionaram, na última semana, uma campanha pública de criminalização das lutas sociais na cidade de Aracaju. Como alvo principal, o Movimento Não Pago que, ao lado de outras entidades, coloca na agenda de debates da sociedade a questão do transporte público.

Digo que a campanha foi impulsionada e não iniciada por entender que as tentativas de criminalização não começaram agora, mas já atravessam alguns meses. Na semana passada, a ofensiva se ampliou principalmente pelo fato de integrantes do Movimento Não Pago terem atirado ovos em direção à Câmara de Vereadores na última quarta-feira.

Foi o Movimento Não Pago jogando ovos e setores da imprensa e vereadores da situação atirando pedras. Os adjetivos para os integrantes da entidade não foram poucos: vândalos, arruaceiros, baderneiros, vagabundos…

Qualquer ação pública de uma entidade ou movimento social pode ser questionada e debatida tanto pela imprensa quanto por parlamentares. Porém, antes de qualquer crítica ou ataque é dever de uma imprensa séria e de políticos comprometidos com os direitos da população (algo raro na Câmara de Aracaju, diga-se de passagem) analisar e considerar os contextos e motivações que levam um agrupamento a tomar determinada atitude pública.

Esse rebuliço de jornalistas e colunistas políticos de Sergipe não aconteceu, por exemplo, quando muitos dos integrantes do mesmo Movimento Não Pago receberam spray de pimenta nos olhos e cacetetes nos ombros como presente apenas por tentarem acompanhar uma sessão da Câmara de Vereadores.

As críticas feitas agora por setores da imprensa local e por alguns parlamentares não foram verificadas, por exemplo, com as inúmeras irregularidades existentes na planilha de custos apresentada pelo Setransp.

O barulho de agora não se ouviu quando o Setransp não enviou nenhum representante para uma audiência pública sobre a tarifa de ônibus na Câmara. O silêncio pairou tanto na imprensa quanto em boa parte do parlamento municipal. Inclusive, alguns dos que agridem o Movimento Não Pago não participaram da referida audiência.

O mesmo silêncio reinou quando os vereadores da situação foram contrários à instalação de uma CPI do Transporte.

Não foi diferente quando a bancada de João rejeitou, sem qualquer justiticativa razoável, o requerimento do vereador Iran Barbosa (PT) que solicitava à SMTT informações sobre o fluxo financeiro do sistema de transporte coletivo.

Pouco questionamento público se viu também quando, de uma hora para outra, vereadores da situação (muitos dos que agora atacam o Não Pago) mudaram o discurso, voltaram atrás em suas posições e acataram o veto do prefeito João Alves Filho ao Projeto de Lei 97/2013 que limitava em sete anos o tempo de circulação dos ônibus na Grande Aracaju.

Aliás, crítica é o que menos se observa com a política de João Alves para o transporte público. Uma política já bastante clara: todos os benefícios para o empresariado do setor e nenhuma preocupação com os direitos da população usuária de transporte coletivo. Na Câmara, a bancada de situação se limita a dizer amém a todos os mandos e desmandos do Executivo. Na imprensa, salvo raras e valiosas exceções, um silêncio que incomoda.

O Movimento Não Pago atirou ovos. A Guarda Municipal e a Polícia Militar já dispararam spray de pimenta e cacetetes. Vereadores da bancada de situação não têm compromisso com a população e atiram “pedras” em quem se preocupa com um transporte público de qualidade. Setores da imprensa se calam.

Não tenho dúvidas: spray de pimenta, cacetetes, descompromisso, “pedras” e silêncio doem muito mais.

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