POLICIANDO O PRECONCEITO

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Talvez por ter sido presidente da OAB/SE, ou mesmo por ser um pouco mais velho que outros, comumente sou transformado em orientador vocacional. Mas antes que os psicólogos reclamem que estou invadindo a sua área, aviso que as voluntárias e não cobradas consultas se resumem ao campo do direito, até porque acredito no velho ditado popular de que cada macaco deve cuidar de seu próprio galho. Aliás, meu filho mais velho, à véspera do vestibular, está buscando orientação profissional para decidir no agora aquele que será o seu trabalho no futuro.

Pois bem, esta semana recebi a visita de um jovem advogado que participara, durante a minha passagem pela OAB estadual, de uma comissão composta por estudantes de direito, querendo saber da minha opinião sobre a carreira que pretendia abraçar. Aparentando sinais de estava desconfortado em relação a uma imaginada desaprovação, disse-me que pretendia fazer concurso, não mais exercendo o mister de advogado. Até então eu compreendia o seu visível constrangimento, pois sempre estimulei os estudantes a serem advogados, especialmente porque é uma profissão que permite um elevado grau de independência, rebeldia, sustentabilidade e, acima de tudo, um relevantíssimo papel social.

Mas a sua apreensão consultiva não se resumia à simples informação de que fizera a opção pelo até agora cômodo emprego público. Ele acreditava na minha resistência à carreira que deseja seguir, pois de convivência não muito pacífica com a advocacia. Mais ainda, ele pensava que eu não gostava do profissional que pretendia ser, por motivos ideológicos e sociais.

Para encurtar a conversa, adianto que o desejo do meu amigo consulente era realizar o seu sonho de se tornar um delegado de polícia. Ele não queria mais ser advogado, ou exercer os tradicionais cargos de juiz, promotor, defensor ou procurador estatal. Não, ser policial era o sonho profissional do meu apreensivo amigo.

É claro que falei a ele, a título de estímulo inicial, que a principal função de um sonho é a se transformar em realidade. Ainda mais o profissional, pois o tempo para o trabalho é o que leva o maior pedaço da nossa vida, principalmente se aprovada a reforma que pretende aumentar o limite de idade para a aposentadoria. Exercer a profissão que não gosta é voluntariamente fazer da vida um inferno terrestre. Entretanto, deixar de ser advogado não era a maior preocupação de meu amigo, até porque ele sabe que não bate em meu coração o preconceito profissional ou mesmo outra situação sinônima. Acredito e sempre digo que aquilo que faço é extremamente importante, mas o que faço não me faz mais importante do que as pessoas naquilo que elas fazem. A questão aflitiva estava na sua opção pela atividade policial, pois polícia no Brasil é sinônimo de violência, de cumplicidade com o crime organizado ou instituição mais aterrorizadora que a própria bandidagem.

Confesso que esta conversa inesperada me fez refletir bastante, até porque no íntimo eu também guardava um pouco deste preconceito que o assustava, embora minha birra com a polícia tivesse como fundamento o seu passado de órgão encarregado da repressão política. No meu velho tempo de militância estudantil, era bastante comum ter um policial disfarçado de estudante de direito, quando na verdade apenas estudava as nossas vidas. E, venhamos e convenhamos, ser um personagem do Big Brother na vida real não é atração das mais agradáveis.

E quanto ao preconceito atual, realmente não se pode abstrair o fato de que a grave crise da segurança pública que assola o Brasil tem na polícia um bom cadastro para a sua divulgação, recrutamento e perpetuação. Não é raro encontrar um policial envolvido com o crime organizado, inclusive sendo o seu principal agente organizador ou executor. O preconceito contra a polícia encontra nestes falsos cidadãos a sua maior fonte de propaganda. Mas como todo preconceito, este é mais um carregado de injustiça e suicídio social.

Injustiça porque a grande maioria dos policiais cumpre efetivamente o seu papel social, não obstante os enormes riscos profissionais e as baixíssimas remunerações. Suicídio social porque afasta desta fundamental atividade aquele profissional que sonha e quer fazer do seu mister um exemplo de respeito e proteção cidadã. Terminei a nossa conversa convencido de que deveria tornar pública a questão do preconceito policial, até porque a compreensão de um erro é a mais eficaz forma de combatê-lo. Policiar o nosso próprio preconceito é tarefa diária que não de pode deixar para depois, ainda mais quando envolve questão essencial para a vida de uma sociedade.

Hoje estou mais convencido de que apoiar e estimular as pessoas que sonham, inclusive o bom sonho de ser policial, é também uma excelente forma de combater o crime organizado e a insegurança pública.

 

(*) Cezar Brito é advogado, conselheiro Federal da OAB e presidente da Sociedade Semear.
cezarbritto@infonet.com.br

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