Por uma História do Povo Negro Laranjeirense

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Maria da Conceição Bezerra dos Santos Sobrinha

Graduanda em História/PICVOL

Universidade Federal de Sergipe (UFS)

 

Por diversas vezes ao longo da história de Sergipe observamos diversos intelectuais adjetivando a cidade de Laranjeiras, reverenciando a qualidade de sua grandiosa cultura. Chamado de “Atenas sergipana, berço da cultura Sergipana”, entre outras nomenclaturas, o município de Laranjeiras tem a sua relevância cultural reconhecida. Mas, o mesmo não acontece com o seu povo, os sujeitos de sua história e cultura. Uma pesquisa de contato nos faz conhecer Laranjeiras sob a ótica do seu povo e, para o espanto da intelectualidade tradicional de Sergipe, este povo não se enxerga, nem vê a sua cidade como herdeira da Grécia ou outro país europeu.

Em Laranjeiras podemos ver nas ruas da cidade, nas pessoas e na maioria dos lugares de memória, a herança cultural da África mesclada às culturas europeias e indígenas, adaptada ao continente americano. Tal fenômeno supõe uma coesão social, vivida pela população laranjeirense, de maneira especial entre os negros. Estes negros, ao longo de mais de quatro séculos vêm mantendo a sua memória e transmitindo aos mais novos. Conservam suas tradições por um longo tempo, mesmo que estas sejam reinventadas, reelaboradas e atualizadas.

As manifestações culturais das Taieiras ao Cacumbi têm uma base profunda na vivência e história do povo de Laranjeiras, permanecendo ligadas aos seus líderes, estejam eles mortos ou vivos. Suas lideranças são chamadas pelo nome, pois são reconhecidos como sujeitos. Ou seja, as manifestações culturais de Laranjeiras não são meros espetáculos, simples danças ou festejos. São verdadeiros rituais de celebração ancestral e de transmissão de seus modos de vida e saber, a forma de vida do negro laranjeirense. Ali vemos representadas as formas de pensar, agir, educar as suas crianças e manter a coesão grupal, o respeito aos mais velhos da comunidade, a celebração aos mortos e o culto dos santos.

Os negros de Laranjeiras têm pensamento, força e organização autônomos. Suas manifestações culturais são políticas, religiosas e, sobretudo, memorialistas. Laranjeiras é um modelo de manutenção e transmissão da cultura afro sergipana, pela força que tem, pela dinâmica e união. Esse poder, segundo a historiadora negra sergipana Beatriz Nascimento, advém do quilombo. Urge que nós, filhos negros da academia, reconheçamos que já passou da hora de Laranjeiras ser estudada pelos próprios conceitos, premissas e vivências de seu povo. Pois, a complexidade de Laranjeiras não cabe em quadros conceituais e arcabouços teóricos marcadamente brancos e elitistas. Assim, poderemos construir na historiografia sergipana, uma história do povo negro laranjeirense e uma história afro-laranjeirense para ensinar nas escolas.

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